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Máscaras de Carnaval




Carnaval nos 4 cantos de Olinda - Olivia Castro Cranwell

Batucada retumbando. Chão tremendo quase na mesma frequência que os quadris das meninas. O ritmo carnavalesco num compasso rápido, tão rápido quanto os relacionamentos que ali se formavam e se desformavam. Um garrafa de cerveja se desfaz no chão, lançando seus cacos entre os confetes. Vidros que servirão de armadilhas pra aqueles seres dançantes desatentos. Mas ninguém estava preocupado com a possibilidade de se ferir. Ou em ferir os outros. Estavam todos feridos por dentro já. Vinham todos de um ano de trabalho árduo. De impostos roubados dos seus bolsos. De amores que não sobreviviam até o próximo carnaval. De insegurança pública que mata. E outras tantas feridas particulares. Eram soldados sobreviventes, diante de uma semana de folga das batalhas. Diante das ilusões, máscaras e fantasias do carnaval.

Dançarina


Cheryl Naked - Romero Britto 

Ela sambava, requebrava e sambava. E não sabia se estava realmente sambando. Parecia estar pulando. Mas fechava os olhos, soltando o gingado. Sentia a energia extravasar por todo o corpo. E ofegava, mas sorria para parecer bonita. Era aquele seu sorriso o mais sincero. Os músculos do rosto esticados, os músculos das pernas pulsando. E descia até o chão e desequilibrava. Porém aquela falta de equilíbrio era só um toque na coreografia, que logo ia completando com um giro e outro rebolado. Até cair na cama e abrir os olhos para o teto. O peito arfando de cansaço, mas de prazer. Dançava sem se preocupar com julgamento de nenhum público. O seu quarto era o local de seu espetáculo diário. E solitário.

Sua perfeita escolha


Suicide - Amber Christian Osterhout

Uma bela casa, carro, emprego. Uma família unida, pais fiéis e dedicados ao extremo. Formou-se na melhor faculdade, no curso mais promissor. Ao seu lado, a mais bela das mulheres. Tinha saúde física, amigos, ótima condição financeira. O mundo parecia estar aos seus pés. Sua vida era perfeita aos olhos de todos. Vivia tudo aquilo que sonharam para ele, mas nada que ele havia escolhido. Quando fez sua primeira escolha, o estômago embrulhou, as lágrimas escorreram, não conseguia respirar e o coração acelerou... Até parar. O sorriso que restou estampado no seu rosto foi o único e verdadeiro pela primeira e última vez. Tornou-se o homem mais feliz do mundo naquele breve momento de adeus.

Em parceria com Raphael Craveiro.

Desconfusão



Leda Atomica - Salvador Dali

Cansada de suas próprias confusões, resolveu confundir-se para sempre. Desconheceu os conhecidos e conheceu os desconhecidos. Aderiu a todos os sotaques. As suas roupas em nada conferiam um estilo único e próprio. Invadiu o mundo das linguagens, como se não tivesse país de origem e língua mater. Esqueceu seu endereço e passou a conviver com as ruas, os quartos, os bares, os campos e mares. Abandonou suas limitações e identidades; tornou-se mundial. Não mais a pergunta “quem sou eu?” veio enlouquecer sua cabeça, pois se reconhecia em tudo e todos. Em consequência não mais discriminava, não mais se regionalizava e muito menos julgava os diferentes. Acabou definitivamente com as confusões dos que se classificam. Confundiu-se com o universo e seguiu feliz.

O ocaso da solidão



Reflections in the sun - Fabian Perez

Tinha se acostumado com a sua solidão. Até que sorrateiramente sentiu-se acompanhada. Dia após dia, percebeu que caminhava junto de si um ser que nunca havia percebido antes. Um ser que, por mais leve e pouco notável que fosse, a complementava de forma brilhante. Pois o dia, na sua presença, parecia mais claro, mais limpo. Pois o ar era respirado com maior firmeza, maior satisfação. Aos poucos, procurou pela solidão e já não a encontrava. Passou a viver acompanhada e feliz consigo mesma, pois aquele ser que fora se descobrindo era a sua própria independência. Independente, acabou com a solidão e foi ser feliz.

