Saborosa ajuda



Bodegón - Jose Paul Perez

Ele era uma das maiores referências mundiais em gastronomia e, também, um requisitado mestre de cozinha. Mas não era perfeito: tinha o defeito árido de criticar o mínimo tempero mal colocado ou a pitada de açúcar que faltava em determinado prato. Dizia para todos que achava toda a culinária do seu povo e das pobres donas de casas pura ignorância.
Um dia, viajando de carro rumo a uma cidade aonde iria palestrar, sofreu um acidente. Uma tragédia da qual somente ele saiu sobrevivente. No meio do sertão, saiu desolado pedindo socorro. Encontrou um casebre e sentiu o cheiro do feijão no fogo. Percebeu que estava faminto até ser notado pela pobre senhora. Recebeu as ajudas necessárias e até mesmo um prato farto do feijão. Experimentou e, dessa vez, sentiu o sabor mais incrível de toda a sua vida. A degustação o fez entender: a fome misturada com o prazer de poder ter comida naquele momento difícil tornou aquele feijão saboroso. E foi aquele prato simples da sertaneja que o socorreu – tanto da tragédia quanto do seu defeito de criticar tudo e todos.

Intocada



Ezquizofrenia II - Denis Nuñez Rodríguez

“Sabia que eu não permito que ninguém toque em você? Você deveria parar de surtar comigo, deveria me agradecer. Estou te protegendo, sabia? Hein, sabia? Pare de falar alto, ninguém precisa saber que estou do seu lado. Mas, olhe bem, eles são pessoas ruins; eles não podem tocar em você, por isso eu estou aqui... Sim, sim, eu estou aqui para te mostrar o quanto eles são ruins...”. Essa voz não se rendia aos altos lamentos da mulher. De fato, mesmo andando entre multidões, ela nunca sentiu alguém esbarrar nela. Todos se afastavam, não porque ela estava protegida como aquela voz bem repetia, mas porque todos sentiam repulsa e medo diante de uma mulher que falava sozinha, aos gritos, implorando para que a deixassem em paz. Ninguém entendia sua esquizofrenia. Ninguém, assim, poderia ajudá-la. E ajuda era o que mais ela precisava.

Vão amante



Cigar Bar - Brent Lynch

Ele adorava a falácia que via nos olhos das mulheres. Vãs mulheres. Mergulhava em cada pequeno romance como se fosse pedir a mão – e todo o corpo – da mulher em casamento no dia seguinte. Mas, rindo consigo mesmo, esquecia o que se passara no dia anterior, sempre que os seus olhos acordavam na nova manhã. Ele nascera para aquela vida suburbana. Sorrateira vida de quem esconde mágoas em copos de rum e em amassos descomprometidos. Sim, aquele homem escondia a sete chaves a mágoa de ter sido traído pela primeira mulher que amara. E, como se servisse de analgésico para sua própria decepção, passou a decepcionar cada uma das mulheres que com ele se envolvia. Passou a ver apenas falsidade nos gestos de carinho. Passou a enojar qualquer sentimento declarado. Então, desacreditado, nunca mais amaria. Apenas continuaria a pagar mais um copo de rum e a usufruir daquelas vãs mulheres.

Sentimento animal


Cat chasing a bee - Liu Shukui

Afundou-se na poltrona e acariciou o seu gato de estimação. Suspirou: “sabia que ele me pediu em casamento?”. A mulher estava realizada, iria se casar o mais rápido possível com aquele homem e, então, construir seu lar feliz. Desde esse dia, não demorou para o gato ter toda a sua vida mudada: casada, a mulher foi morar na nova casa, levando o gatinho. Porém o marido não considerou suportável viver com o bichano, providenciando imediatamente a venda do animal da esposa. Ela, apaixonada e com medo de decepcionar o marido, deixou o seu gato ser vendido, com lágrimas aos olhos.
O gato, profundamente apegado àquela mulher, mesmo muito longe, planejou a fuga e seguiu seus instintos à procura dela. Levou meses inteiros na rua... Meses estes suficientes para o casamento ser desmanchado. Sim, aquele homem pouco se importava com os desejos da mulher e não dava a mínima para ela. O divórcio saiu em menos de um ano. 
Separada, a mulher lembrou-se do seu gato querido... Foi quando ouviu o miado dele vindo da janela. Ela logo compreendeu que era melhor amar um animal do que um ser humano. Pois amor, na realidade, era um sentimento animal.

Paixão mortal


The letter - Jack Vettriano



‘Lembre-se de mim’. Foi assim que terminou o bilhete. Sim, não era uma carta, longa e densa, apesar de seus sentimentos assim serem. Era tão denso o que sentia que este era o motivo de ela o estar deixando. Pesava na sua alma aquela paixão. Como se os abraços dele fossem sentenças de prisão perpétua. Como se os beijos dele fossem pequenas doses de veneno. Aquela convivência a estava sufocando, matando aos poucos como um câncer sutil. Mas o que ela sempre procurou não era aquele inebriante amor. Um relacionamento leve, isso sim.  E mesmo que não conseguisse encontrar mais ninguém, só em pensar na leveza de estar sozinha, já se sentia medicada.
Tomada a decisão, deitou-se no divã e, sem querer, adormeceu. Não reparou na hora que ele chegou e leu o bilhete solto entre suas mãos. Não reparou quando ele atirou contra seu corpo indefeso. Não teve vida suficiente para ler o bilhete que ele deixou antes de sair da casa: 'lembrar-me-ei de você, meu amor, não se preocupe'.

Saga fantástica


Vladimir Kush


A mulher-borboleta corria os nove mares da região oeste do território inimigo. Lutava para não deixar seu perfume escapar pelas suas asas, pois só através disso os homens morcegos poderiam rastreá-la. Sentiu saudades do seu paraíso floral. Paraíso este que seria o inferno para aqueles seres da escuridão. Porém, não se sentia fraca e nem queria desistir de um dia encontrar a pétala perdida... Com esta, o portal mandaria os suspiros celestes e, logo, suas asas funcionariam! Por enquanto, continuava a correr. Até que uma luz invadiu seus olhos...
A mulher acordou com a fantasia de seu sonho na cabeça. O sol acabara de invadir seu quarto. Algumas flores do seu jardim pareciam brilhar na sua janela. Lembrou-se de cada detalhe do sonho e, em um salto, pôs-se de pé com uma ideia brilhante: “vou escrever um livro!”. Aí nasceu um best-seller.

A voz da concha


Shells on the shore - Susan Jenkins



Brigaram. Ela saiu correndo aos prantos. Internou-se na própria casa. Fez greve de socialização. Demorou um tanto de dias para voltar a sair. Deixou as lágrimas faltarem, a respiração cansar de ser violenta e o coração parar de acelerar. O tempo não cessava de passar e veio o dia em que ela resolveu sair. Escolheu a brisa do mar e a areia da praia como companheiras de reflexão. Afinal de contas, não foram muitos dias que se passaram e a briga ainda estava pendente. O amor dela também... Tropeçou! Despertou para a realidade de frente a uma concha marinha. Pegou-a e pôs no ouvido. Porém, ao invés de ouvir o barulho do mar, ouviu a voz dele. A voz do seu amor pendente. “Por favor, desculpe-me, eu não te esqueci...”. Ela achou real demais para ser coisa da sua cabeça, então se voltou para trás e o viu. Ele também havia escolhido a brisa do mar e a areia da praia como companheiras para aquele amor pendente. Perdoaram-se. Amaram-se ali mesmo. E a concha permaneceu em silêncio.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.