A lição do curió


Red Bird - Harold Braul

Coração batia ansioso. Sabia que tinha feito a coisa certa. Mas sentia que iria ser castigado. É que foi mexer com o que não era da sua conta. Mas aquilo parecia está tão errado! Tinha que ter agido. Agiu, mas agora estava a espera das consequências.
O avô voltou para a casa. Olhou para o neto claramente apreensivo. Sabia que ele tinha aprontado alguma. E confirmou sua intuição ao encontrar aberta a gaiola do seu curió. Respirou fundo e foi ao encontro do garoto. O menino, já com olhos cheios d'água, viu a mão aberta do avô se aproximar dele e fechou os olhos com a intensidade da violência que esperava. Mas acabou sentindo um afagar calmo no alto da sua cabeça. Desconfiado, abriu os olhos e encarou o rosto tranquilo do avô. O menino aprendeu naquele dia que nem sempre podia deixar de agir corretamente por medo de encarar a força dos que agem errado. E que agir corretamente, por iniciativa própria, pode acabar corrigindo erros alheios.


Papo depois de um vinho



Familiar Notes - Milt Kobayashi

Hoje eu te amo menos. Não significa que eu não te queira mais. Não significa que eu esteja amando mais outro alguém. Não significa que eu ainda não te ame. Te amo. Só que menos que ontem. Talvez mais ou talvez menos que amanhã. E deixo logo claro isso: sou assim mesmo, volúvel. Mas calma, não se preocupe, que nunca chego a volumes negativos daquilo sinto. Ou seja, meu amor por você não vai acabar. Apenas irá variar, como um rio intermitente. Ora pode ser corrente forte de água... Ora pode ser poças de água entre as pedras. Mas nunca esse rio muda de lugar. Faça seca ou ocorra dilúvios, é sobre esse leito que esse rio há de correr. E és tu essa terra estável. Estabilidade essa que faz eu me apaixonar por ti... Pensando bem, te amo mais agora! Vem aqui, vamos acabar com esse papo...

Injustificados


Operários - Tarsila do Amaral

Ela era mais uma na multidão e observava. Não eram mais jovens. Aceitando isso, uns vão desistindo. Retornam as suas origens ou adotam uma residência, um trabalho, contas a pagar, filhos para criar. Abandonam seus passados de juventude selvagem. Juventude fugitiva. Abandono doloroso, mas necessário. Já não são mais jovens, afinal. E é a juventude que justifica a loucura que é fugir da reta, buscar fazer aquilo que se realmente ama ou buscar não fazer nada, simplesmente. A juventude, esse estado temporal que permite a todos se permitir. Mas que finda. E sem essa justificativa, ou rumam suas vidas para a reta ou passam a viver como incompreendidos, inconsequentes, incompetentes, irresponsáveis – coisas que já eram quando jovens, só que agora sem a tal justificativa: a juventude. E ela era uma dentre esses tantos injustificados.

Derrota solitária


Androniki - Giorgos Rorris

Esse é aquele momento em que a solidão vem e ataca. Pensou. Repousou as costas doloridas na poltrona. Buscou o sono, sua arma para tentar rebater o ataque, mas se lembrou que, há alguns meses, a insônia também tinha a atingido. Então, insone, teve que se render novamente. Sentir a dor de estar sozinha. Mais um dia a terminar assim. Sabia que esse era o preço que tinha que pagar por ter vivido daquela forma tão egoísta. As pessoas que pareciam na sua juventude tão substituíveis, tão descartáveis, agora pareciam tão fundamentais no auge dos seus cinquenta. Porém, ninguém permaneceu ao seu lado. E ela merecia aquela solidão. Por isso, não lutava mais. Deitaria e deixaria escorrer as lágrimas no rosto - sangues de mais uma derrota - até adormecer por umas poucas horas. Até acordar e viver mais um dia.

Retrato


Erasing herself 2 - Roberta Coni

"Querida, por que se vestir assim? Essas tantas maquiagens não te deixam tão bonita", a avó observava a neta se arrumar. Como resposta a esse palpite, a menina gritou "olha quem vem falar de beleza para mim, feia como a senhora é! Me deixa ser feliz, sua..." E completou o insulto listando os defeitos físicos da velha avó, antes de sair para festa. No outro dia, acordando cheia de ressaca, a neta encontra no espelho do quarto um retrato em preto e branco de uma moça que era a sua cara. Assustada com tamanha semelhança, correu até a avó pedindo explicações. "Essa sou eu, na sua idade". A moça ficou sem palavras e a avó continuou: "é só para te dizer que tome cuidado com suas palavras e seus conceitos. Se você tiver a sorte de viver o tanto que eu vivi, é muito possível que acabe tão feia como eu sou. E espero que você tenha essa sorte, não para que você pague pelo o que me disse, mas para que você aprenda que, no final, beleza pouco importa. Não construa sua felicidade com base na sua beleza, querida. Senão, quando chegar à velhice, será uma completa infeliz".

Romance



Pierre Auguste Renoir, Woman Reading

Na espera pelo ônibus de todo dia, se apaixonou pela leitora sorridente. Mas vivia amargurado pois não conseguia tirar os olhos da moça das páginas que ela levava sempre consigo. Aquele sorriso e sua leveza diante da narrativa o encantavam de tal forma que decidiu um dia chamar sua atenção. Depois de muito hesitar, iniciou uma conversa com ela. Recebeu como resposta a fisionomia mais raivosa que já vira na vida. Assustado com tamanho ódio expressado, ele percebeu que a beleza da moça só poderia ser encontrada durante suas leituras. Infelizmente não havia espaço para ele na vida dela. E ela sem um livro não seria assim tão encantadora. Decidiu não mais intervir. Porém, dedicou seu tempo a se imaginar personagem dos livros dela. Aí então, a namorou. E viveu um amor digno de um romance.

Fórmula vital

 

Camilla - Anna e Elena Balbusso

Ela era como uma flor, necessitava ser regada. E a água que a melhor hidratava era a atenção dele. Sim, ela precisava da atenção diária dele para parecer viva. Caso ele não desse atenção, ela murchava. Perdia a cor. Parecia morta. E isso ocorria por mais que ela soubesse que ele a amava, por mais que houvesse amor como nutrientes no solo em que a flor estava fixada... É que não basta somente os nutrientes do solo para manter uma flor vivaz. É preciso água - esse precioso meio que distribui os nutrientes. Assim, para aquela flor específica, não era o amor por si só que a sustentava. Era o amor atencioso. Eis a fórmula vital daquela flor-mulher.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.