Archive for 2011

Última tragada de ilusão



Fabian Perez

Com o cigarro queimando entre seus lábios, lembrou o fascínio que era fumar a algumas décadas atrás. Ouvira um dia desses algum jovem metido a intelectual afirmar que o mundo está se encaminhando para a decadência... Com isso, ele tinha que concordar, afinal de contas por que toda essa preocupação com os vícios das pessoas? Deixava o cigarro e a moral dele em paz e fossem procurar imoralidades nas próprias vidas, mas dizer que fumar era ruim? Feio? Ah, tantas mulheres caíram nos braços dele por conta de uma tragada profunda... É, o passado sempre soava mais brilhante. O futuro estava cada vez mais banal.
Agora fumava o último cigarro da última carteira, pois se entregara aos tratamentos contra um câncer no pulmão, que diziam ser causado pelo fumo. Mentira, pensava ele. Aquele câncer é coisa de fim da vida, natural a qualquer ser humano vivo. Apenas chegava o seu fim e a opção do seu corpo fora por um câncer... Poderia ser outra doença, ora.
Porém, o último cigarro cessou. A nicotina foi passando; o seu efeito e as ilusões, também. A realidade não era mentira, a doença e sua causa, também não.

Terror psicológico


The death of Chatterton - Henry Walls


De Agatha Christie a Conan Doyle, percorreu alguns contos de Allan Poe e descobriu-se assassina de tudo. Sonhos, vontades, homens que a ignorava, qualquer poeira varrida pelo vento... Era tudo motivo de suspeitas. Crimes que sua mente arquitetava. Tornando-se louca, imaginou ao redor uma gama de malucos. Familiares conspiradores, amigos falsos e animais demoníacos. Para não correr chances de ser a presa e também para não se tornar a predadora, desapareceu do seu próprio caminho, entregando-se ao último suspiro dos suicidas. Morreu, assassinada pelo seu terror.

O ocaso da solidão



Reflections in the sun - Fabian Perez

Tinha se acostumado com a sua solidão. Até que sorrateiramente sentiu-se acompanhada. Dia após dia, percebeu que caminhava junto de si um ser que nunca havia percebido antes. Um ser que, por mais leve e pouco notável que fosse, a complementava de forma brilhante. Pois o dia, na sua presença, parecia mais claro, mais limpo. Pois o ar era respirado com maior firmeza, maior satisfação. Aos poucos, procurou pela solidão e já não a encontrava. Passou a viver acompanhada e feliz consigo mesma, pois aquele ser que fora se descobrindo era a sua própria independência. Independente, acabou com a solidão e foi ser feliz.

Imbatíveis problemáticos


White and red - Fabian Perez

Ali brindavam os sobreviventes. A crise viera para desempregar muitos e deixar assalariados somente alguns. Os poucos, numa simples festa de fim de ano, ali estavam. Cada sorriso estampado na cara era apenas uma farsa impensada. Realmente, sem pensar nos problemas que todos tinham – nas dívidas, nas papeladas da firma, nas dúvidas afetivas, nos descasos familiares – aqueles funcionários brindavam e sorriam para demonstrar a aparência dos “vencedores”, “melhores” e “imbatíveis”. Sim, porque até mesmo cheios de crises pessoais, aquelas pessoas tinham que oferecer aqueles sorrisos. O que aquele mundo perverso exigia não era a felicidade real, mas a forjada. Pois os forjados eram os sobreviventes.

Dona de casa


The color of daylight - Jeffrey T. Larson

Depois de observar as sujeiras do cotidiano da família escorrerem pelo cano da pia, ela estendia as roupas no varal, sentindo o aroma floral do produto de limpeza no ar e o calor do sol na pele. Com as mãos úmidas e os olhos também, lamentava sua solidão quase serviçal. Ninguém ousava aparecer por perto com receio de serem convocados a ajudá-la naquela tarefa. Porém, aquele foi o melhor momento do dia para perceber uma verdade: assim como o vento, que varre o campo, imagina ser dono das verdes gramas e, no entanto, se engana – ela agora bem percebia que, apesar de varrer, lavar e limpar aquela casa, não passava de uma simples dona de casa, sujeita às sujeiras dos donos da casa.

Simples viver



Castilla I - Miguel Marazuela

O casebre era vestido de uma fantasia imutável. Quem por ali passasse, lamentaria a pobreza do mundo. Lamentações inúteis. Os donos da casinha apenas esqueceram-se do mundo e da mania de riqueza das pessoas. Sem fantasias, apenas eram tão felizes na simplicidade daquele lar, que a feia aparência servia para afastar intrusos que, por ventura, sempre ousavam em perturbar os seres felizes. Ali dentro do casebre viviam um homem idoso, sua senhora esposa cega e seus três comportados cachorros. O homem não havia mais o que apreciar do que a beleza do amor da sua esposa; a senhora, cega, não enxergava a feiura da casa, somente sentia-se amada; os cachorros, completudes daquela fidelidade, não eram humanos para se importar com padrões de beleza. Simplesmente viviam naquela imensa e feliz simplicidade.

Platônico


Patience is a virtue? - Karen Cooper

Quando a dor de cabeça insistia em lutar contra ela, o seu amor platônico era o sussurro simples que a curava. Quando o cansaço de um dia desgastante surgia, ela relembrava a face nobre do seu amor platônico e logo se sentia fortalecida. Quando o calor da cidade a trazia problemas no dia-a-dia, ela recorria à frieza do seu amor platônico para se sentir melhor. Quando suas dificuldades pareciam insuperáveis, ela pensava que nada era mais platônico e impossível do que aquele imenso amor. De fato, aquele homem a quem ela tanto desejava nunca saberia o quão importante ele era na vida daquela mulher. Ser platônico, na verdade, tornava esse amor singularmente essencial para ela, como um remédio para todos os males, como um colo de um guerreiro que tudo combatia para protegê-la.
Ela simplesmente amava-o ainda mais, por platônico ele ser.

