Construção de homens


Telephone Building Lower New York - John Marin


De longe, o garoto observava: na rua, novas construções estavam sendo feitas. Havia homens suados debaixo do sol infernal, freneticamente martelando madeiras, quebrando asfaltos, cavando o solo, enterrando canos, serrando metais... O semblante de cada um daqueles homens era de puro terror. Terror da fadiga, do trabalho incessante, do salário tão pouco. Sim, o garoto sabia que o salário deles era pouco, porque, de longe, ele também observava seu padrasto: o cara de roupa social, debaixo de um enorme guarda-sol, de óculos escuros, ventilador apontado para o rosto e berrando ordens por um megafone. Este, com todas as mordomias, era  o chefe da construção e quem mais ganhava ali.
É, seu padrasto bem dizia: “agradeça e aproveite suas boas condições para construir seu futuro bem remunerado, ou se não você vai servir para construir o futuro dos outros bem remunerados”.

Rotinas quebradas



Room in New York - Edward Hopper

Tanto tempo juntos esgotou o enlace do romance entre eles, aquele gostinho bom da surpresa ao longo do processo de conhecimento mútuo. Agora, conhecendo-se tão bem, já não havia mais nada que os excitassem como antes. Então, um filho parecia bastante conveniente para quebrar o cotidiano. E, como num passe de mágica, tiveram um filho. As experiências de pai e mãe nutriram mais os desafios de casados... Porém, o que eles não haviam pensado antes era o fato de um filho ser para sempre, não como um objeto para sair da rotina, mas como um ser que os forçaria a criar uma rotina fixa.
Com o tempo, perceberam que não nasceram para serem pais. Infelizes, a única solução foi o divórcio. Com cotidianos diferentes, deram ao mundo mais uma criança com pais separados.

As graças do povo


The arena at Arles - Vincent Van Gogh


Sua tristeza caiu nas graças do povo. Percorria as ruas, tentando ser a mais transparente das pessoas, mas a cada esquina havia alguém apontando em sua direção e deixando alguma risada escapar. Sua vida social fora abatida como um palhaço de circo sendo vaiado e enterrado debaixo de tomates lançados pela plateia. Um dia, porém, resolveu mudar sua situação. A graça do povo caiu nas suas próprias risadas. Em praça pública, encarou cada rosto que a encarava. Riu de cada riso mal estampado. Permaneceu de nariz empinado, pronta para rir de quem tentasse a rebaixar. E percebeu que, sem entender o porquê de ser agora motivo das graças particulares dela, o povo parou de encará-la; o povo passou a se sentir ridículo por ser a razão de piada alheia. O riso dela deu a volta por cima. Rindo, concertou sua vida.

Ansioso violeiro


Dream in a dream - Fabian Perez


Dedilhando as cordas do violão velho, ficou esperando o mês de setembro acabar. Ficou aflito pelo começo de outubro. Ansioso pelo final do ano. E tinha todos os motivos para aquela sua derradeira espera. Já não possuía nada: perdera a família, os amores passaram, as dívidas cessaram. Desistira dos negócios; entregou-se a vida solitária. E, como um xeque mate, descobrira que sua vida minguava pouco a pouco devido a uma doença irreversível.
Aquela última descoberta servira como uma ótima ‘carapuça’. Já não tinha forças – nem vontade – de recuperar o tempo perdido, voltar à vida social, tentar um recomeço. Descobrir que o seu tempo estava acabando era reconfortante, pois já não ansiava por mais nada. Ou melhor, ansiava sim: pelo final dos seus dias. E, ansioso, continuou a dedilhar o violão.

Inférteis


In daddy's hands - Mats Eriksson


Casados a mais de vinte anos, nunca tiveram filhos. A princípio, porque queriam curtir o tempo, infinitamente devotados um ao outro. Logo após, porque não se julgavam preparados para educar uma criança. E agora, porque não conseguiam conceber a vida. Passaram a viver uma longa saga pela busca da gravidez. Foram envelhecendo ainda novos. Quem os visse saindo das clínicas de fertilização, perceberia um casal de jovens caducos.
Depois de anos tentando, nasceu uma bela criança. Mas a vitória não fora suficiente para apagar a caduquice que tomou conta do casal. A criança – que não queria nascer – ganhara como pais um casal de velhos desgastados. Um casal infertilizado.

Luz



Rosa - desconhecido

Sozinha em casa, ela começou a sentir as dores. O peito arqueou num acesso de falta de ar. Os olhos lacrimejaram e não mais queriam piscar. Pediu aos santos que a mantivessem viva até, pelo menos, por no mundo aquele ser. E foi somente depois de quase uma hora de ávido esforço, que sentenciou com um grito o nascimento de sua criança.
Nesse instante, seu marido subia as escadas da casa e adentrava no quarto, quando viu uma forte luz sair do ventre da sua esposa. Luz que durou poucos segundos, mas que deu a ele a certeza de que era um anjo que nascia. Sua esposa acabava de dar a luz.

Finita


Shadow - Mary Jane Ansell


Reconheceu sua própria vida. Agora tinha a nítida noção de que ela era única, que teria que fazer escolhas, construir os próximos anos. Entendeu a existência da morte. Passou noites em claro após perceber que sua vida era finita. Sofreu de início, demorava a pegar no sono. Mas o dia vinha e ela percebeu que já era hora de encarar aqueles novos dias como únicos e intransferíveis. Então, certo momento, nasceu dentro dela uma pessoa determinada a encontrar responsabilidades sérias com as quais se preocupar. E foi por isso que ela largou os brinquedos, as bonecas, os tempos de jogos com os colegas da rua. A menininha de quase dez anos passou a almejar ser adulta. Seu espírito infantil foi impregnado pelo medo da finitude da vida e, assim, entregou-se a seriedade da vida adulta.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.