Archive for Janeiro 2014

Carta de herança


The artist's father on sick bed - Franz Marc

   Queridos filhos,

Estou inteiramente velho. Corpo e mente. As articulações estão de tal forma envelhecidas que quaisquer estralos são prenúncios da morte. Mas ainda me sobrou forças e sanidade para escrever essa breve carta a vocês. Serei direto: quando eu morrer, por favor, não decretem guerra pelos os meus patrimônios. Vocês são irmãos e mesmo com suas diferenças, com o tratamento específico que dei a cada um (porque nenhum pai trata seus filhos de modo igual), não há motivo para serem rivais em razão de bens materiais. Serão mal vistos. Mas, mais do que a aparência, o que me preocupa é o caráter de cada um de vocês. Quero morrer deixando essa mensagem em prol de um caráter íntegro e imaterial. Pois isso é o que importa. A morte vem e o que fica não é o patrimônio que obtive - este logo se desfaz - mas o caráter que tive. E eu bem que poderia estar fazendo um testamento ao invés dessa carta... Mas deixarei a tarefa materialista para o destino. Reservei-me da tarefa mais nobre. E é com essa mais pura nobreza que, então, me despeço, 
Seu velho.

Olhos enxutos


Q Train - Nigel Van Wieck

Ela sentou-se no banco do metrô vazio e esperou as lágrimas descerem. Mas elas não desceram. E ficou ainda mais triste com isso. Na sua infância distante, o choro costumava ser sua redenção. O lugar-comum dos seus alívios. Porém, parece que, além da sua inocência, o tempo levou também sua capacidade de chorar. Mesmo com tantas decepções acumuladas, mesmo com todo aquele sentimento de tempo perdido... Não pôde contar com suas próprias lágrimas. Era o cúmulo da solidão. O atestado da sua imensa fragilidade. Ali ficou, no banco daquele metrô, uma recém-adulta só e frágil. Voltas e mais voltas, de olhos vazios.

Carta ao carteiro


Still Life with ink bottle book and letter - William Michael Harnett

   Sr. Responsável pelos Correios dessa cidade,

Eu não o conheço, por isso não me dirijo ao senhor pelo nome. Mas suspeito que talvez me conheça. Sou eu o homem que manda todo santo dia uma carta endereçada a uma senhora que vive na capital do país. Não há um dia sequer que eu não tenha escrito uma carta a ela. Mas minhas respostas nunca – digo, nunca! – chegaram até mim. Não entendo a razão de não haver cartas de resposta. Tenho profunda certeza de que essa senhora me ama o suficiente para escrever – quiçá, todo santo dia! – cartas para mim. Então, cheguei à conclusão de que o senhor ou os seus subordinados carteiros estejam conspirando contra esse velho homem apaixonado. Talvez tenham inveja de ainda existir um amor verdadeiro via correios. Talvez sejam homens muito mal amados ou sejam desses que vivem se correspondendo por esses meios virtuais tão fugazes... Mas não me importa quais são seus problemas, senhores! Apenas exijo que prestem seu serviço direito! Entreguem-me minhas correspondências!  Porque o meu  amor é recíproco e isso é inquestionável!

Atenciosamente, Platão.

Sua perfeita escolha


Suicide - Amber Christian Osterhout

Uma bela casa, carro, emprego. Uma família unida, pais fiéis e dedicados ao extremo. Formou-se na melhor faculdade, no curso mais promissor. Ao seu lado, a mais bela das mulheres. Tinha saúde física, amigos, ótima condição financeira. O mundo parecia estar aos seus pés. Sua vida era perfeita aos olhos de todos. Vivia tudo aquilo que sonharam para ele, mas nada que ele havia escolhido. Quando fez sua primeira escolha, o estômago embrulhou, as lágrimas escorreram, não conseguia respirar e o coração acelerou... Até parar. O sorriso que restou estampado no seu rosto foi o único e verdadeiro pela primeira e última vez. Tornou-se o homem mais feliz do mundo naquele breve momento de adeus.

Em parceria com Raphael Craveiro.

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.