Música assassina


Andrew Atroshenko


Na manchete do jornal mais importante do país, em letras graúdas, a notícia trágica da destruição por incêndio do teatro nacional, numa noite de espetáculo musical. Apenas uma morte foi registrada – de uma moça que compunha a orquestra que tocava no instante do acidente. Por trás das páginas cinzas do noticiário, havia a estória de amor daquela moça pelo seu instrumento musical. O violino era como a extensão do seu corpo que tocava notas agudas de felicidade. Sempre que ela se apresentava – houvesse ou não público para assisti-la – ela se esquecia do universo ao seu redor e só voltava a si quando terminava sua apresentação. Essa foi a sua causa mortis naquela noite: tocando seu violino, morreu na fogueira da sua própria ilusão, sem sentir dor, apenas o calor da felicidade das notas musicais.

Criança em fagulhas



Young black child - Maria Saldarriaga

Fogos explodindo acima da sua cabeça. Gritos que não diziam palavras, apenas gritavam. Ouvidos congestionados. Visão embaçada pelas lágrimas. Profundo desamparo, não sabia para onde correr, nem quem seguir. Não sentia mais as mãos dos seus pais lhe protegendo. Uma noite tremendamente escura que não parecia nunca acabar...
A criança afegã acordou assustada do pesadelo. O quarto do orfanato estava sendo iluminado por fogos de artifício que explodiam no céu lá fora. Não tinha seus pais ao seu lado, apenas algumas cobertas. O pesadelo que acabara de ter nada mais era do que as lembranças de um ano de guerra constante no seu país. Agora, a criança assistia à turbulência de um país diferente comemorando a chegada de um novo ano. Comemoração que trazia tanto as lembranças terríveis como a esperança – esta última coisa ainda tão pouco compreendida.

Carta de divórcio



The dream - Pablo Picasso

Eu quero a ilusão calma de uma manhã sem ti. Eu quero o alívio de acordar do pesadelo de tê-lo por perto quando em vez. Eu quero o vazio da sala, quando bates a porta e sais gritando ao vento o quanto sou ingrata. Ingrata? Claro, não agradeço mesmo teus alardes, teus insultos de homem machista sem freio e tua burrice de homem que pensa que manda em casa. Eu continuo, em cada anoitecer, a desejar a infinitude das tuas noitadas, embriagadas e traíras, só para não ter que olhar na tua cara. Prefiro a cama só minha, pois ela é mais calorosa sem teus nojentos roncos.  Mas, acima de todos esses quereres, eu apenas quero que me compreendas, que me realizes e vai, de uma vez só, embora. Pois “a boa hora” da partida já passou há muito tempo. Vai! Em péssima hora, mas apenas vai! E gaste todos os teus escrúpulos com outra mulher, pois essa mulher, que te escreve essa carta, se apaixonou por outra pessoa: ela mesma! Completamente apaixonada por mim, te mando para bem longe – seu ingrato!

Missão espiritual


Lucy and Camila - Fabian Perez


O esposo de Maria tinha apenas poucos meses de vida. Era difícil encarar que em tão pouco tempo Maria iria perder o amor da sua vida. Sentindo um forte anseio por ter um filho do homem que partiria em breve, ela engravidou. Nove meses foram o tempo que restou de vida do homem e o tempo que daria ao mundo um menino. Um dia antes de a criança nascer, o pai morreu. E no dia em que a criança nasceu, Maria também morreu.
Falecida no parto, Maria recuperou sua consciência no paraíso. Passou a procurar pelo seu marido falecido, uma vez que tinha em mente que iriam se encontrar no céu. Porém, um anjo surgiu para Maria e explicou-lhe: “Você morreu, Maria, porque cumpristes tua missão. Dera continuidade à vida daquele homem com quem se casou, pois, mesmo ele morrendo, foi ressuscitado no corpo do filho que acabara de dar luz. O mundo precisa daquele homem e agora você merece o paraíso”. Maria desfrutou pouco do paraíso, por estar sempre com saudades do seu amor. Compreendeu que missão cumprida nem sempre traz a felicidade.

Aposta



Paul Cezánne

- E ela veio toda prosa pedir para eu parar com meus vícios, para eu saber gastar meu dinheiro com a família...
- Meu amigo, família ingrata essa a sua que só pensa no seu dinheiro. O que? Eles não querem que você seja feliz jogando um baralhozinho?
- Pois é, são uns ingratos mesmo... Penso que não querem minha felicidade. Não percebem o quanto sou feliz jogando baralho com você, meu amig...
- GANHEI! Mas uma vez, ganhei! Passe os duzentos cruzeiros para mim! Não se demore, vá!
Entristecido, o perdedor entregou o dinheiro da aposta. Amigos, amigos; apostas à parte.  E as famílias dos apostadores? Mais à parte ainda!

Proteção divina



Muro de um castelo

Sua casa de esquina era alvo de assaltos constantes. Para se proteger, contratou vigilância, cachorros ferozes, instalou sensor de movimento, cerca elétrica, câmeras, alarmes barulhentos, holofotes, fortes cadeados e trancas para portas e janelas... Mas mesmo diante de tanta tecnologia e segurança, os assaltos persistiam e saiam vitoriosos. Cansado dessa situação, recorreu à proteção divina: mandou pintar nos muros da esquina uma frase supostamente bíblica, com letras bem graúdas – “Quem rouba, Deus não perdoa. O inferno só é cheio de ladrões”. Completou a pintura colocando um capítulo e versículo qualquer. Desde esse dia, nunca mais teve sua casa assaltada. Percebeu que, talvez, ladrão só tenha medo de perder o paraíso, porque no inferno, todos eles já viviam.

