Archive for Dezembro 2013

Uma deusa


Lady with a muff - Gustav Klimt

Era uma deusa e não sabia. Acordava junto com o sol. Seus passos transformavam o dia. O toque suave de seus dedos acordava o sono de suas crianças. O café que preparava tinha o poder mágico de dar força para seu homem enfrentar os desafios da rotina. Controlava o tempo. Preparava-se para o trabalho ao tempo que embarcava as crianças no ônibus escolar. Selava a sorte diária do marido com o tocar de seus lábios. Partia para o corre-corre, bela, discreta, mas sempre encantadora. Tomava as decisões sem nunca deixar de ponderar o bem-estar de todos. Retocava o batom, enquanto retornava para o seu lar. As crianças eram postas para estudar. Alimentava a família. Com um suspiro, determinava o anoitecer. Com sua voz angelical, introduzia as crianças no mundo dos sonhos. Satisfazia o marido. E acalmava-se, por fim. Tantos destinos em suas mãos, tantos detalhes. Era uma deusa e ninguém sabia.

Amargo acordar


Sleeping Women - Tamara de Lempicka

Acordou pela primeira vez ao lado da esposa. Olhou as pálpebras dela ainda fechadas. Os lábios entreabertos, por onde passava uma respiração leve. Ao invés de se sentir encantada com aquele momento, se sentiu estranhamente amarga. Aquele seria mais um dia em que teria que encarar os olhares alheios surpresos e indignados. Pois aquela mulher ao seu lado era a razão dos seus dias terem se tornado cheios de críticas, sussurros mal intencionados, comentários falsos e sorrisos amarelados. Acabou se apaixonando por uma mulher de uma maneira que nenhum outro homem a fez se apaixonar. E com essa paixão veio todo o preconceito feroz da sociedade. Casada e amada, ela ainda não tinha certeza se seria capaz de enfrentar uma vida daquele jeito. Amargurada com aquele pensamento, fechou os olhos. Preferiu voltar a dormir.

O imprevisto


Drag - Zack Zdrale

Nunca soube como lidar com a imprevisibilidade da vida. Quanto mais admitia isso para si mesmo, mais surgiam situações fortuitas no seu dia-a-dia. Frustrava-se cotidianamente. Vivia em um inconformismo quase absoluto. Sentia que não tinha capacidade de planejamento. O que ganhava era sempre uma profunda descrença em si mesmo ou uma raiva impertinente das pessoas ao seu redor. Como podia ser a vida assim tão inesperada? E então, em um desses acontecimentos imprevistos da vida, toda a raiva, o inconformismo e a frustação se acabaram. Uma causa completamente imprevista o atingiu. Morreu de forma tão fugaz que nem teve tempo de refletir sobre a impermanência daquela sua vida. Cessou-se, para ele, o imprevisto.

Infeliz paixão


Hombre - Alberto Pancorbo

Tão apaixonado que ele era por aquela mulher! Tão encantado pelas ações dela, pelo comportamento dela, pela beleza dela... Enlouquecido de paixão, mas sem chances de se expressar plenamente. Seu mal era viver em uma sociedade onde homens não podem se apaixonar perdidamente pelas mulheres. Os homens não devem se expor tão submissos à paixão por uma mulher. Pois os homens são seres superiores e o amor é armadilha para os fracos. Declarar-se louco de amor por uma mulher era declarar sua própria fraqueza. Eis o martírio daquele homem tão apaixonado. Eis a infelicidade das mulheres daquela sociedade.

A espera


Girl in white dress - Hollis Dunlap

A espera pelo marido começava ao entardecer, depois que todos os afazeres de casa já haviam acabado. Ela sempre lembrava o início do casamento: a pontualidade do marido em casa, disposto a jantar ao seu lado. Em seguida, sentia na alma as lembranças mais recentes de um marido que se atrasava, sem justificativas e sem paciência para nenhuma conversa.  Aquelas esperas já faziam parte de sua rotina. Até o velho sofá já tinha o formato do seu corpo. Suas noites passavam num sofrimento calado. Assim como os bons sentimentos que daquele casamento se afastavam.

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.