Imbatíveis problemáticos


White and red - Fabian Perez

Ali brindavam os sobreviventes. A crise viera para desempregar muitos e deixar assalariados somente alguns. Os poucos, numa simples festa de fim de ano, ali estavam. Cada sorriso estampado na cara era apenas uma farsa impensada. Realmente, sem pensar nos problemas que todos tinham – nas dívidas, nas papeladas da firma, nas dúvidas afetivas, nos descasos familiares – aqueles funcionários brindavam e sorriam para demonstrar a aparência dos “vencedores”, “melhores” e “imbatíveis”. Sim, porque até mesmo cheios de crises pessoais, aquelas pessoas tinham que oferecer aqueles sorrisos. O que aquele mundo perverso exigia não era a felicidade real, mas a forjada. Pois os forjados eram os sobreviventes.

Simples viver



Castilla I - Miguel Marazuela

O casebre era vestido de uma fantasia imutável. Quem por ali passasse, lamentaria a pobreza do mundo. Lamentações inúteis. Os donos da casinha apenas esqueceram-se do mundo e da mania de riqueza das pessoas. Sem fantasias, apenas eram tão felizes na simplicidade daquele lar, que a feia aparência servia para afastar intrusos que, por ventura, sempre ousavam em perturbar os seres felizes. Ali dentro do casebre viviam um homem idoso, sua senhora esposa cega e seus três comportados cachorros. O homem não havia mais o que apreciar do que a beleza do amor da sua esposa; a senhora, cega, não enxergava a feiura da casa, somente sentia-se amada; os cachorros, completudes daquela fidelidade, não eram humanos para se importar com padrões de beleza. Simplesmente viviam naquela imensa e feliz simplicidade.

Herdeiros



The family - Gustav Klimt

Ela era tão feliz: possuía o homem da sua vida e acabara de dar vida a uma criança linda. O homem era tão feliz: acabara de possuir um filho, herdeiro e criatura a quem ele passaria todos os seus conhecimentos. A criança recém-nascida seria infeliz: acabaria entendendo que sua mãe só o colocou no mundo para segurar o marido, e teria que viver debaixo das garras de um pai rígido e inflexível, para quem tudo o que sabia era o correto, nada mais. Seriam esses três mais uma família que pensa ser feliz, carregada de heranças infelizes.

Felicidade negra


The colors of black - David R. Darrow

A senhora branca ficava vermelha de raiva. Era difícil suportar a ousadia daquela negra. Pele lisa, macia, traços simétricos, lábios cheios, olhos brilhantes, dentes impecáveis... Todo aquele arranjo facial quase perfeito irritava qualquer branquinha rica da alta sociedade. Pior ainda era suportar a alegria de viver daquela escrava. Não importava quantos dias de açoites seguidos, na manhã seguinte lá estava a pele negra daquela escrava a brilhar.
Um dia, a senhora branca perguntou discretamente à escrava o que a fazia suspirar de felicidade. A simples mulher negra respondeu firme: “Sou feliz, porque me amo antes de tudo. E exatamente por isso, não tenho inveja de ninguém”. Logo ela concluiu, porém sem falar: amor próprio era a loção de beleza que faltava àquela branca senhora.

Conquista



Make laught of it could happen to anyone - Giovanni Rosazza

Não foi o corpo delgado dela. Não foi a voz doce quase inocente dela. Não foi o olhar saliente e atraente dela. Não foi os fios dourados do cabelo em contraste com o cetim vermelho dela. Não foi o toque forte dela em seu ombro. Não foi a atitude voluptuosa dela. Não foi o oportuno convite para o apartamento dela. Não foi a escolha dela por vinho suave. Não foi o resto da noite inteira dedicado exclusivamente para ela... Nada disso foi. Foi a manhã azul clara que nasceu no outro dia... Foi a risada comprida que o acordou... Foi a imagem daquela loira descabelada, envolta num lençol, observando o céu a dar gargalhadas sem sentido. Foi isso que o conquistou para sempre. Quando ela explicou o porquê do riso, foi o arremate para a eterna conquista entre eles: “Ah, estou rindo porque acordei viva, pronta para amar por mais um dia”.

Desarriscado


The last great romantic - Jack Vettriano

O longo tempo juntos só encontrou sentido naquele derradeiro momento. Perdia-se a vergonha, jogam-se todas as fichas em qualquer aposta... E ele apostou: antes de se despedir, aproximou-se dela, esqueceu qualquer receio, expôs seu desejo. Não pediu, mas deixou o ar se encaminhar do pedido – beijou-a nos lábios, coisa que sempre quis. Beijou e também foi beijado. Pena que era o primeiro e último beijo, pois tinha que ir embora. Ou melhor, logo ele fugiria. Arriscar-se, para ele, era um martírio. Aquele homem era mais um daquele tipo de pessoa para quem desejar algo fervorosamente não é o suficiente para tentar a conquista.  A sensação de ser reprovado o mantinha longe da felicidade. A esse tipo de pessoa faltam riscos bem vividos, beijos mais arriscados, medos superados.