Herdeiros



The family - Gustav Klimt

Ela era tão feliz: possuía o homem da sua vida e acabara de dar vida a uma criança linda. O homem era tão feliz: acabara de possuir um filho, herdeiro e criatura a quem ele passaria todos os seus conhecimentos. A criança recém-nascida seria infeliz: acabaria entendendo que sua mãe só o colocou no mundo para segurar o marido, e teria que viver debaixo das garras de um pai rígido e inflexível, para quem tudo o que sabia era o correto, nada mais. Seriam esses três mais uma família que pensa ser feliz, carregada de heranças infelizes.

Ladrão de terços



Praying hands

Tinha um estigma mental. Adorava orar sentindo entre os dedos as contas de terços. Começou uma busca implacável pelo maior número de terços diferentes rezados. Comprar já não bastava; passou a roubar terços. Sorrateiro, como quem pedia perdão aos céus, furtava o terço e, em seus momentos de reclusão, entoava as orações sentindo as contas pequenas e grandes entre suas digitais. Porém, um dia, sem terços, foi parar na prisão, rezando e fazendo súplicas ao seu Deus. Ele fora condenado por roubar o terço de ouro da igreja central da cidade. Na cela escura, o ladrão de terços apenas suplicava por algum novo terço para por entre as mãos e rezar.

Contente


Christmas wishes - Heidi Malott

O menino, contente, correu pela casa quando soube que os presentes foram postos debaixo da árvore de natal. De longe avistou os pacotes brilhantes à sua espera. Contente, sentou-se ao redor da árvore, escolheu o maior embrulho e abriu: encontrou uma panela de pressão – Ah, filho, esse é o presente da sua mãe. O menino insistiu com o pacote médio; rasgou o papel dourado e encontrou um livro de matemática – Desculpe-me, filho, esse é o presente da sua irmã mais velha. Ainda contente, o menino recorreu a uma pequena caixa e a abriu rapidamente, descobrindo um relógio de bolso em ouro branco – Oh, querido, esse é o presente do seu avô, abra o último... Lá jazia um pequeno embrulho à espera do menino contente. Ele abriu – contente, mas desconfiado – e se deparou com uma camisa azul. A espera por um brinquedo fora sacrificada por uma simples peça de roupa. E as últimas palavras do sacrifício foram as da explicação de seu pai: Feliz Natal, filho, espero que esteja contente... Caso contrário, contente-se!

Felicidade negra


The colors of black - David R. Darrow

A senhora branca ficava vermelha de raiva. Era difícil suportar a ousadia daquela negra. Pele lisa, macia, traços simétricos, lábios cheios, olhos brilhantes, dentes impecáveis... Todo aquele arranjo facial quase perfeito irritava qualquer branquinha rica da alta sociedade. Pior ainda era suportar a alegria de viver daquela escrava. Não importava quantos dias de açoites seguidos, na manhã seguinte lá estava a pele negra daquela escrava a brilhar.
Um dia, a senhora branca perguntou discretamente à escrava o que a fazia suspirar de felicidade. A simples mulher negra respondeu firme: “Sou feliz, porque me amo antes de tudo. E exatamente por isso, não tenho inveja de ninguém”. Logo ela concluiu, porém sem falar: amor próprio era a loção de beleza que faltava àquela branca senhora.

Conquista



Make laught of it could happen to anyone - Giovanni Rosazza

Não foi o corpo delgado dela. Não foi a voz doce quase inocente dela. Não foi o olhar saliente e atraente dela. Não foi os fios dourados do cabelo em contraste com o cetim vermelho dela. Não foi o toque forte dela em seu ombro. Não foi a atitude voluptuosa dela. Não foi o oportuno convite para o apartamento dela. Não foi a escolha dela por vinho suave. Não foi o resto da noite inteira dedicado exclusivamente para ela... Nada disso foi. Foi a manhã azul clara que nasceu no outro dia... Foi a risada comprida que o acordou... Foi a imagem daquela loira descabelada, envolta num lençol, observando o céu a dar gargalhadas sem sentido. Foi isso que o conquistou para sempre. Quando ela explicou o porquê do riso, foi o arremate para a eterna conquista entre eles: “Ah, estou rindo porque acordei viva, pronta para amar por mais um dia”.

Teias de aranha



Little Acrobat - Kirsten Bailey

Encontrei hoje dentro da sua xícara de café uma teia de aranha. Perguntei-me  qual aranha ousou invadir seu santuário para construir um ninho. Não obtive respostas... Assim como também não ouço mais suas indagações infantis de como a vida se realiza. Saudades de suas indagações. Saudades suas me consomem. Mas não se preocupe, não deixei a saudade me abalar, tratei de lavar sua xícara e recolocá-la na mesa. Um dia, tenho certeza disso, você irá retornar dessa sua fuga e eu, como uma verdadeira mãe que sou, irei recebê-lo com um café quentinho em mãos. Falando em café, tenho que tirar o papeiro do fogo...
De longe, o marido ouvia o monólogo da esposa de frente ao retrato do filho. Este saíra de casa jurando nunca mais voltar. E nunca mais voltaria mesmo... Há quase um ano, descobriram o corpo do adolescente morto por envenenamento. Veneno de aranha.

Desenhado amor


Lucy in L.A. - Fabian Perez

Aquilo sim era amor genuíno. Não precisa de consentimento. Para onde quer que fosse, ele a carregava consigo. Em pensamento, em foto ou, por vezes apenas para confirmar suas lembranças, rabiscava o rosto delicado da sua amada no guardanapo do bar em que estivesse mais uma vez se privando de viver. Afinal de contas, porque viver se ela estava com outro? Preferia embebedar-se a manter a lucidez de um homem rejeitado. E, além do mais, era embriagado que conseguia fazer seus melhores desenhos e isso já era o suficiente para satisfazê-lo.

