Archive for Janeiro 2012

Descolorida conexão



O Apple dela - David Hettinger

A luz artificial da tela do seu computador descoloria o mundo ao seu redor. Ela não percebia. Fingia que nunca encontrara cores mais vivazes do que as das redes sociais. Entupia horas da sua juventude com os relacionamentos fugazes das suas tantas contas virtuais. Porém era quando a bateria do notebook resolvia apagar as suas conexões que ela observava a vida palpável, os relacionamentos que estavam a sua espera, as cores que somente o dia – sem nenhuma grande tecnologia – conseguia envolve-la. Eis que surge o medo em cometer erros que não podiam ser excluídos, medo em causar aquele sofrimento que de fato faz doer o peito, e a leva a buscar o carregador... Precisava se conectar à superficialidade de uma vida virtual. Não podia correr o risco de viver de verdade.

Copos-de-leite


Portrai of Natasha Zakólkowa Gelman - Diego Rivera

Por ter a tez tão alva, por possuir fios dourados a escorrer pelo seu rosto e por estar esculpida sempre dentro de roupas brancas, aquela mulher era cercada de admiradores que a comparavam com a flor Copo-de-leite. Estes não se cansavam de enviar ramalhetes e mais ramalhetes de copos-de-leite. Alguns até ousavam alguns versos brancos.
No entanto, nenhum deles alcançava a conquista daquela dama. A razão para tanto era que aquela branca mulher não tolerava a falta de ousadia daqueles cavalheiros. A paixão viria quando surgisse diante dela um homem que declamasse longas poesias rítmicas – pobres ou ricas, porém com rimas bem explícitas – além de colorir o branco da sua vida com rosas e flores de cores sortidas. Enquanto não aparecia um homem corajoso e criativo o suficiente, ela se deliciava em ver tantos homens chorando seus ‘copos-de-leite derramados’.

Carta digital



Caixa de entrada - Carlos Ygoa

A gente reserva as declarações mais intrínsecas e especiais para por nas cartas. A magia de escrever no papel talvez desperte uma emoção mais gostosa de sentir. Não ocorre isso com você? Ah, que pena! Para mim, o digitar do mundo contemporâneo é um germe da dessentimentalização dos humanos. É ir contra a preocupação mental em produzir perfeições. Falta mais dedicação do remetente e consideração com o destinatário... Tal como agora, nessa minha divagação digital. Sou mais um poeta assentimental. As folhas brancas jazem abandonadas ao lado do meu computador que toca os versos “estou guardando o que há de bom em mim para lhe dar quando você chegar”. Quiçá, quando você voltar, algumas cartas terei para lhe entregar!

Afagos de agradecimento


Double Portrait - Lucian Freud


Quinze anos de idade. Aos quinze, ganhara aquela criatura pequena – ambos ainda novos. Agora, quinze anos depois, enquanto a velhice no rosto dela apenas mostrava breves rugas entre as sobrancelhas, naquele pequeno ser – que não era mais tão pequeno quanto antes – a velhice o arrastava para o fim. Ciente disso, a mulher concebeu seus dias para proporcionar os melhores últimos momentos para o seu querido cachorro. Como uma filha adulta que cuida da velhice de seu pai, como forma de agradecer por todos os instantes de apoio e carinho que lhe foi dado ao longo da vida – assim ela fazia, pois, melhor do que muitas pessoas, aquele cão esteve do seu lado, fiel, disposto a cuidar dela, dando o máximo de si. Agora o seu fim estava próximo e cada simples afagar da mulher era para deixar claro que nunca o esqueceria e que o amava profundamente. Ela era completamente agradecida por aqueles quinze anos de companhia.

