Por demais e mais



Chocolate Birthday Cake - Carol Engles

Completara metade de um século de vida. Pôs em revisão todo aquele tempo e tirou suas conclusões. Estudava demais, mas não tinha certeza sobre o que tanto sabia. Lia demais, mas não contara quantos livros foram concluídos. Escrevia demais, mas, sem nenhum livro publicado, apenas rascunhos abandonados. Amava demais, tanto que até o momento ainda não se satisfez com somente um companheiro. Viajava demais, mas não fazia listas de lugares conhecidos, pois tratava logo de desconhecê-los para ter que retornar algum dia. Concluía, finalmente, que não se sentia satisfeita com seus cinquentas anos. Queria viver mais. Tinha sonhos demais para realizar. A cada dia a mais que vivia, nasciam mais vontades a saciar. Seria pedir demais por mais cinquenta anos de vida? Não hesitou: curvou-se sobre o bolo, apagou as tantas velinhas e fez esse pedido.

Traumas


Male Nude Model - Henri Matisse

Ele passou a ter sérios problemas para ficar sozinho na sua própria casa depois daquele dia. Aquele traumático dia. Não, ele não podia revisar aquele dia mentalmente, pois seria capaz de invocar o caos universal dentro de si mesmo. A questão é que – para uma pessoa que adorava ficar sozinha – aquele seu complexo de repulsa à solidão estava o tirando do estado espiritual normal. Queria superar seu trauma. Voltar a sentir prazer na solidão... E conseguiu isso à medida que ia tentando fugir desta, buscando companhia de outros e descobrindo, com isso, a amargura das amizades superficiais, a falsidade dos parentes cansativos, a obsessão dos muitos templos religiosos, o vazio das ruas e festas urbanas. Esses dias, em que não esteve sozinho, o encheram de traumas. Eram verdades nuas e cruas. E, então, recordou do aconchego de sua própria casa. Dos dias em que fora feliz consigo mesmo, na companhia de um livro, um café, uma cama ou um filme. Redobrou suas forças e encarou as paredes vazias da sua residência. Voltou a frequentar a sua própria solidão. Fugindo dos traumas da sociedade, curou seu próprio trauma.

Lembranças do verão


Migração de pássaros - Johannes Larsen

Uma visão. De longe, ela permanecia de olhos fechados vislumbrando um horizonte que só ela tinha acesso. Nos tímpanos retumbava o barulho bravo do mar. Ficava quieta lembrando aquele perfil enfrentar as ondas. De tão concentrada que estava, conseguia degustar o sal da água que invadia a boca dele, mergulho após mergulho. De longe, ele – seu amante – desfrutava o prazer da maré enchendo, revolta na praia da Barra Grande. Aquela cena ficaria para sempre cravada na memória da observadora. Recortes de momentos simples, naturais e de puro deleite.  O fortalecimento de um sentimento sem nome, sem data e sem pressa.

Oração de saudade



Marc Chagall

Quando só as fotos sobram e você tem que se acostumar com aquele perfume se esvaindo. Quando você não sabe se comemora os dias passando, na esperança da dor parar ou na tristeza de ir ficando mais distante do último toque. O último abraço... As tentativas de se livrar dos momentos tristes, lembrando os momentos felizes. O dom de ir escrevendo contos sem sentido e sem objetivo... Apenas "escrever como forma de oração", como já orava Kafka. De reza em reza, a súplica para a saudade passar e a alma aquietar no fundo do peito aflito.


Em memória a minha Lilica.

Primeiro encontro



Natalia - Fabian Perez

Então, conte-me mais sobre você – perguntou com uma voz suave, tentando seduzi-la. Ela não pareceu seduzida; pôs-se a falar: Bem, eu não sou uma pessoa de muitas certezas e se eu começasse a afirmar uma porção de fatos sobre mim, estaria mentindo para você. Sou uma pessoa de incertezas. Não tenho nada favorito, nada predileto. Ainda não sei se acredito na ideia de céu e inferno, anjos e deuses, ou se passo a me preocupar com essa vida, sem a expectativa de outra depois da morte. Não confio em cachorros, mas acho que os humanos acabam sendo mais perigosos. Não acredito no governo, mas temo que uma vida sociável sem um seja impossível. Tenho medo do mar, ainda que um dia eu queira morar em frente à praia.
Ele, meio surpreso com aquele jato de informações cuspido na mesa do restaurante, soltou um: Nossa, como você é interessante! Em resposta, meio desiludida ou mesmo sem certeza sobre o que sentir por aquele cara, ela disse: Não tenha tanta certeza assim.

Domingo





Window with view on the Island Bréhat - Marc Chagall

Um incenso queimando. Na caneca verde, um chá de maça e canela esfriando. A solidão, deitada na cama, chamava para dormir. Lá fora, os pássaros riam. Lá dentro, as faltas e os excessos se batiam. Despencava dos olhos o peso daquele domingo, formando ali um inchaço escurecido. Nem som, nem companhia, nem nada. Apenas a espera pela segunda.

A alma da rotina



Laurette's head with a cup of coffee - Henri Matisse

Acordar para trabalhar – trabalhar para comer – comer para dormir. Dormir para sonhar com aquela infância que viveu tão leve como um pássaro no azul do céu. Acordar para trabalhar – trabalhar para comer – comer para dormir. Dormir para sonhar com aquela criança que queria passar a madrugada acordada para observar as estrelas. Acordar para trabalhar – trabalhar para comer – comer para dormir. Dormir para sonhar com a liberdade das tardes ensolaradas acompanhadas de seus livros de ficção-fantástica. Acordar para trabalhar – trabalhar para comer – comer para dormir. Dormir para esquecer que à medida que envelhecia, seus sonhos diminuíam, seu tempo endurecia, sua liberdade se esvaia, seu viver esmorecia. Acordar para trabalhar – trabalhar para... Morrer, um dia. E por fim àquela rotina.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.