Última tragada de ilusão



Fabian Perez

Com o cigarro queimando entre seus lábios, lembrou o fascínio que era fumar a algumas décadas atrás. Ouvira um dia desses algum jovem metido a intelectual afirmar que o mundo está se encaminhando para a decadência... Com isso, ele tinha que concordar, afinal de contas por que toda essa preocupação com os vícios das pessoas? Deixava o cigarro e a moral dele em paz e fossem procurar imoralidades nas próprias vidas, mas dizer que fumar era ruim? Feio? Ah, tantas mulheres caíram nos braços dele por conta de uma tragada profunda... É, o passado sempre soava mais brilhante. O futuro estava cada vez mais banal.
Agora fumava o último cigarro da última carteira, pois se entregara aos tratamentos contra um câncer no pulmão, que diziam ser causado pelo fumo. Mentira, pensava ele. Aquele câncer é coisa de fim da vida, natural a qualquer ser humano vivo. Apenas chegava o seu fim e a opção do seu corpo fora por um câncer... Poderia ser outra doença, ora.
Porém, o último cigarro cessou. A nicotina foi passando; o seu efeito e as ilusões, também. A realidade não era mentira, a doença e sua causa, também não.

Terror psicológico


The death of Chatterton - Henry Walls


De Agatha Christie a Conan Doyle, percorreu alguns contos de Allan Poe e descobriu-se assassina de tudo. Sonhos, vontades, homens que a ignorava, qualquer poeira varrida pelo vento... Era tudo motivo de suspeitas. Crimes que sua mente arquitetava. Tornando-se louca, imaginou ao redor uma gama de malucos. Familiares conspiradores, amigos falsos e animais demoníacos. Para não correr chances de ser a presa e também para não se tornar a predadora, desapareceu do seu próprio caminho, entregando-se ao último suspiro dos suicidas. Morreu, assassinada pelo seu terror.

O ocaso da solidão



Reflections in the sun - Fabian Perez

Tinha se acostumado com a sua solidão. Até que sorrateiramente sentiu-se acompanhada. Dia após dia, percebeu que caminhava junto de si um ser que nunca havia percebido antes. Um ser que, por mais leve e pouco notável que fosse, a complementava de forma brilhante. Pois o dia, na sua presença, parecia mais claro, mais limpo. Pois o ar era respirado com maior firmeza, maior satisfação. Aos poucos, procurou pela solidão e já não a encontrava. Passou a viver acompanhada e feliz consigo mesma, pois aquele ser que fora se descobrindo era a sua própria independência. Independente, acabou com a solidão e foi ser feliz.

Imbatíveis problemáticos


White and red - Fabian Perez

Ali brindavam os sobreviventes. A crise viera para desempregar muitos e deixar assalariados somente alguns. Os poucos, numa simples festa de fim de ano, ali estavam. Cada sorriso estampado na cara era apenas uma farsa impensada. Realmente, sem pensar nos problemas que todos tinham – nas dívidas, nas papeladas da firma, nas dúvidas afetivas, nos descasos familiares – aqueles funcionários brindavam e sorriam para demonstrar a aparência dos “vencedores”, “melhores” e “imbatíveis”. Sim, porque até mesmo cheios de crises pessoais, aquelas pessoas tinham que oferecer aqueles sorrisos. O que aquele mundo perverso exigia não era a felicidade real, mas a forjada. Pois os forjados eram os sobreviventes.

Dona de casa


The color of daylight - Jeffrey T. Larson

Depois de observar as sujeiras do cotidiano da família escorrerem pelo cano da pia, ela estendia as roupas no varal, sentindo o aroma floral do produto de limpeza no ar e o calor do sol na pele. Com as mãos úmidas e os olhos também, lamentava sua solidão quase serviçal. Ninguém ousava aparecer por perto com receio de serem convocados a ajudá-la naquela tarefa. Porém, aquele foi o melhor momento do dia para perceber uma verdade: assim como o vento, que varre o campo, imagina ser dono das verdes gramas e, no entanto, se engana – ela agora bem percebia que, apesar de varrer, lavar e limpar aquela casa, não passava de uma simples dona de casa, sujeita às sujeiras dos donos da casa.

Simples viver



Castilla I - Miguel Marazuela

O casebre era vestido de uma fantasia imutável. Quem por ali passasse, lamentaria a pobreza do mundo. Lamentações inúteis. Os donos da casinha apenas esqueceram-se do mundo e da mania de riqueza das pessoas. Sem fantasias, apenas eram tão felizes na simplicidade daquele lar, que a feia aparência servia para afastar intrusos que, por ventura, sempre ousavam em perturbar os seres felizes. Ali dentro do casebre viviam um homem idoso, sua senhora esposa cega e seus três comportados cachorros. O homem não havia mais o que apreciar do que a beleza do amor da sua esposa; a senhora, cega, não enxergava a feiura da casa, somente sentia-se amada; os cachorros, completudes daquela fidelidade, não eram humanos para se importar com padrões de beleza. Simplesmente viviam naquela imensa e feliz simplicidade.

Platônico


Patience is a virtue? - Karen Cooper

Quando a dor de cabeça insistia em lutar contra ela, o seu amor platônico era o sussurro simples que a curava. Quando o cansaço de um dia desgastante surgia, ela relembrava a face nobre do seu amor platônico e logo se sentia fortalecida. Quando o calor da cidade a trazia problemas no dia-a-dia, ela recorria à frieza do seu amor platônico para se sentir melhor. Quando suas dificuldades pareciam insuperáveis, ela pensava que nada era mais platônico e impossível do que aquele imenso amor. De fato, aquele homem a quem ela tanto desejava nunca saberia o quão importante ele era na vida daquela mulher. Ser platônico, na verdade, tornava esse amor singularmente essencial para ela, como um remédio para todos os males, como um colo de um guerreiro que tudo combatia para protegê-la.
Ela simplesmente amava-o ainda mais, por platônico ele ser.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.