Gorda vida



Sitting woman II

Desde menina, o que ela mais amava fazer era comer. Por isso, suas fotos de criança eram registros de toda a sua fofura. Foi uma criança quase obesa, uma jovem gorda e guiou-se no caminho de uma adulta gordinha – sempre comendo para se sentir feliz. No entanto, quando se tornou uma grande empresária, todos os seus assessores impuseram que a magreza era necessária para cultivar a boa imagem da empresa. Regimes árduos, carboidratos limitados, açúcares determinados... Boa parte do seu gordo salário foi gasto com nutricionistas, ao invés de compras das melhores iguarias.
O regime a mergulhou numa profunda depressão. De mulher gorda e bem-sucedida foi ser mulher magra e mal sucedida. Perdeu o ânimo dos negócios e encaminhou a empresa à falência. Porém, não se deixou abater: hoje é uma simples e gorda secretária, ganhando o necessário para fartar-se com aquilo que a deixava mais feliz: comidas, comidas e comidas.

Perda de tempo


Dizziness - Iman Maleki


Todas aquelas ideias pensadas e batalhadas que tinha que ler o sufocavam. Teve que encostar seus romances numa prateleira e de longe observava a poeira assentar por lá, enquanto por ali tinha as teorias obrigatórias. Lia dois ou três parágrafos e levantava da cadeira para passar os dedos pelos livros encostados. Sonhava com o tempo em que teria tempo para lê-los. Sentia o peito amargurado pelas obrigações. Então, voltava para todas aquelas leituras enfadadas.
Até que chegou um dia que, triste e desesperado, sequestrou os livros da prateleira e foi perder seu tempo nas entrelinhas ficcionais. Sorrisos, afagos, memórias, lágrimas, suspiros, tremores... Perdeu seu tempo com todos os sentimentos vívidos que aquelas prazerosas páginas traziam. Esqueceu-se dos parágrafos teóricos e forçados. Perdeu todo o seu tempo, feliz.

Noiva


Summerdress II - Willem Haenraets


De frente para o espelho, sorriu emocionada. O tecido branco bordado à mão com algumas pérolas no busto deixou-a radiante. Sentiu-se quase um anjo, de tão bela e feliz que estava. Recebera o pedido de casamento na noite anterior. Iria construir sua vida agora inteiramente do lado do homem que tanto amava. E naquele instante, numa loja de noivas, ousou escolher um modelo e experimentar. Sim, foi um ato de pura ousadia. Infelizmente, não poderia realizar o desejo de se casar daquela forma radiante. O tecido branco e as pérolas ficariam nos sonhos. O produto era caro demais, até mesmo o aluguel, para ela – moça pobre, faxineira do centro da cidade. Porém, naquele momento, imaginou-se daquele modo a entrar na igreja matriz e a dizer ‘sim’ para o seu amado. A sua felicidade era capaz de ignorar suas condições e tornar aquela intensa imaginação em quase realidade.

Campestre


Spring Dream - Lori McNee

Abriu a janela para começar o dia. Os galhos da cerejeira invadiram a casa. Os pássaros assustaram-se, alçaram voo. Ela sorriu. Recostou-se no parapeito da janela e ficou por ali meditativa. Viu sua infância ali, no campo, florir. Sua juventude ali, no campo, brotar. Vivia simples e sem largos desejos. Diferente de seus irmãos. Foram deixando a casa, pouco a pouco, criando expectativas de uma vida farta em algum canto cinza e barulhento do mundo a fora. Ela foi a única que permaneceu, não que não fosse mulher de garra – como muitos diziam -, mas porque era feliz. Não era, afinal, a felicidade que todos buscavam? Fugiam do campo, corriam nas cidades, contavam salários e buscavam por mais e mais: tudo não tinha o objetivo simples da felicidade? Sim. Ela, no entanto, não precisava de tanto para ser feliz. Era feliz ali, no campo. Esperou seus pais; esteve do lado deles quando morreram, sentindo falta dos filhos que foram embora dali. Mas esteve presente...
Os pássaros voltaram a seus postos nos galhos da cerejeira. Sorriu de novo. Voltou para o campo, viver.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.