Aromatizados


Urban alley II


Meio dia. De tanto as casinhas serem pregadas umas nas outras, aquele horário do dia era um maná dos aromas. Quem parasse para analisar os cheiros e fedores ficaria impressionado. Aquela era a hora das crianças voltarem das creches e colégios – hora de banhá-las para o fedor do suor infantil ir se dissipando com o cheiro do sabão de coco. Era hora da refeição mais importante do dia – o almoço de um vizinho era sempre peixe, de outro era sempre carne assada e daquela senhora da esquina, sempre feijoada apimentada. E ainda, era hora do trânsito congestionar ali próximo e o vento soprava sempre para o corredor das casinhas pregadas aquele cheiro de gasolina, fedor de carbono queimado. Os moradores ociosos acumulavam o cheiro da preguiça; os moradores trabalhadores eram impregnados pelo cheiro do cansaço. Os aromas eram a marca registrada do cotidiano daquele corredor de casinhas.

Domingo de voo


Abandonment - Ian Castruita


Ele morava na casa dos pais, sozinho. Há tempos não tinha mais a mãe para limpar a casa, nem o pai para cozinhar o feijão carioca. Teve que se adaptar à vida daquela casa solitária. Por isso, as responsabilidades agora eram suas: aquele domingo de vento era dia de arrumação. E, sem motivo aparente, foi pela despensa que começou o trabalho doméstico. Já sentia o suor na testa escorrer, quando algo caiu por cima da sua cabeça. Olhou para o chão e viu uma pipa amarela, empoeirada e com teias de aranha. Lembrou-se de quando era moleque... De como passava horas observando os meninos lá fora empinando pipas... De como foi que furtou aquela pipa, mesmo o pai não o deixando brincar com ela.
Com a pipa nas mãos, não ouviu a voz da mãe o repreendendo, nem os gritos do pai mandando-o estudar. Um sorriso faceiro brilhou no seu rosto de trinta e sete anos. Foi para fora da casa, estendeu a corda da pipa e saiu correndo. Aproveitou o domingo de vento para resgatar sua infância perdida. Por um momento, não sentiu saudades dos pais – se eles estivessem ali, iriam mandá-lo parar. O homem deixou-se guiar pelo moleque que fora banido para o fundo do seu peito. Alçou voo naquela pipa amarela,  durante a tarde inteira.

Silenciados



Biblioteca - Miháy Bodó

Alguns metros de livros os separavam. O olhar aguçado dele não poupava ousadias; identificava-se com os olhos pequenos e leitores daquela moça. Esta lastimava-se e, a cada parágrafo degustado do clássico de Dostoiévski em mãos, lançava um olhar sorrateiro rumo a mesa do lado. Já o rapaz segurava-se à cadeira pouco confortável do prédio público para não deixar seu corpo ir de encontro àquela bela leitora, influenciado, talvez, por um impulso a lá Raskólnikov – aquele perturbado personagem russo que o ocupava no momento.
Se ao menos soubessem que liam o mesmo romance, quem sabe se arriscariam. Mas o silêncio imposto por aquelas vastas estantes de livros os impedia... Permaneceram leitores, de frases e olhares. Frio hábito das bibliotecas do mundo que insistem em silenciar romances.

Volta perdida


Above and Below III - Mary Jane Ansell


Acordou ansiosa e, com seu olhar minucioso, descobriu o que temia: ele não estava mais ali. Fechou os olhos e deixou-se rolar por aqueles lençóis de seda vermelha. A angústia tomava conta do seu peito. As lágrimas, sem nenhuma educação, romperam as frestas de seus olhos e banharam seu rosto macio. Sentiu a saudade invadir sua mente. E sentiu que não demoraria muito até surgir a torrente de perguntas sem respostas: ‘por que’, ‘o que eu fiz’, ‘eu mereço’? Deixou o corpo se curvar, como se estivesse numa guerra sem esperanças e com aquilo buscasse proteção. Os lábios secos abriram-se num gemido tristonho.
A perda é lastimável para qualquer ser humano. Mas pior do que isso é perder depois de pensar que ganhou... Depois de uma noite de amor, depois de sentir que poderia ter volta, depois de pensar que tudo havia se consertado... Perdeu pela segunda vez. Seu homem a deixou de novo, depois de tê-la nos braços a noite inteira. Idas e vindas... Porém, dessa vez não haveria volta.

Escondidos


Lane in Cheshire 1883 - John Aktinson Grimshaw

Atravessou o bosque escuro em segurança, tentando não deixar vestígios. Alcançou o casebre com o peito arfante de excitação. Não sabia se era a adrenalina do percurso ou o prazer da chegada que o deixava daquele jeito. Bateu quatro vezes pausadamente na janela e esperou o barulho da tranca da porta soar. Adentrou no ambiente pequeno e quente, soltou todo o ar do pulmão e olhou para a anfitriã. Bela, olhos negros compassivos, finos lábios vívidos, longos cabelos cor de areia. Mas o que o levava ali não era aquelas características... O que eles faziam – escondido, proibido e à luz de velas – era o que o movia.
Ele tirou o livro de capa dura marrom de dentro do casaco e pôs em cima da mesa velha. “Hoje você vai aprender um pouco de poesia...”, disse ele com um sorriso largo no rosto, deixando a compaixão despertar no seu íntimo. Ela assentiu, sentindo a curiosidade se expandir. Uma madrugada de leitura e aprendizado esperavam aqueles generosos jovens: um garoto rico e uma garota pobre, o primeiro sendo professor e a última, uma dedicada aluna. Separados por um bosque e pelo acesso ao conhecimento... Ou melhor, pelas desigualdades da sociedade em que viviam.

Vida movimentada


Street Scene - George Grosz

A sua vida social era agitada. Estava sempre no centro de todos, tentando chamar atenção. Cumprimentava cordialmente quem na sua frente passasse. Por vezes havia quem lhe retribuísse o comportamento, por outras, o ignoravam. Natural, pensava ele. Para uma pessoa que tem uma vida movimentada, manhã, tarde e noite na rua, aquilo poderia ser natural, uma vez que ele teria que lidar com personalidades diversas.

Mas ele não gostava dessa vida aturdida. Afinal de contas, o que ele era? Um mendigo. Não voltava para casa, porque literalmente vivia na rua.  Cumprimentava todos que passavam com a esperança de sua súplica arrancar daqueles pedestres uma forma de mudar sua situação. Recebia atenção de alguns: umas moedas, um pedaço de pão que restou do lanche de alguém ou algumas bençãos de religiosos. Mas o natural, e ele naturalmente aceitava isso, era ser ignorado. E tinha alguma coisa que ele pudesse fazer? Não, pensava. Sentado naquela calçada larga, sujo e maltrapilho, estendia a mão àquela sociedade.

Giraldo e Maria Sol


Girassóis - Vincent Van Gogh

Apaixonaram-se nos poucos minutos que passaram na recepção da floricultura à espera da entrevista de emprego. Não precisaram de palavras naquele instante para saber que estavam amando um ao outro. Ambos foram contratados, porém, ele foi para o plantio das flores e ela ficou com os cuidados dessas até a venda. Trabalhavam distantes, ele na fazenda e ela na cidade; mas nem por isso se esqueceram do amor entre eles. Dessa vez, foi preciso usar as palavras como meio de união. A cada nova chegada de flores da fazenda para a cidade, lá estava um simples bilhete dele. A cada volta da cidade para a fazenda, lá estava um bilhete dela. Ele assinava com seu apelido de quando era menino: “Gira”; ela assinava com seu segundo nome de nascença: “Sol”. Giraldo e Maria Sol eram amantes entre as flores.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.