Archive for Março 2014

Curtidas


Still Moment in Teal - Jeremy Mann

A neta nunca foi muito simpática com a avó, mas, alguns segundos atrás, a jovem pediu para tirar uma foto com ela. Toda sorridente, envolvida num abraço meigo. O primeiro abraço que recebera da neta, que se lembrava. Depois do flash, a jovem voltou ao rosto fechado, sentou-se e se curvou sobre o celular. A avó sabia que algum sério problema deveria haver com aquela geração. Tudo deveria ser registrado e posto na tal internet. Não importa se falso ou verdadeiro. O que importava eram as curtidas virtuais. E curtir a realidade? Nada.

Uma consulta


Queen of Diamonsds - Jack Vettriano

Talvez exista certo narcisismo em mim. Mas, convenhamos, Doutor, olhe para mim. Olhe, Doutor! Isso... Olhe... Tem como não desejar perder horas do dia contemplando minha imagem? Não tem, Doutor. Até Freud abandonaria a psicanálise para passar o resto da vida olhando para mim. Isso mesmo, Doutor, deixe esse riso fluir. Eu vi, sim, um riso aí no cantinho da sua boca... Deixe, deixe fluir! O que me traz aqui? Ah, Doutor, venho sugerir que os senhores psicanalistas estudem a mente de um bocado de homens dessa nossa sociedade. Acredito que eles devam ter sérios transtornos mentais. Pois, olhe para mim, Doutor. Isso mesmo, pode voltar a olhar... Por que será que, afinal, esses homens não reconhecem a maravilha que é me admirar? Por que, hein? Só pode ser transtorno mental, Doutor! E dos sérios!

Inauguração pública


A Piscina - Milton Dacosta

Inauguraram a piscina pública na cidade. A semana inteira foi um alvoroço de preparativos para esse dia. O comércio, que nunca havia vendido uma só peça de biquíni, teve que inventar até moda para atender a demanda. As praças, os únicos pontos de encontro da cidade, esvaziaram de tal modo, que nem os pombos por ali passaram. O povo, afoito, correu para a piscina. Mas a piscina não suportou tamanha atenção. A água quase toda transbordou. Teve menino que quase se afogou. Teve velhinho que das pernas das moças se aproveitou. Teve velhinha que se escandalizou. Teve fofoca que nunca mais se acabou. E o povo, antes afoito, logo abusou a pobre da piscina pública que dos seus bolsos tanto custou.

Flautista desencantado


Flautista - Candido Portinari

Quando era menino, sua vó só lhe botava para dormir contando a história do flautista encantado, que afastou a peste de ratos de sua comunidade, ao som de sua flauta mágica. Essa lembrança muito rondava seus pensamentos, nas noites em que não conseguia mais dormir, pois uns vizinhos "ratos" insistiam em fazer algazarra todas as madrugadas. Com isso em mente, aprendeu a tocar flauta e, certa noite, sentado na laje, começou a tocar. Aos poucos percebera o silêncio que causara. Lá em baixo, toda a vizinhança contemplava aquele belo som.  Mas o efeito da flauta logo acabou. Os "ratos" preferiam tagarelar ao som de músicas nada clássicas. O homem lamentou aquela sua realidade. E, cansado, conseguiu adormecer, sonhando com o mundo mágico que sua avó contava.

A partida


Retirantes - Carybé

Partiu. Pegou o pouco que sobrava de útil. Colocou no ombro. Partiu. Pensou que iria sozinho. Pensava que só nele existia aquela coragem de partir. Mas, meio caminho andado, teve aquela sensação súbita de que era preciso olhar para trás. Relutou em olhar. Não queria sentir saudade antecipada. Não queria correr o risco de olhar para trás e voltar, sem querer. Porque às vezes a gente não consegue impedir os impulsos de voltar a ser o que a gente sempre foi. Tinha coragem, sim. Mas não mentia sobre seus receios de mudanças. Mais meio caminho andado, parou e olhou para trás. O que viu o motivou a seguir. Lá atrás, com o pouco que sobrava de útil, a mulher e a filha o seguiam. Elas partiam. Apesar de nunca ter notado, elas também tinham a coragem de partir. E saber que partiam juntos era o que faltava para consolidar aquela sua determinação. Voltou a olhar para frente. Continuou partindo.

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.