Estilosos



Vladmir Kush

Ela era cheia de estilo de se vestir. Cada assessório era bem combinado com cada cor de sapatilha que usasse. Cada bolsa ficava em equilíbrio com cada vestido de tecido fino que escolhesse. E ela sempre se irritava com os clichês, com as outras mulheres que se vestiam tão iguais, com os homens que não ousavam. Julgava os demais e adorava seu bom gosto. Até o dia em que conheceu um homem que mostrou a ela o estilo de pensar. Entre eles nasceu primeiro um relacionamento crítico que foi se tornando amoroso ao longo do tempo de batalha que esse homem travou com a mulher. Sim, batalha de mostrar a ela que as roupas pouco importavam. Batalha de fazê-la pensar dentro de si mais do que fora de si. Batalha de fazê-la entender que o que as pessoas pensam é a real essência...
Batalha vencida e comemorada quando ele conseguiu fazê-la se desgarrar do se vestir e, completamente nua, entregar-se ao pensar... Pensar nela mesma e, claro, pensar nele.

Despedida teatral


Reflect - Mary Jane Ansell


“Esse camarim não me fará falta. Os gritos, suspiros, olhares, sorrisos, por mais bem feitos, porém mentirosos, também não despertarão saudades. Deixo as máscaras para trás, com o orgulho de quem já conseguiu superar a mania de atuar – tanto em palco, como em vida. Cansada, largo os monólogos e vou viver. Viverei a realidade de um mundo que não pede que você decore as falas, simplesmente fale o que bem lhe aprazer...”.
De longe, a faxineira do teatro observava a atriz – que fora aposentada forçadamente no dia anterior – falando sozinha dentro do camarim que seria ocupado pela mais nova estrela do teatro. De longe, aquela era a pior de suas apresentações, pois a voz, embargada pelo choro de quem fora passada para trás pelo mercado de atrizes, deixava sua dicção terrível. Aquela atriz aposentada continuaria a monologar, no entanto, cada vez mais frustrada.

Dança assaltante


La colombiana - Fabian Perez


Uma simetria equilibrada requebrava na sua frente. Imensa vontade de delinear as curvas daquela dança contornava os seus pensamentos ressaltados. Lapsos mentais o atingiam como um assaltante discreto que rouba carteira, roupa, atenção, dignidade e vida – tudo de uma só vez. Quando se vê, já está praticamente perdido na tortura que era assistir àquela dançarina anônima. Sem nome, mas com todos os atributos que o faziam esquecer a própria identidade. E para que identidade mesmo? Embriagava-se com um copo de suco de limão puro, no qual o açúcar da bebida era aquele espetáculo.
Porém, espetáculo a parte, de fato aquilo era mais um assalto. Encantado e desatento, o homem gastava todo o seu dinheiro, além de estar sendo filmado e assistido pela esposa que, desconfiada, contratou um detetive e aquela dançarina – tudo para confirmar a fidelidade do seu marido. Ou melhor, futuro ex-marido, que dignidade e, quem sabe, até a vida seriam em breve roubadas por ela mesma.

Desarriscado


The last great romantic - Jack Vettriano

O longo tempo juntos só encontrou sentido naquele derradeiro momento. Perdia-se a vergonha, jogam-se todas as fichas em qualquer aposta... E ele apostou: antes de se despedir, aproximou-se dela, esqueceu qualquer receio, expôs seu desejo. Não pediu, mas deixou o ar se encaminhar do pedido – beijou-a nos lábios, coisa que sempre quis. Beijou e também foi beijado. Pena que era o primeiro e último beijo, pois tinha que ir embora. Ou melhor, logo ele fugiria. Arriscar-se, para ele, era um martírio. Aquele homem era mais um daquele tipo de pessoa para quem desejar algo fervorosamente não é o suficiente para tentar a conquista.  A sensação de ser reprovado o mantinha longe da felicidade. A esse tipo de pessoa faltam riscos bem vividos, beijos mais arriscados, medos superados.

Carta a Narcisa



Girl combing her hair - William McGregor Paxton

Cada traço doce do seu rosto a encantava tanto que ela costumava passar horas inteiras se observando. Talvez por apenas se admirar, ela não conhecesse nenhuma outra beleza mais acolhedora do que a sua própria. Um dia, sem ela perceber, seu pai mandou um pintor desenhá-la numa tela enquanto ela se admirava no espelho. Aquela pintura permaneceu escondida por muitos anos. Seus pais morreram e a velhice veio murchando a imagem da bela moça. Ela pensou que não iria suportar o resto da vida sem a sua beleza para admirar e caiu numa profunda tristeza. Porém, seu irmão, sentindo ser aquele o momento certo, mostrou a pintura e entregou uma carta do pai falecido assim escrita: 
“Filha querida, é uma pena que somente agora que a velhice chegou para você é que poderei falar algumas palavras e você poderá ouvi-las com atenção. Não pense que a felicidade existe na sua imagem. Acredite que as mais belas coisas estão longe do seu espelho. Aproveite o resto da sua vida e viva de verdade. Estou morto, porém se estivesse vivo olharia para o fundo dos seus olhos e diria que agora, velha e desfocada, você está incrivelmente mais linda do que a moça bela que apenas perdia a vida a se admirar. Beleza de verdade está na vida, filha. E por acaso, você já viu alguma imagem pintada da vida por aí? Com amor, seu pai”.