Uma Eva fora do paraíso



Woman with Black Cravat - Amadeo Modigliani

Ela estava “naqueles dias” em que tudo desmorona por entre as pernas e, ainda por cima, põem a culpa na tal da Eva – culpada por ter possuído o dom traiçoeiro da curiosidade. Sentia-se mais uma Eva, contudo fora do paraíso; as maçãs da sua época de fato não são mais tão apetitosas como as de antes. Enquanto a Eva original teve somente seu amado e a natureza ao seu redor para aturar, lá estava ela, sensível, com tantos seres humanos para atender naquela repartição pública na qual era empregada. Ah, bichos carrascos! O pior de tudo aquilo era não ter o direito de pedir compaixão e calma, por ela estar “naqueles dias”. Para os homens – criaturas que ainda nutriam a ilusão de estar no poder – aqueles dias não significavam nada. Por isso, ela sobrevivia à flor da pele no meio daqueles bichos carrascos.

Inspiração impressa


Livros 5 - Norberto Nunes

Não tinha irmãos mais velhos em quem se inspirar. Não conhecia muito bem seus pais para neles se espelhar. À medida que ia crescendo, dentro do peito crescia uma vontade de se desprender dos brinquedos e buscar novos complementos. Descobriu, numa tarde nublada, uma estante cheia de livros. Afastou a poeira do tempo e leu alguns parágrafos. Sem perceber, acumulava em cima do lábio superior uma fina camada de suor – algo que tanto o irritava, mas que dessa vez ele não afastou, notando-se completamente absorto naquela ficção muda e estampada nas folhas daquele livro. Gravitou o dia inteiro ao redor daquelas páginas. Encontrou-se. Aquela estante mudou a vida do garoto. Descobriu nos livros a sua maior inspiração na vida.

O floricultor



El vendedor de flores - Diego Rivera

Era pesado seu trabalho. Confundia-se com um anjo terreno: carregava nas costas, dia após dia, demandas de sonhos, de desejos, de ousadias, de desculpas, de perdões, de pedidos, de convites, de felicitações, de bênçãos e tantas outros anseios.  Apesar de tanto, sentia-se leve como uma abelha que poliniza as flores – ele polinizava os humanos. Cada flor cultivada e carregada era entregue como uma semente de luz para as vidas que se permitiam sentir a maciez das pétalas ou cheirar os simples aromas. Fosse visto ou não como um bom emprego, ele era grato por ser um árduo floricultor de sonhos.

Paternidade velha



Washington prays for America - Rubber Durk

“Papai, minha professora me deu meio ponto por uma resposta bem respondida hoje...”. Sentado na escadaria da praça, ouviu a lembrança de mais um início de conversa morrendo. Recordou o garotinho, com a voz fininha, tentando todos os dias chamar atenção daquele homem majestoso, ocupado com os artigos do jornal. Também ouviu os decretos de pena de morte das conversas dados através de algum “hum” e “aham”.
Aquelas iniciativas do filho diminuíram, enfraqueciam-se diante da frieza paternal. As novidades tornaram-se segredos. A juventude os afastou. O pai, ficando velho, largou os jornais devido à dificuldade na visão para a leitura e, aposentado, passou mais tempo dentro de casa. Percebeu que não havia ninguém para conversar com ele. O tempo fez crescer o garotinho e o arrancou da casa daquele velho. Não mais teria aquela voz fininha e nem teve longos registros da voz grave que o tempo transformou... O pai velho nunca teve o prazer de ser chamado de velho pai.

Natureza desperta

Portrai of a woman - Pablo Picasso


Caem as folhas da sua primavera tardia; levantam voos os pássaros descoloridos com o tempo; acordaram do ninho seus desejos... E a manhã parecia gritar naquele silêncio. Nascia-se velha, tão quieta que era de impressionar quem a conhecesse deveras. Cheia de distrações alheias, nunca havia percebido a inquietude de si. Porém, agora que não tinha ninguém para cuidar – por ser uma psicóloga aposentada e por ser uma mulher sem filhos e sem marido – passava a reconhecer que ali dentro morava um ser único: morava ela mesma. Ela que nunca se entendia, que nunca se fez entender, mas que agora, afagando a relva verde dos pensamentos despertos, entendia que vivia. Passou a olhar para si.

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.