Oração esperançosa


Aunt Dale in Contemplation - David Jon Kassan 

Subiu as escadas e se recolheu em um canto onde ninguém costumava ir. Entrelaçou os dedos das mãos, com força. Permaneceu de olhos abertos, para se certificar que ninguém se aproximava. Começou a sussurrar uma oração - ou ao menos era o que pensava ser aqueles versos que aprendera quando ainda nem sabia o que era a vida. Mas agora que sabia o que era a vida e sentia tão perto o perigo da morte, queria acreditar que aquela oração surtiria efeitos. Há muito que a tradição de fé havia se tornado minoritária. Os jovens eram crentes da ciência. Assim ela também o era... Até que recebeu a notícia de que a ciência não a salvaria. Então resolveu orar, porque as soluções dos mais novos, por mais racionais que fossem, não estava levando a lugar algum. Quem sabe a solução dos antigos resolvesse seu problema? Entre um mundo de fé e um mundo de ciência, ela ainda pertencia ao mundo dos esperançosos. Para ela, não importavam os meios. O importante era o fim: não deixar sua vida chegar ao fim.

Carta de desapropriação


La pasión II - Alberto Pancorbo

Tive que te deixar. Não suportava mais minha mente me importunando com mil questionamentos sobre ti. Questionamentos esses que não sei responder. Faz-te de enigma na minha vida e o que ganhas com isso? Ganhas um adeus! Cansei de viver perdidamente apaixonado por uma mulher que não compreendo inteiramente. E cheguei a essa conclusão, de que eu teria que te deixar, quando compreendi que a sensação de não te ter vem exatamente do fato de tu não ser do tipo de mulher que se tem. Ninguém pode te possuir! Tu não nasceste para ser propriedade. És proprietária em toda a tua essência! E isso me assusta... Como ficar com uma mulher que não compreendo por inteira? Que me surpreende? Que me possui? Minha mente não suporta esse amor todo! Por isso te deixo aqui. Ao menos levo comigo um amor que eu sinto e conheço bem: o meu amor por ti.

Fotógrafa da realidade


About a girl - Emma Leonard

Colocou o seu olho esquerdo na mira da câmara e esperou pelo momento certo. Desde os quinze, ela se aventurava naquela arte de estacionar no tempo os momentos. E eram exatamente aqueles momentos que corriam espontâneos - soltos, livres, sem qualquer intenção - que ela buscava estacionar. Na sua frente, as pessoas não eram modelos. A última coisa que desejava era poses formuladas, sorrisos-estátuas, olhares sem brilho pelo tempo que passavam vidrados, sem piscar. O que sua lente mais ansiava eram os movimentos, o desconserto das expressões que viviam, o ângulo natural de um sorriso torto, aquela brincadeira real que surgia... Era a realidade que queria fotografar. Por mais desafiador que fosse, tudo era recompensado pela alegria sincera que transbordava das pessoas depois que elas, no fim, com as fotos em mãos, recordavam aqueles momentos, jeitos e sentimentos únicos ali registrados. E sempre, diante dessa recompensa, ela reafirmava que aquela era a sua missão.


Para (e inspirado na) Kívia Rodrigues.

Ambição própria


Caretaker - Sally Storch


No caminho para deixar os filhos no colégio, ela passava sempre em frente a uma imobiliária. Parava diante da vitrine e ficava observando uma maquete de uma grande casa. Deixava alguns minutos de seu dia passar ali, parada, a reforçar dia após dia aquela sua única ambição: ser proprietária de uma casa. Sempre viveu de aluguel. E viver na casa dos outros era algo com o qual ela nunca se conformava. Mas o marido, que possuía um salário muito baixo, afirmava que eles deveriam investir na educação dos filhos e não numa casa própria. Ela concordava, com a esperança que os filhos, no futuro, retribuíssem o esforço dos pais, dando a estes uma casa para chamar de sua. E repetia, sempre que podia, esse encargo aos meninos. Ela só não notava a indiferença deles, que sempre passavam direto pela imobiliária, sem nem ao menos olhar a vitrine. A mãe não compreendia que cada um já tinha suas próprias ambições para perseguir.

Eternos planos




Seek - Iyan de Jesus

Tinha marcado no celular uma porção de despertadores, que nunca a acordava. Na estante do quarto, tinha um tanto de livros, que nunca lera. Guardava todas aquelas calças, que antes vestia bem, porque tinha planos de começar a dieta logo amanhã. Na bolsa, carregava sempre aquela agenda, com listas de tarefas - que nunca conseguia completar e passavam sempre para o dia seguinte. Eram tantos os seus planos que nunca se concretizavam. Mas nem por isso, ela se deixava desanimar: mantinha uma profunda fé no amanhã. Ainda que fosse mais um de seus eternos planos "ter mais fé na vida".

Bossa nova


El inicio - Luz Letts

Ele era todo bossa nova. Nada de assuntos críticos. Nada de preocupação com a vida social. O máximo de vida social que ele se permitia pensar era a troca de palavras com as pessoas da vizinhança, os colegas do dia-a-dia, os amigos de longa data. Vivia na calma de um samba tranquilo, num ritmo de barquinho que vai, enquanto a tardinha cai. E quando o assunto era sofrer, ele sofria com a devoção de um eterno apaixonado, sem deixar de mandar sua tristeza atrás de sua amada e pedir que esta regresse, para dar fim a qualquer saudade. E por ser todo bossa nova é que ela era inteiramente entregue à ele, pois fundamental era mesmo aquele amor.

Passado e ela



Close your eyes - Wlodzimierz Kuklinski

Virou as costas. Retornava para o presente. Mas ficou sentindo os olhos do passado a acompanhá-la. Insistentes e pesados olhos. No caminho do retorno, ela se sentiu triste, extremamente pesada, como se cada passo tivesse que levantar toneladas de ressentimentos do passado. Este que a culpava por não ser o presente e que dizia que, não importava o futuro, sempre estaria presente. Ela, que não tinha culpa alguma, continuava na luta do passo-a-passo. Todos esses ressentimentos frutos da falta do entendimento de um fato: todos eles – passado, presente e ela – eram brinquedos da Vida. A Vida que brinca sem dó.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.