Archive for Fevereiro 2015

Cidade prostituta


Alta - Mário Fresco

Aquela cidade era como uma prostituta velha. Cujas rugas são o que há de mais atraente nela. Cujos lábios eram pintados da cor da moda, para se manter atualizada.  E seus clientes mais comuns eram jovens a procura da experiência exata. Uma velha prostituta, eternizada pelos gozos mais sinceros. Que trabalha manhã, tarde e noite. Pois combustível para o prazer nunca lhe faltou. Aquela cidade, mais conhecida pela sua universidade, recebia de braços (e pernas!) abertos uma leva de universitários. Todos com sede de conhecimento e de prazer. Recebia e se despedia deles, quase todos os dias! E era prostituída, abusada, acariciada, elogiada, xingada, engrandecida... Desde memoráveis séculos passados. Sempre grata por cada um que por sua cama passasse.

Sussurro antes do embarque


Trust (serie Lovers) - Lynn Noelle Rushton

Monta acampamento em mim. Sou terra fértil. Não tenho cercas, nem muros, nem limites. Mas sou lugar seguro. Não há como forasteiros adentrar esse território que sou. Porque sou lugar feito para ti. E só a ti te serve. Aposenta tuas mochilas e teus pares de tênis de viajante. Guarda as experiências de fugas pelo mundo no baú da memória. E vem erguer moradia aqui. Uma cabana simples. Uma fortaleza grandiosa. Ou qualquer outra estrutura que desejar. Apenas vem, pois em mim há um pouco de qualquer lugar que tu já tenha ido ou pensa em ir. Só que com uma diferença: aqui não há motivos para fugir, porque aqui não precisa ter medo de ser o que você é. Nem de mudar isso que você é. Essa terra suporta tuas nevascas, vendavais e primaveras. Todas as tuas transformações. Pois nasci para te sustentar. Para te servir de base. Eis minha felicidade: servir a tua felicidade. Então... Assenta nessa terra? Não embarca... Casa comigo?

Anjo suburbano



Kierra (detalhe) - Michael Shapcott

A menina, com roupas simples e com um pássaro preso entre os dedos, ficava encostada ali nas esquinas da cidade movimentada, tentando chamar atenção. E chamava. Os olhos claros e sérios, o pássaro estranho e a voz angelical irrompiam o cenário urbano. Ao seu redor pessoas aleatórias se amontoavam para admirar o talento daquela criança. Sem instrumento algum, a menina passava os dias a cantar, a impressionar com sua voz de anjo. Sua imagem circulava o mundo virtual. Sua voz se propagava de celular em celular que a gravava. Mas ninguém perguntava seu nome. Ninguém se importava com sua história. Os que, por uma centelha de segundo, se importavam, atiravam algumas moedas na bolsinha que aos seus pés permanecia. E no final do dia, quando o movimento urbano reduzia, as moedas eram reunidas pelo homem que se dizia seu pai – cujo trabalho era permanecer distante a observar a filha – e esta, com a voz de anjo engolida, seguia os passos dele. De volta ao subúrbio. Onde sua voz pouco importava. Onde tinha nome próprio. Onde sua história se fazia.

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.