Paixonisse



The son of man - Rene Magritte

Ele um dia fora loucamente apaixonada por aquela professora. Os cabelos escorridos cor de vinho tinto delineando o rosto redondo e aquela boca sempre bem articulada em apresentar os assuntos da prova de história geral... Ah, as melhores maçãs verdes eram escolhidas para aquela professora! Bons tempos! Porém, só as maçãs eram percebidas e ele não recebia a atenção que tanto queria, pois a professora ria quando saía de sala de aula, achando graça daquela ‘paixonisse boba de aluno’. Mas o tempo passou e numa dessas passagens lá estava a professora de cabelos cor de vinho tinto sentada na plateia esperando por suas explicações de mestre numa especialização de história geral. Sim, agora era ele que recebia as maçãs e encarava aqueles olhos femininos cheios de encanto, surpresa e desejo. Agora era ela que pedia seu telefone “para tirar dúvidas” e perguntar se gostou da maçã vermelha... E ele? Ah, ele sempre preferira as maçãs verdes e ria daquela ‘paixonisse boba de aluna’. E como ria!

Memória apagada


Netley Hospital - Paul Smyth

Uma pancada na cabeça e foi parar na área de urgência do hospital. Medidas médicas tomadas e o diagnóstico no outro dia apontava que o homem perdera a memória. Entraram em contato com a esposa e os filhos, e estes foram imediatamente se apresentar diante do paciente. Nada. Eram todos estranhos para o acidentado. Mas ainda mais estranho foi o largo sorriso de alívio e satisfação que a mulher e as crianças deram diante da situação. “Obrigada, meu Deus! Finalmente iremos nos livrar desse homem ruim!”. A mulher deixou o número da conta bancário do homem na recepção para que ele pudesse sobreviver dali por diante sem família. Ela esperava que aquela vida recomeçada trouxesse um homem melhor. Já o recomeço dela e de seus filhos estava perfeito demais.

Sonhos sem fronteira



Dreamer - Jennifer Balkan

Acabara de passar pela Torre Eiffel, antes de chegar a sua cozinha, e começar a fazer a limonada com limões da China. Avistava alguns escoceses e suas gaitas de Highland no seu quintal. Riu das araras azuis amazônicas que brincavam no galho de roseiras roxas, que plantou no dia de Ações de Graças - que passou na pirâmide inca do México. Rindo, ela fechou os olhos. A confusão que via, sentia e vivia era todos os seus sonhos que não encontravam limites na sua realidade e invadiam-na, tomando conta dos seus espaços como se realmente ali estivessem. Ela nunca soube definir uma fronteira entre seus sonhos e a sua realidade; vivia ambos de uma só vez. Com o tempo, ela parou de achar isso um problema e aceitou com satisfação toda a sua imaginação tão fértil. Afinal de contas, quem disse que é preciso estar dormindo para sonhar?

Acidente


Woman grief - Cynthia Angeles

Ele fora um acidente. Qualquer erro que cometesse – uma queda, um bom dia esquecido, uma nota ruim, uma risada alta demais – era motivo para sua mãe relembrar que ele fora um acidente. Ele era um acidente contínuo na vida da sua mãe solteira. Foi perseguido com esse estigma até o dia em que, distraído, bateu o carro, estraçalhou-se nas ferragens, virou um morto-vivo. Sim, ficou em coma. Mas durou pouco tempo na cama da UTI, tempo este suficiente para ouvir o choro da sua mãe ao lado, lamentando aquele acidente de carro, pedindo a Deus que o acidente não tivesse ocorrido, que seu filho voltasse. Não entendeu como a mãe agora pedia que um acidente passasse para outro acidente voltar. Cansado e sem querer entender mais nada, acidentalmente, entregou-se ao fim.

Sede rabiscada



The dark room II - Fabian Perez

O garçom entregou um guardanapo rabiscado na mesa do homem. Uma caligrafia bem desenhada dizia: “Traga essa sua garrafa para cá. Junta essa sua vontade de se embriagar com essa minha vontade de ser bebida”. Poética, quase direta e bastante eficaz. O homem, alcoolicamente lascivo, aceitou aquele imperativo. Noite adentro, matou a sua sede com aquela mulher sedenta. Deixaram o limite ébrio do desconhecido se embriagar.

Tentativas desistidas


Just another day - Jack Vettriano

Ao longo do caminho de volta, ela pensava em voltar e gritar para que ele largasse aquela frieza e descansasse o corpo nos seus abraços tão desejados. Mas o corpo dela não sentia coragem de mergulhar naquele pensamento, naquela declaração. O seu corpo estava rijo de orgulho. Não se rendia a uma tentativa de amar. Porque no olhar dele – aquele olhar que nunca expressava nada – encontrou o medo de também tentar amar. Sem tentativas, sem declarações... Apenas a frieza reinava e os anseios perdiam-se no abismo da esperança que cada um deles carregava no peito. Por isso, ela resolveu dar as costas para ele e fazer seu caminho de volta. Continuou seu caminho reto, mesmo pensando naquela loucura incerta, cheia de rodeios e curvas escorregadias. Caminhando reto, ainda desejava escorregar, derrapar naquele amor gritante que ele resolvera, sem querer, despertar nela.
De longe, o homem observava a mulher desistir dele. Mesmo diante disso, ele ainda a admirava, pois pelo menos ela conseguia caminhar. Já ele, nem reto nem rodeios, apenas sem caminho, permanecia parado. Também, sem tentativas de amar.


