Campestre


Spring Dream - Lori McNee

Abriu a janela para começar o dia. Os galhos da cerejeira invadiram a casa. Os pássaros assustaram-se, alçaram voo. Ela sorriu. Recostou-se no parapeito da janela e ficou por ali meditativa. Viu sua infância ali, no campo, florir. Sua juventude ali, no campo, brotar. Vivia simples e sem largos desejos. Diferente de seus irmãos. Foram deixando a casa, pouco a pouco, criando expectativas de uma vida farta em algum canto cinza e barulhento do mundo a fora. Ela foi a única que permaneceu, não que não fosse mulher de garra – como muitos diziam -, mas porque era feliz. Não era, afinal, a felicidade que todos buscavam? Fugiam do campo, corriam nas cidades, contavam salários e buscavam por mais e mais: tudo não tinha o objetivo simples da felicidade? Sim. Ela, no entanto, não precisava de tanto para ser feliz. Era feliz ali, no campo. Esperou seus pais; esteve do lado deles quando morreram, sentindo falta dos filhos que foram embora dali. Mas esteve presente...
Os pássaros voltaram a seus postos nos galhos da cerejeira. Sorriu de novo. Voltou para o campo, viver.

Ritual


Automat - Edward Hopper

Vez por outra, ela se sentava naquela mesma mesa e pedia um cappuccino para acompanhar o sabor da sua solidão. Vivia atordoada, sempre envolta por afazeres diversos, no entanto, nem por isso aquele sentimento a deixava. E, por acaso, desde cedo aprendera a cultivá-lo como algo normal. Era simplesmente mais uma das suas intrínsecas características: a solidão.
Não era o beijo do marido nem o choro insistente da sua filha de poucos anos que a tiravam daquele estado. Ela tinha que sair só, porque, caso contrário, estaria sacrificando algo de si que não podia ser sacrificado. Era seu ritual de auto-afirmação, afinal. Ela era aquele ser ali, sentado e solitário, mas nem por isso menos feliz que qualquer pessoa vazia que por ali passasse.
Parou de refletir, então. Bebeu um gole da bebida e contemplou sua solidão.

Amado réu


Lumia Czchwska - Amedeo Modigliani

A senhora vestida de preto levantou da cadeira e se deixou a mostra diante de todos. Não gostava daquele tipo de situação, mas era preciso. Iria defender sua vida. Iria, em frente ao tribunal, expor seus sentimentos, argumentos e anseios para viver conforme toda mãe queria viver. Seu filho estava sendo tirado dela. Não sabia ela que, realmente, o filho era culpado. Mas o que importava aquilo? Era o seu filho, amor pela qual viveu amando. Não sobreviveria sem ter notícias dele. Não era aquilo que imaginou para o seu amor.
“Quero dizer, antes de tudo, que sou mãe. O meu filho é razão e essência de toda uma existência, sabendo ele ou não, errado ou não... Ele é meu filho.”. Colocou as cartas na mesa. Disse tudo e até um pouco mais. Faria tudo, mas não queria ver seu filho longe, sozinho e sem seu amor.
Mas, apesar de todo o seu esmero, seu filho foi condenado. Assistiu, estática, sentada, sem poder fazer nada, seu filho sendo levado dela. Não o veria tão cedo. Doeu no fundo do peito ver aquilo. Mas o olhar do seu filho não era triste. Era alegre, pois sabia que a mãe ainda o amava. Fora condenado e amado. Viveria preso, mas sabendo que alguém o amava de verdade.

Em combustão


Sem título - Françoise Nielly


“O que é? O que estão olhando?”. Ela sabia a resposta. Todos olhavam a raiva, expressa, clara e pulsante. A raiva feminina estampada no rosto delicado dela. Sua respiração parecia alimentada por um poço fundo de petróleo e a faísca de fogo que o seu coração forneceu foi uma chama alta e farta demais. Estava em combustão intensa. Odiava ter que admitir, mas já perdera o controle sobre a situação. E não podia fazer nada a não ser tolerar os olhares implacáveis daquela sociedade importuna.
Não! Não, não pode ser. A raiva alcançava seus níveis supremos: uma lágrima ousara sair de seu olho direito. Maldito! Sempre aquele olho fraco que se entregava primeiro. Fechou-se na escuridão da sua mente, para não ter que suportar admitir que além de fora do controle, estava fora de si. Perdeu-se na sua intriga interna. Desejou sumir.
Os transeuntes não sabiam o porquê daquela moça estar ali, na rua, com tamanha expressão de ódio. E não seria ela que contaria ao mundo o porquê. Sumiu dentro de si. Silenciou-se para bastar sua raiva gritante.

