Archive for Agosto 2014

Fotógrafa da realidade


About a girl - Emma Leonard

Colocou o seu olho esquerdo na mira da câmara e esperou pelo momento certo. Desde os quinze, ela se aventurava naquela arte de estacionar no tempo os momentos. E eram exatamente aqueles momentos que corriam espontâneos - soltos, livres, sem qualquer intenção - que ela buscava estacionar. Na sua frente, as pessoas não eram modelos. A última coisa que desejava era poses formuladas, sorrisos-estátuas, olhares sem brilho pelo tempo que passavam vidrados, sem piscar. O que sua lente mais ansiava eram os movimentos, o desconserto das expressões que viviam, o ângulo natural de um sorriso torto, aquela brincadeira real que surgia... Era a realidade que queria fotografar. Por mais desafiador que fosse, tudo era recompensado pela alegria sincera que transbordava das pessoas depois que elas, no fim, com as fotos em mãos, recordavam aqueles momentos, jeitos e sentimentos únicos ali registrados. E sempre, diante dessa recompensa, ela reafirmava que aquela era a sua missão.


Para (e inspirado na) Kívia Rodrigues.

Ambição própria


Caretaker - Sally Storch


No caminho para deixar os filhos no colégio, ela passava sempre em frente a uma imobiliária. Parava diante da vitrine e ficava observando uma maquete de uma grande casa. Deixava alguns minutos de seu dia passar ali, parada, a reforçar dia após dia aquela sua única ambição: ser proprietária de uma casa. Sempre viveu de aluguel. E viver na casa dos outros era algo com o qual ela nunca se conformava. Mas o marido, que possuía um salário muito baixo, afirmava que eles deveriam investir na educação dos filhos e não numa casa própria. Ela concordava, com a esperança que os filhos, no futuro, retribuíssem o esforço dos pais, dando a estes uma casa para chamar de sua. E repetia, sempre que podia, esse encargo aos meninos. Ela só não notava a indiferença deles, que sempre passavam direto pela imobiliária, sem nem ao menos olhar a vitrine. A mãe não compreendia que cada um já tinha suas próprias ambições para perseguir.

Eternos planos




Seek - Iyan de Jesus

Tinha marcado no celular uma porção de despertadores, que nunca a acordava. Na estante do quarto, tinha um tanto de livros, que nunca lera. Guardava todas aquelas calças, que antes vestia bem, porque tinha planos de começar a dieta logo amanhã. Na bolsa, carregava sempre aquela agenda, com listas de tarefas - que nunca conseguia completar e passavam sempre para o dia seguinte. Eram tantos os seus planos que nunca se concretizavam. Mas nem por isso, ela se deixava desanimar: mantinha uma profunda fé no amanhã. Ainda que fosse mais um de seus eternos planos "ter mais fé na vida".

Bossa nova


El inicio - Luz Letts

Ele era todo bossa nova. Nada de assuntos críticos. Nada de preocupação com a vida social. O máximo de vida social que ele se permitia pensar era a troca de palavras com as pessoas da vizinhança, os colegas do dia-a-dia, os amigos de longa data. Vivia na calma de um samba tranquilo, num ritmo de barquinho que vai, enquanto a tardinha cai. E quando o assunto era sofrer, ele sofria com a devoção de um eterno apaixonado, sem deixar de mandar sua tristeza atrás de sua amada e pedir que esta regresse, para dar fim a qualquer saudade. E por ser todo bossa nova é que ela era inteiramente entregue à ele, pois fundamental era mesmo aquele amor.

Passado e ela



Close your eyes - Wlodzimierz Kuklinski

Virou as costas. Retornava para o presente. Mas ficou sentindo os olhos do passado a acompanhá-la. Insistentes e pesados olhos. No caminho do retorno, ela se sentiu triste, extremamente pesada, como se cada passo tivesse que levantar toneladas de ressentimentos do passado. Este que a culpava por não ser o presente e que dizia que, não importava o futuro, sempre estaria presente. Ela, que não tinha culpa alguma, continuava na luta do passo-a-passo. Todos esses ressentimentos frutos da falta do entendimento de um fato: todos eles – passado, presente e ela – eram brinquedos da Vida. A Vida que brinca sem dó.

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.