Saborosa ajuda



Bodegón - Jose Paul Perez

Ele era uma das maiores referências mundiais em gastronomia e, também, um requisitado mestre de cozinha. Mas não era perfeito: tinha o defeito árido de criticar o mínimo tempero mal colocado ou a pitada de açúcar que faltava em determinado prato. Dizia para todos que achava toda a culinária do seu povo e das pobres donas de casas pura ignorância.
Um dia, viajando de carro rumo a uma cidade aonde iria palestrar, sofreu um acidente. Uma tragédia da qual somente ele saiu sobrevivente. No meio do sertão, saiu desolado pedindo socorro. Encontrou um casebre e sentiu o cheiro do feijão no fogo. Percebeu que estava faminto até ser notado pela pobre senhora. Recebeu as ajudas necessárias e até mesmo um prato farto do feijão. Experimentou e, dessa vez, sentiu o sabor mais incrível de toda a sua vida. A degustação o fez entender: a fome misturada com o prazer de poder ter comida naquele momento difícil tornou aquele feijão saboroso. E foi aquele prato simples da sertaneja que o socorreu – tanto da tragédia quanto do seu defeito de criticar tudo e todos.

Intocada



Ezquizofrenia II - Denis Nuñez Rodríguez

“Sabia que eu não permito que ninguém toque em você? Você deveria parar de surtar comigo, deveria me agradecer. Estou te protegendo, sabia? Hein, sabia? Pare de falar alto, ninguém precisa saber que estou do seu lado. Mas, olhe bem, eles são pessoas ruins; eles não podem tocar em você, por isso eu estou aqui... Sim, sim, eu estou aqui para te mostrar o quanto eles são ruins...”. Essa voz não se rendia aos altos lamentos da mulher. De fato, mesmo andando entre multidões, ela nunca sentiu alguém esbarrar nela. Todos se afastavam, não porque ela estava protegida como aquela voz bem repetia, mas porque todos sentiam repulsa e medo diante de uma mulher que falava sozinha, aos gritos, implorando para que a deixassem em paz. Ninguém entendia sua esquizofrenia. Ninguém, assim, poderia ajudá-la. E ajuda era o que mais ela precisava.

Vão amante



Cigar Bar - Brent Lynch

Ele adorava a falácia que via nos olhos das mulheres. Vãs mulheres. Mergulhava em cada pequeno romance como se fosse pedir a mão – e todo o corpo – da mulher em casamento no dia seguinte. Mas, rindo consigo mesmo, esquecia o que se passara no dia anterior, sempre que os seus olhos acordavam na nova manhã. Ele nascera para aquela vida suburbana. Sorrateira vida de quem esconde mágoas em copos de rum e em amassos descomprometidos. Sim, aquele homem escondia a sete chaves a mágoa de ter sido traído pela primeira mulher que amara. E, como se servisse de analgésico para sua própria decepção, passou a decepcionar cada uma das mulheres que com ele se envolvia. Passou a ver apenas falsidade nos gestos de carinho. Passou a enojar qualquer sentimento declarado. Então, desacreditado, nunca mais amaria. Apenas continuaria a pagar mais um copo de rum e a usufruir daquelas vãs mulheres.

Sentimento animal


Cat chasing a bee - Liu Shukui

Afundou-se na poltrona e acariciou o seu gato de estimação. Suspirou: “sabia que ele me pediu em casamento?”. A mulher estava realizada, iria se casar o mais rápido possível com aquele homem e, então, construir seu lar feliz. Desde esse dia, não demorou para o gato ter toda a sua vida mudada: casada, a mulher foi morar na nova casa, levando o gatinho. Porém o marido não considerou suportável viver com o bichano, providenciando imediatamente a venda do animal da esposa. Ela, apaixonada e com medo de decepcionar o marido, deixou o seu gato ser vendido, com lágrimas aos olhos.
O gato, profundamente apegado àquela mulher, mesmo muito longe, planejou a fuga e seguiu seus instintos à procura dela. Levou meses inteiros na rua... Meses estes suficientes para o casamento ser desmanchado. Sim, aquele homem pouco se importava com os desejos da mulher e não dava a mínima para ela. O divórcio saiu em menos de um ano. 
Separada, a mulher lembrou-se do seu gato querido... Foi quando ouviu o miado dele vindo da janela. Ela logo compreendeu que era melhor amar um animal do que um ser humano. Pois amor, na realidade, era um sentimento animal.

Paixão mortal


The letter - Jack Vettriano



‘Lembre-se de mim’. Foi assim que terminou o bilhete. Sim, não era uma carta, longa e densa, apesar de seus sentimentos assim serem. Era tão denso o que sentia que este era o motivo de ela o estar deixando. Pesava na sua alma aquela paixão. Como se os abraços dele fossem sentenças de prisão perpétua. Como se os beijos dele fossem pequenas doses de veneno. Aquela convivência a estava sufocando, matando aos poucos como um câncer sutil. Mas o que ela sempre procurou não era aquele inebriante amor. Um relacionamento leve, isso sim.  E mesmo que não conseguisse encontrar mais ninguém, só em pensar na leveza de estar sozinha, já se sentia medicada.
Tomada a decisão, deitou-se no divã e, sem querer, adormeceu. Não reparou na hora que ele chegou e leu o bilhete solto entre suas mãos. Não reparou quando ele atirou contra seu corpo indefeso. Não teve vida suficiente para ler o bilhete que ele deixou antes de sair da casa: 'lembrar-me-ei de você, meu amor, não se preocupe'.

Saga fantástica


Vladimir Kush


A mulher-borboleta corria os nove mares da região oeste do território inimigo. Lutava para não deixar seu perfume escapar pelas suas asas, pois só através disso os homens morcegos poderiam rastreá-la. Sentiu saudades do seu paraíso floral. Paraíso este que seria o inferno para aqueles seres da escuridão. Porém, não se sentia fraca e nem queria desistir de um dia encontrar a pétala perdida... Com esta, o portal mandaria os suspiros celestes e, logo, suas asas funcionariam! Por enquanto, continuava a correr. Até que uma luz invadiu seus olhos...
A mulher acordou com a fantasia de seu sonho na cabeça. O sol acabara de invadir seu quarto. Algumas flores do seu jardim pareciam brilhar na sua janela. Lembrou-se de cada detalhe do sonho e, em um salto, pôs-se de pé com uma ideia brilhante: “vou escrever um livro!”. Aí nasceu um best-seller.