Serviço noturno


Nú artístico - Dalmo de Oliveira

Girou o registro do chuveiro elétrico, deixou as gotas finas d’água gelada passar pelo seu couro cabeludo e desaguar no restante de seu corpo. A madrugada ainda começava. De olhos fechados, refletiu sobre tudo. Percebeu que ainda era nada. Um nada perto de tudo o que queria ser. Como alguém consegue vencer na vida? Por que alguns conseguiam e outros tantos não? Apoiou-se na parede cinza do banheiro alheio e respirou fundo. Tinha que parar de pensar assim, lutar ou aceitar – era o que todos diziam. Ele decidiu lutar, então.
Quem o vesse nas noites e madrugadas, pensaria que o que fazia era prazeroso. Nada – de novo, nada. Ruim a vida de quem fingi para viver. Por isso, ele lutava. Deixava-as felizes, isso é inegável; elas tremiam, sorriam, choravam, gemiam ou gritavam. Diziam que ele era tudo. No fundo, ele sabia que não era nada.
Vestiu-se, observando o corpo feminino desmaiado de prazer na cama. Lastimou sua conduta, mas mesmo assim pegou o dinheiro pago pelo seu serviço e saiu silenciosamente. A madrugada começava: havia tantas outras por aí, à sua espera. Continuaria a ser nada, mais uma vez. 

Vida contada


La mer à Pourville - Claude Monet

Estreitava os olhos para impedir o vento arenoso da praia de invadir sua visão. Observava seu filho levar até as ondas a estrela-do-mar que ambos acabaram de encontrar na margem. Observava ali, um fruto de seu ventre, pequeno, mas com todas as características que sonhara. Via-o, longe, mas dava para sentir o cheiro de sua pele. Nada explicável, coisa da alma. A sensibilidade materna a levara até ali, firme. Viveria cada momento como o último até... Ele ir-se. Não fora concebido perfeitamente, como toda boa mãe sonha: seu filho, agora sorrindo e acenando de longe, do mar, iria morrer antes de alcançar metade de uma simples década. A ciência de seu século não sabia como salvá-lo. Não havia nada a ser feito, além de aceitar...
Sentiu uma mãozinha pequena tocar seu braço. Despertou para o presente. Largou o futuro, os problemas do futuro. Tirou o foco de sua visão do horizonte azul e olhou o rostinho de seu filho, agora próximo. Tinha muitas coisas para mostrar ao seu pequeno fruto. Principalmente o tamanho do amor que ela, sua mãe, sentia por ele. E isso bastava... Por toda uma vida.

Utópico


Leonid Alfremov


Saiu do metrô, sobreviveu à multidão, subiu as escadas da estação e chegou à luz natural do dia nublado. A caminhada era longa, ele bem sabia. Repetia o trajeto cotidianamente, não se lembrava desde quando, mas já era tão comum aquela hora do dia que seus pés mandavam mais em seu corpo do que sua mente. Caminhava sem ficar atento ao mundo. Respirava sem sentir emoção em viver. Havia na sua vida a sensação de passividade que todo indivíduo perfeitamente incluído no vai-e-vem da cidade tinha. No fundo, se importava com esse fato. Queria se libertar, poder viver algo intenso o suficiente que fizesse sua mente comandar seu corpo, sua consciência permanecer alerta e seu respirar tornar-se empolgante. “Mas... Ah, esqueça essa utopia!”, gritava consigo mesmo. Então, voltou-se para si, retornou o foco para os seus pés e sentiu o chuvisco do dia. Mecanicamente, abriu o guarda-chuva.
E era ocupando sua mente com sua “utopia” que deixava a vida passar sem ser vivida. Seus pés continuaram, afinal de contas, o caminho era longo.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.