Fulminante



Separation - Edvard Munch

Apego é uma coisa que aperta o coração. Amor é uma coisa que o liberta. As sístoles e diástoles do coração daquele homem eram intensas. Ele próprio, consciente do seu problema crônico, receitava sua mente a equilibrar o apego e o amor que sentia por aquela mulher. Porém, um dia fatalmente deixou-se aplacar pela desconfiança e pelo ciúme... O coração apertou forte e, como um último suspiro, afrouxou por completo. Foi de ataque fulminante que o homem deixou viúva a mulher adorada.

Feriadão


Mind Changer - Leah Saulnier


Era feriado e lá estava ele, ao vivo, apresentando o principal Jornal da cidade. Indignava-se por estar ali. Não que não gostasse do seu trabalho. Na verdade, sempre sonhara ser jornalista. A indignação era devido às notícias que anunciaria: pessoa morre na fila de hospital público, porque o médico plantonista aderiu ao feriado nacional; governador é fotografado em praia paradisíaca, descansando no "feriadão"; escolas "enforcam" a semana inteira para aproveitar o feriado; comércio paralisa o dia inteiro; indústria diminui a carga horária de trabalho em decorrência da data especial... Já o jornalista não podia tirar folga, porque a televisão (essa sim!) era levada a sério e sem TV a população não podia ficar no feriadão.

Meu lusíada



Kiss - Henri De Toulouse-Lautrec

Ainda que meu organismo esteja, nesse instante, em plena batalha contra uma gripe, eu não me importaria de morrer sufocada com um beijo teu, tanto é esse o meu desejo. Tu és mais forte que esse vírus bárbaro. Não me importo se não possuo poder bélico – e imunológico – para te extirpar do cárcere voluntário em que te encontras cá dentro em Minh ‘alma.  Eu gosto desse teu espírito de invasor, como um genuíno líder do MST que desterra meu coração como se fosses tua propriedade por direito. Isso! Podes fincar tuas bandeiras revolucionárias nesse meu corpo e partir para a exploração. É desse meu desejo incongruente que quero ser explorada. Serei indígena, africana ou italiana... Tu escolhes e tu tomas conta. Apenas seja um bom explorador, um português daqueles de Camões, um herói. O meu herói!


para Cândido Sales Gomes.

Violenta obra-prima


Painting Woman 2 - Robert James Henry

Batia, sim. Mas com justificativa. Para o marido, a maior das belezas era os olhos assustados de sua esposa a chorar. O desespero preso dentro da íris daquela mulher o encantava. Por isso, as violências diárias – por amor à arte. Mas, por amor a si mesma, a esposa lutou contra o choro. Petrificou seu olhar, impedindo o mínimo brilho de lágrima de aparecer. O marido, desesperado, sem sua dose diária de fascinação, aumentou as pancadas. Mas em nada surtia efeito. Amargurado, parou de bater. Usando todo seu vandalismo, ela destruía os encantos do marido e permanecia marmórea. À medida que a bela arte plástica do homem falecia dentro da alma da mulher, esta ressuscitava.

Donzelas sozinhas



Friends - Henri De Toulouse-Lautrec

Um calor tomou conta de todo o seu organismo. Corou as bochechas. Sentiu o corpo agitar-se. No entanto, permaneceu imóvel para que ninguém percebesse sua exaltação. Em mãos, um bilhete rápido e penetrante – como uma bala, não sabia de onde vinha e como chegara ali, mas lhe partia o peito de forma decisiva. Ela sabia bem quem era o atirador. Ou melhor, atiradora. A letra feminina clamava: “Matemos nossas curiosidades. Assim como eu, sei que as tem; ao meio dia, no quarto... Eu e você, donzelas sozinhas. E só”. Em mente, ela repetia – como para ter certeza – o ‘meio dia’ e o ‘sozinhas’. As donzelas se descobririam. Agora, não seriam como uma bala, mas como uma flecha de duas pontas que perfuraria ambas, numa junção só. Sozinhas.

O outro lado do mundo



Sweet Nothings - John William Godward

O bilhete do seu amado mostrava uma despedida chorosa e rápida. O marinheiro iria navegar a trabalho para o outro lado do mundo. A moça apaixonada procurou saber onde era o ‘outro lado do mundo’. Um amigo metido a geógrafo desmentiu a teoria do horizonte, disse que a Terra era redonda e que, portanto, o marinheiro estivesse abaixo deles. Enquanto outras moças aguardavam seus marinheiros olhando o horizonte, ela passou o resto dos seus dias crente que, abraçando seu próprio chão, estaria mais próxima do seu amado viajante. Deitava todas as tardes, agarrada ao mundo, numa espera incessante.
Porém, talvez porque o planeta gostou de se sentir abraçado, o outro lado do mundo não permitiu ao marinheiro retornar aos braços de sua donzela. Nunca mais os amantes se abraçaram e o planeta permaneceu embalado no fiel amor daquela moça.

Cidadãos cegos


The Empire of Light - Rene Magritte

Em uma ocasião – como outra qualquer – os vizinhos sentados na calçada ousaram lançar seus olhares ao horizonte acima dos tetos da vizinhança. A escuridão daquele novo mundo saltou aos olhos. Não que o dinheiro público não tivesse sido usado na distribuição de iluminação. Na verdade, os cidadãos eram ofuscados justamente pelas tantas luminárias. O tanto que se podia enxergar da cidade, com o auxílio das lâmpadas, era o tanto que se tornavam cegos diante da natureza. Estrela alguma parecia importar aos casais românticos; nuvem nenhuma era mais sondada sobre suas formas e desenhos. O novo mundo apagava aos poucos um mundo que não precisava de tanto para ser contemplado – pois este, sem gasto de energia, poderia felicitar quem se dispusesse a ver os simples espetáculos da natureza. Aquele mundo escuro, no entanto, nada felicitava... Somente cegava.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.