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Realidade julgada


Girls will be girls - Anita Kunz

Sentada no banco da praça, a moça notou: de um lado havia uma mulçumana e de outro, uma freira. Ambas com somente o rosto à mostra, devido às vestimentas características de cada uma. Seu juízo crítico, não se contendo, pensou no quão triste era estar na posição da mulçumana - imposta a se vestir daquele modo - e louvou a freira, que com certeza escolheu seguir aquele caminho de devoção. Fora dos pensamentos da moça, a realidade sussurrava a felicidade da mulçumana, que um dia, em busca de uma fé a seguir, conheceu a religião e cultura islâmica e decidiu seguir aqueles costumes que julgou honrados. Já a freira guardava dentro de si todos os seus desejos reprimidos de fugir do convento, onde foi deixada pelos pais, em cumprimento a uma promessa qualquer - promessa essa que sempre julgou errada. Juízos à parte, a realidade continuava sussurrando.

Missão espiritual


Lucy and Camila - Fabian Perez


O esposo de Maria tinha apenas poucos meses de vida. Era difícil encarar que em tão pouco tempo Maria iria perder o amor da sua vida. Sentindo um forte anseio por ter um filho do homem que partiria em breve, ela engravidou. Nove meses foram o tempo que restou de vida do homem e o tempo que daria ao mundo um menino. Um dia antes de a criança nascer, o pai morreu. E no dia em que a criança nasceu, Maria também morreu.
Falecida no parto, Maria recuperou sua consciência no paraíso. Passou a procurar pelo seu marido falecido, uma vez que tinha em mente que iriam se encontrar no céu. Porém, um anjo surgiu para Maria e explicou-lhe: “Você morreu, Maria, porque cumpristes tua missão. Dera continuidade à vida daquele homem com quem se casou, pois, mesmo ele morrendo, foi ressuscitado no corpo do filho que acabara de dar luz. O mundo precisa daquele homem e agora você merece o paraíso”. Maria desfrutou pouco do paraíso, por estar sempre com saudades do seu amor. Compreendeu que missão cumprida nem sempre traz a felicidade.

Proteção divina



Muro de um castelo

Sua casa de esquina era alvo de assaltos constantes. Para se proteger, contratou vigilância, cachorros ferozes, instalou sensor de movimento, cerca elétrica, câmeras, alarmes barulhentos, holofotes, fortes cadeados e trancas para portas e janelas... Mas mesmo diante de tanta tecnologia e segurança, os assaltos persistiam e saiam vitoriosos. Cansado dessa situação, recorreu à proteção divina: mandou pintar nos muros da esquina uma frase supostamente bíblica, com letras bem graúdas – “Quem rouba, Deus não perdoa. O inferno só é cheio de ladrões”. Completou a pintura colocando um capítulo e versículo qualquer. Desde esse dia, nunca mais teve sua casa assaltada. Percebeu que, talvez, ladrão só tenha medo de perder o paraíso, porque no inferno, todos eles já viviam.

Ladrão de terços



Praying hands

Tinha um estigma mental. Adorava orar sentindo entre os dedos as contas de terços. Começou uma busca implacável pelo maior número de terços diferentes rezados. Comprar já não bastava; passou a roubar terços. Sorrateiro, como quem pedia perdão aos céus, furtava o terço e, em seus momentos de reclusão, entoava as orações sentindo as contas pequenas e grandes entre suas digitais. Porém, um dia, sem terços, foi parar na prisão, rezando e fazendo súplicas ao seu Deus. Ele fora condenado por roubar o terço de ouro da igreja central da cidade. Na cela escura, o ladrão de terços apenas suplicava por algum novo terço para por entre as mãos e rezar.

Sombria iluminação


Titus vestido de monge - Rembrandt Van Rijn

Calado, observou o ambiente sombrio em que estava. Na verdade, a impressão deveria ser contrária: a de um lugar sagrado, de iluminação e conforto espiritual. Mas ainda não aprendera a dissociar seu espírito dos sentimentos do seu corpo. O mosteiro era isolado da cidade de onde ele viera; no meio do campo verde e do ar de liberdade da natureza, os muros marrons de barro se erguiam firmes. Sombrios. “Ah, larga desse teu corpo, homem...”, reclamava de minuto em minuto consigo mesmo, pois sempre aquele pensamento sombrio persistia! O problema da sua mente era não compreender como ali – um local sem cor, sem luz e claustrofóbico – haveria um meio do seu espírito progredir. Ele não queria aceitar o que todos aceitavam: o fato de que era necessário o sofrimento e a escuridão para alcançar o reino dos céus. Apesar de tanta incompreensão guerreando dentro dele, aquele monge permaneceria, por muito tempo, imóvel e calado, esperando seu espírito se iluminar.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.