Café e suspiros


Coffee cup heart reflection - Nina Robinson

Primeiro, me apaixonei pelo aroma do café que ela fazia todas as manhãs. Era um cheiro que adentrava meu apartamento com a mesma intensidade que sua imagem adentrava minha alma todas as vezes que eu a via. Era linda. Morena da cor de café. Um jeito fluido e decidido de ser. Um dia, não resisti. Bati na porta do apartamento vizinho, onde ela morava. Fui com toda cara de pau que tinha, me ofereci para tomar o café. Ela não hesitou - que mulher! - e deixou-me entrar. Enquanto ela servia uma farta xícara de café, eu ofereci suspiros - os doces, claro, para iniciar. Experimentei o café... Amargo! Tão amargo quanto a história de vida que aquela negra começou a me contar. Enquanto eu só tinha a contar uma doce história de vida. E você pensa que eu achei ruim? Não achei, só me encantei. Cada vez que o amargor se tornava insuportável, eu jogava para dentro da boca um suspiro e o açúcar era como tomar um fôlego. E senti que os suspiros eram o mesmo para ela. Acredito que era bem isso que ela precisava. E eu também. Um equilíbrio que jamais imaginaríamos viver. Entre o amargo e o doce, um café e um suspiro, uma paixão.


E se?

 

Sorrowing Old Man (At Eternity's gate) - Vincent van Gogh

Se você pudesse escolher qual batalha travar, qual escolheria? Se pudesse escolher quanto tempo atrás retornar, quanto tempo voltaria? E se pudesse escolher alguém para ressuscitar, quem seria? Quantos passos para trás daria? Quais palavras calaria? Quantas horas pausaria? Quais decisões mudaria? Quais dessas perguntas responderia? Quais? Quantas? Quem? Por quê?... E se não houvesse interrogações, seria menos complexo viver? Naquele instante, o velho resolveu responder essa última pergunta que surgia em sua mente. Apenas fechou os olhos e imaginou seus primeiros dias de vida, em que a arte de interrogar ainda não era conhecida. Ah!... Por aquele breve instante, suspirou aliviado ao sentir o quão fácil, natural e simples era viver! Porém esse instante findou-se logo em seguida: "Mas será se era assim mesmo a vida? Ou só na minha imaginação é que assim seria?".

De coração


Crepuscular Old Man (1917-1918) - Salvador Dali

Disseram-lhe que tinha uma bomba relógio dentro do peito. Recordou que desde menino acreditava que guardava no peito o poder de ser um super homem. Descobriu na adolescência que esse poder também era capaz de o tornar frágil. Usou para o mal e para o bem todo potencial daquilo que tinha dentro do peito. Desde as mais criativas histórias de criança às paixões e intrigas. Dos planos de filantropia aos planos de vingança. Em tudo, agia muito com o coração. Mas hoje ouviu que aquele mesmo órgão poderoso agora tinha uma contagem a correr regressivamente. E quando findasse essa contagem, o levaria junto para o seu fim. O coração que o fez viver de forma tão intensa desde menino, era o mesmo que o levava a morrer. Vivia e morreria em razão daquilo que guardava dentro do peito.

Conto de sedução


Lovers - Jarek Puczel

Cavalheirismo é sedutor. Pelo menos era o que ela passou a acreditar que fosse. Pois não havia um dia em que ela não o desejasse. Cada encontro, ele abria uma porta aqui, dava espaço para ela passar, oferecia um sorriso, um copo de água, um boa tarde, uma ajuda para fazer algo... E por aí seguia todos aqueles atos cavalheiresco de um homem que passava longe de ser fisicamente encantador, mas que, não sabia bem porquê, a deixava sem ar. Tão educado. Tão simpático. Tão natural. Ele não parecia um príncipe - faltavam aqueles olhos claros, traços simétricos, músculos dos astros de Hollywood. Mas ele agia como um príncipe. E mais importante do que isso: a fazia se sentir uma princesa. Por isso, ela o desejava. E depois de uma série de frustrados romances com aparentes príncipes, ela aprendeu que mais importante do que parecer, era agir e fazer sentir. Então, ela estava determinada: deixou-se seduzir. Deixou acontecer.

Singulares


Awaiting Return - Kenton Nelson

Em que momento foi que nos deixamos para trás? Desde quando a indiferença tomou conta de nós? Não guardo mais certeza sobre o amor que um dia sentimos um pelo outro. E também não sinto mais aquele rancor que nos motivou chegar até aqui. Sinto que já não há nem uma coisa nem outra. Não há mais dívidas, tampouco dúvidas, que sustentem nosso estar juntos. O que fazer, então? Onde vamos parar? Ah, agora vejo bem... Não vamos mais a lugar algum. Vamos, não mais. Eu vou. Tu vais. E seguimos conjugando os verbos na primeira pessoa do singular, já que o plural não nos agrada, nem desagrada mais. O plural não se encaixa em nós. Nós? Já não há. Eu sigo. Tu segues. No singular.

A lição do curió


Red Bird - Harold Braul

Coração batia ansioso. Sabia que tinha feito a coisa certa. Mas sentia que iria ser castigado. É que foi mexer com o que não era da sua conta. Mas aquilo parecia está tão errado! Tinha que ter agido. Agiu, mas agora estava a espera das consequências.
O avô voltou para a casa. Olhou para o neto claramente apreensivo. Sabia que ele tinha aprontado alguma. E confirmou sua intuição ao encontrar aberta a gaiola do seu curió. Respirou fundo e foi ao encontro do garoto. O menino, já com olhos cheios d'água, viu a mão aberta do avô se aproximar dele e fechou os olhos com a intensidade da violência que esperava. Mas acabou sentindo um afagar calmo no alto da sua cabeça. Desconfiado, abriu os olhos e encarou o rosto tranquilo do avô. O menino aprendeu naquele dia que nem sempre podia deixar de agir corretamente por medo de encarar a força dos que agem errado. E que agir corretamente, por iniciativa própria, pode acabar corrigindo erros alheios.


Papo depois de um vinho



Familiar Notes - Milt Kobayashi

Hoje eu te amo menos. Não significa que eu não te queira mais. Não significa que eu esteja amando mais outro alguém. Não significa que eu ainda não te ame. Te amo. Só que menos que ontem. Talvez mais ou talvez menos que amanhã. E deixo logo claro isso: sou assim mesmo, volúvel. Mas calma, não se preocupe, que nunca chego a volumes negativos daquilo sinto. Ou seja, meu amor por você não vai acabar. Apenas irá variar, como um rio intermitente. Ora pode ser corrente forte de água... Ora pode ser poças de água entre as pedras. Mas nunca esse rio muda de lugar. Faça seca ou ocorra dilúvios, é sobre esse leito que esse rio há de correr. E és tu essa terra estável. Estabilidade essa que faz eu me apaixonar por ti... Pensando bem, te amo mais agora! Vem aqui, vamos acabar com esse papo...

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.