Archive for Novembro 2014

Solução racional


Long day - Ed Hofer

Ouviu os pais dizendo que teriam que tirar o Bob de casa. Arquitetavam a ideia de levá-lo para um lugar bem distante, soltar a coleira e deixá-lo para trás. Pelo o que ele entendeu, já não havia espaço para cachorro grande naquela casa. O menino-adolescente retornou pensativo para o quarto, onde encontrou seu querido Bob. Enquanto o cachorro saltitava alegre aos seus pés, ele pensou no quão triste era aquela ideia. Bob era um simples cão, que desde filhote vivia ali na sua casa. Pensou no potencial racional que Bob tinha, então: como ele iria se virar para sobreviver? Para se abrigar das chuvas? Para se alimentar? Onde teria água limpa para beber? Não achava aquilo justo, jogar na rua um ser que nem pensar direito sabia. Logo, encontrou uma solução.
No outro dia, a mãe foi acordar o filho e encontrou a cama vazia e um bilhete com a seguinte mensagem: "Já que a casa não tem mais espaço para um cachorro grande, imagina para um homem que cresce muito mais que um cachorro. Cuidem do Bob. Eu saberei me cuidar". Bob, aos pés da dona, não saltitava alegre.

Tempos saudáveis


Cakes - Wayne Thiebaud

Na capa da revista a manchete principal anunciava uma vida saudável através de um novo modo de nutrição, sem açúcares. A senhora baixou a revista e olhou a bandeja de doces artesanais postos à venda. Uma receita passada de geração em geração. A fama que seu sobrenome carregou desde a muitas décadas. Mas agora jaziam todos os doces sem nenhum cliente para apreciá-los. Jazia a fama de doceiras com seu sobrenome. Tudo por conta de uma tal vida saudável... Como se ela, todos da sua família e de épocas passadas não tivessem tido uma vida saudável. E ali ficava, todos os dias, na espera de uma venda sequer. Entristecida, por ela viver naqueles novos tempos. Tempos "saudáveis". Tempos amargos.

Sem mãos dadas


Preludio para una nueva era - Denis Nuñez Rodriguez

Ela dispensou a mão que a mãe, carinhosamente, ofereceu. Atravessaram, sem mãos dadas, a rua. Aquele ato fez a mãe desabar dentro de si. Nos últimos dias, a menina, que nem doze anos tinha ainda, já se negava a dormir com a mãe, a pedir ajuda no banho, a convidá-la para passear e agora nem andar de mãos dadas queria mais. Não demoraria muito para que a filha largasse os brinquedos, escolhesse as próprias roupas e saísse sem dar motivos... Já que nem ajuda precisava para atravessar uma rua. Esse pensamento fez a visão da mãe, sem querer, embaçar, cheia de lágrimas. Ela não sabia prever qual seria a próxima oportunidade que teria para andar de mãos dadas com sua pequenina garota. Talvez na sua velhice, quando fosse ela quem não pudesse caminhar sozinha. E, além disso, quando a filha voltasse a se importar com aquele simples ato de dar as mãos.

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.