A voz da concha


Shells on the shore - Susan Jenkins



Brigaram. Ela saiu correndo aos prantos. Internou-se na própria casa. Fez greve de socialização. Demorou um tanto de dias para voltar a sair. Deixou as lágrimas faltarem, a respiração cansar de ser violenta e o coração parar de acelerar. O tempo não cessava de passar e veio o dia em que ela resolveu sair. Escolheu a brisa do mar e a areia da praia como companheiras de reflexão. Afinal de contas, não foram muitos dias que se passaram e a briga ainda estava pendente. O amor dela também... Tropeçou! Despertou para a realidade de frente a uma concha marinha. Pegou-a e pôs no ouvido. Porém, ao invés de ouvir o barulho do mar, ouviu a voz dele. A voz do seu amor pendente. “Por favor, desculpe-me, eu não te esqueci...”. Ela achou real demais para ser coisa da sua cabeça, então se voltou para trás e o viu. Ele também havia escolhido a brisa do mar e a areia da praia como companheiras para aquele amor pendente. Perdoaram-se. Amaram-se ali mesmo. E a concha permaneceu em silêncio.

Esposa contemplativa


Figura assomada a la ventana - Salvador Dalí

O homem acordava e não encontrava a esposa do seu lado na cama. O homem tomava café, almoçava e jantava sem a esposa o acompanhando à mesa. O homem saia e voltava para casa e não tinha a esposa para dar-lhe adeus ou recebê-lo de braços abertos. Ele – marinheiro de longa data – era recém-casado com uma pobre moça sertaneja, eis a razão. E como sertaneja, a moça nunca havia visto o mar. Indo morar com o marido, perdeu o resto da sua vida apenas na pura contemplação daquilo que ela nunca ouvira falar. A mulher tinha medo de um dia, tirando os olhos da praia, o mar sumisse e o sertão voltasse.


Avaro amor



Purse - Vladimir Kush


Pudesse surgir a mulher mais bela para aquele marido, mas nenhuma substituiria a essencialidade da sua esposa. Da mesma forma: nenhum homem, o mais charmoso e instigante que fosse, mudaria os fortes sentimentos daquela esposa pelo seu marido. Formavam um casamento de pilares rígidos, sempre juntos, sorrindo e expondo a riqueza do seu relacionamento. Sim, literalmente, expondo a riqueza de ambos. 
Ela foi feita para ele, com toda a rica conta bancária da sua importante família. Ele foi feito para ela, como herdeiro único da fortuna de uma das maiores multinacionais do planeta. E o enlace entre ambos era complementado por uma forte avareza. Eram felizes porque nunca encontraram outra pessoa mais avarenta do que eles próprios. Foi o jeito avaro e mesquinho de ambos que os fizeram se apaixonar um pelo outro. Além, claro, dos milhares de dígitos dos seus saldos bancários.

Palhaçada



Três palhaços - Georges Rouault

O menino amava os circos e, principalmente, os palhaços. Gargalhadas eram fartas sempre que entrava em contato com as palhaçadas. Porém, de tanto ir ao circo, um dia o circo retribuiu uma visita à casa do menino. De madrugada, três palhaços invadiram sua casa, amarraram sua mãe, bateram no seu pai e levaram todos os objetos de valor que lá havia. Antes de irem embora, no entanto, os palhaços intrigaram-se com a seriedade do menino que permanecia olhando-os fixamente. Sentiram-se ameaçados pelo olhar da criança e, por isso, decidiram matá-la. O espírito do menino morto foi buscar nos céus os circos sagrados para gargalhar.

Gorda vida



Sitting woman II

Desde menina, o que ela mais amava fazer era comer. Por isso, suas fotos de criança eram registros de toda a sua fofura. Foi uma criança quase obesa, uma jovem gorda e guiou-se no caminho de uma adulta gordinha – sempre comendo para se sentir feliz. No entanto, quando se tornou uma grande empresária, todos os seus assessores impuseram que a magreza era necessária para cultivar a boa imagem da empresa. Regimes árduos, carboidratos limitados, açúcares determinados... Boa parte do seu gordo salário foi gasto com nutricionistas, ao invés de compras das melhores iguarias.
O regime a mergulhou numa profunda depressão. De mulher gorda e bem-sucedida foi ser mulher magra e mal sucedida. Perdeu o ânimo dos negócios e encaminhou a empresa à falência. Porém, não se deixou abater: hoje é uma simples e gorda secretária, ganhando o necessário para fartar-se com aquilo que a deixava mais feliz: comidas, comidas e comidas.

Abstrata


Zhannet - Serhiy Reznichenko


Era cheia de glamour e prazeres. Cheia de presentes... Tantos presentes que até se sentia uma deusa a receber diariamente oferendas de crentes religiosamente cegos pelo seu charme. Era exatamente o seu charme e todos os seus rebolados que os dominava. Porém, não importava a tamanha transcendência que ela era capaz de provocar nos seus galanteadores, nenhum deles ousava abstraí-la da simples crença para o real – ninguém a queria como companheira legítima, como mulher para toda a vida. Apenas a queriam como deusa nos momentos de pecados, queriam-na apenas para a sensação de absolvição, de ritual. Era por isso que sempre séria ela permanecia. Como uma imagem de santa imaculada, séria e de olhar fixo ficava. De santa, nada tinha. De deusa, também não. Tinha era muita solidão de mulher abstrata a observar homens fugindo das suas mulheres concretas.

Canto da sereia



Green Water - Kellie Marian Hill

Ela ouvia, em todos os crepúsculos, aquela voz suave como algodão a cantarolar. Percorria todo o bosque, se sentindo guiada pela doce melodia, invadia os pântanos e acabava sempre frente ao grande lago, procurando quem seria a fantástica cantora. Porém, a música cessava e sem nada se manifestar, voltava para sua choupana.
De dentro do lago, a sereia ficava confusa e atônita, sem entender como que seu canto fantástico atraia sempre aquela moça, ao invés de atrair os homens. A sereia assim permaneceria em dúvida, pois o que ela não sabia era que na mente e no coração daquela moça existia uma personalidade e fortes sentimentos de um homem.
Os transtornos sexuais ainda não haviam chegado ao mundo das sereias.

Amadora



Girl - Nina Reznichenko

Ela amava imensamente. Acordava sorrindo, porque o amor escapava pela sua garganta e esticava os músculos do seu rosto em uma bela risada. Andava como se penetrasse na terra um pouco do amor, que pelos poros dos seus pés, escapava. Deixava o vento assanhar seus cabelos para sentir um pouco do amor acumulado nos fios pretos se desprender e voar. O amor que ela possuía, de fato, não cabia mais dentro dela. Os espaços entre as vísceras já estavam ocupados; o sangue circulava com a dificuldade de quem tem um coração amante.
Mas não morria. Nem com todos os seus órgãos emperrados pelo amor, com seus neurônios embebedados pelo amor e seus brônquios afogados pelo amor... Não morria, exclusivamente por isso: por viver pelo amor. Todo o seu corpo era para, pelo e devido ao amor.


(autobiográfico e em homenagem a Cândido Sales Gomes)

Construção de homens


Telephone Building Lower New York - John Marin


De longe, o garoto observava: na rua, novas construções estavam sendo feitas. Havia homens suados debaixo do sol infernal, freneticamente martelando madeiras, quebrando asfaltos, cavando o solo, enterrando canos, serrando metais... O semblante de cada um daqueles homens era de puro terror. Terror da fadiga, do trabalho incessante, do salário tão pouco. Sim, o garoto sabia que o salário deles era pouco, porque, de longe, ele também observava seu padrasto: o cara de roupa social, debaixo de um enorme guarda-sol, de óculos escuros, ventilador apontado para o rosto e berrando ordens por um megafone. Este, com todas as mordomias, era  o chefe da construção e quem mais ganhava ali.
É, seu padrasto bem dizia: “agradeça e aproveite suas boas condições para construir seu futuro bem remunerado, ou se não você vai servir para construir o futuro dos outros bem remunerados”.

Rotinas quebradas



Room in New York - Edward Hopper

Tanto tempo juntos esgotou o enlace do romance entre eles, aquele gostinho bom da surpresa ao longo do processo de conhecimento mútuo. Agora, conhecendo-se tão bem, já não havia mais nada que os excitassem como antes. Então, um filho parecia bastante conveniente para quebrar o cotidiano. E, como num passe de mágica, tiveram um filho. As experiências de pai e mãe nutriram mais os desafios de casados... Porém, o que eles não haviam pensado antes era o fato de um filho ser para sempre, não como um objeto para sair da rotina, mas como um ser que os forçaria a criar uma rotina fixa.
Com o tempo, perceberam que não nasceram para serem pais. Infelizes, a única solução foi o divórcio. Com cotidianos diferentes, deram ao mundo mais uma criança com pais separados.

As graças do povo


The arena at Arles - Vincent Van Gogh


Sua tristeza caiu nas graças do povo. Percorria as ruas, tentando ser a mais transparente das pessoas, mas a cada esquina havia alguém apontando em sua direção e deixando alguma risada escapar. Sua vida social fora abatida como um palhaço de circo sendo vaiado e enterrado debaixo de tomates lançados pela plateia. Um dia, porém, resolveu mudar sua situação. A graça do povo caiu nas suas próprias risadas. Em praça pública, encarou cada rosto que a encarava. Riu de cada riso mal estampado. Permaneceu de nariz empinado, pronta para rir de quem tentasse a rebaixar. E percebeu que, sem entender o porquê de ser agora motivo das graças particulares dela, o povo parou de encará-la; o povo passou a se sentir ridículo por ser a razão de piada alheia. O riso dela deu a volta por cima. Rindo, concertou sua vida.

Ansioso violeiro


Dream in a dream - Fabian Perez


Dedilhando as cordas do violão velho, ficou esperando o mês de setembro acabar. Ficou aflito pelo começo de outubro. Ansioso pelo final do ano. E tinha todos os motivos para aquela sua derradeira espera. Já não possuía nada: perdera a família, os amores passaram, as dívidas cessaram. Desistira dos negócios; entregou-se a vida solitária. E, como um xeque mate, descobrira que sua vida minguava pouco a pouco devido a uma doença irreversível.
Aquela última descoberta servira como uma ótima ‘carapuça’. Já não tinha forças – nem vontade – de recuperar o tempo perdido, voltar à vida social, tentar um recomeço. Descobrir que o seu tempo estava acabando era reconfortante, pois já não ansiava por mais nada. Ou melhor, ansiava sim: pelo final dos seus dias. E, ansioso, continuou a dedilhar o violão.

Inférteis


In daddy's hands - Mats Eriksson


Casados a mais de vinte anos, nunca tiveram filhos. A princípio, porque queriam curtir o tempo, infinitamente devotados um ao outro. Logo após, porque não se julgavam preparados para educar uma criança. E agora, porque não conseguiam conceber a vida. Passaram a viver uma longa saga pela busca da gravidez. Foram envelhecendo ainda novos. Quem os visse saindo das clínicas de fertilização, perceberia um casal de jovens caducos.
Depois de anos tentando, nasceu uma bela criança. Mas a vitória não fora suficiente para apagar a caduquice que tomou conta do casal. A criança – que não queria nascer – ganhara como pais um casal de velhos desgastados. Um casal infertilizado.

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.