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A lição do curió


Red Bird - Harold Braul

Coração batia ansioso. Sabia que tinha feito a coisa certa. Mas sentia que iria ser castigado. É que foi mexer com o que não era da sua conta. Mas aquilo parecia está tão errado! Tinha que ter agido. Agiu, mas agora estava a espera das consequências.
O avô voltou para a casa. Olhou para o neto claramente apreensivo. Sabia que ele tinha aprontado alguma. E confirmou sua intuição ao encontrar aberta a gaiola do seu curió. Respirou fundo e foi ao encontro do garoto. O menino, já com olhos cheios d'água, viu a mão aberta do avô se aproximar dele e fechou os olhos com a intensidade da violência que esperava. Mas acabou sentindo um afagar calmo no alto da sua cabeça. Desconfiado, abriu os olhos e encarou o rosto tranquilo do avô. O menino aprendeu naquele dia que nem sempre podia deixar de agir corretamente por medo de encarar a força dos que agem errado. E que agir corretamente, por iniciativa própria, pode acabar corrigindo erros alheios.


Anjo suburbano



Kierra (detalhe) - Michael Shapcott

A menina, com roupas simples e com um pássaro preso entre os dedos, ficava encostada ali nas esquinas da cidade movimentada, tentando chamar atenção. E chamava. Os olhos claros e sérios, o pássaro estranho e a voz angelical irrompiam o cenário urbano. Ao seu redor pessoas aleatórias se amontoavam para admirar o talento daquela criança. Sem instrumento algum, a menina passava os dias a cantar, a impressionar com sua voz de anjo. Sua imagem circulava o mundo virtual. Sua voz se propagava de celular em celular que a gravava. Mas ninguém perguntava seu nome. Ninguém se importava com sua história. Os que, por uma centelha de segundo, se importavam, atiravam algumas moedas na bolsinha que aos seus pés permanecia. E no final do dia, quando o movimento urbano reduzia, as moedas eram reunidas pelo homem que se dizia seu pai – cujo trabalho era permanecer distante a observar a filha – e esta, com a voz de anjo engolida, seguia os passos dele. De volta ao subúrbio. Onde sua voz pouco importava. Onde tinha nome próprio. Onde sua história se fazia.

Entre tiros


Guns - Andy Warhol

Som de tiro. Não só um. Muitos tiros. Para seus ouvidos, não era barulho. Era som, como dos passarinhos na primavera. Mas diferentes dos passarinhos – que só apareciam na primavera – os tiros não tinham estação. Eram sempre presentes. E nunca tivera medo disso. Não até ouvir aqueles tiros. Não eram tiros das armas do pai. Sabia disso. E soube da pior forma. Sangue. No chão da sua casa, havia muito sangue. Descobriu o corpo do pai morto na sala. De súbito, acordou. Aquela lembrança novamente durante o sono. O homem levantou, lavou o rosto para afastar aquela memória. Lembrou as palavras do homem que matou seu pai: “menino, não se preocupe, agora vamos te levar para um país melhor e terá uma educação melhor. Não precisará viver entre tiros”. Diante do espelho, ele encarou seu próprio riso. Muito enganado. Apesar do seu passado renegado, com seus pais talibãs mortos, após ser supostamente acolhido por outra nação, educado e formado, agora era policial. E escolhera aquela profissão só para continuar vivendo entre tiros. Porque ele foi criado assim. Porque aqueles foram os valores ensinados por seus pais. E sairia para mais um dia de trabalho. Para atirar. Porque aquele era o som da sua vida.

Sem mãos dadas


Preludio para una nueva era - Denis Nuñez Rodriguez

Ela dispensou a mão que a mãe, carinhosamente, ofereceu. Atravessaram, sem mãos dadas, a rua. Aquele ato fez a mãe desabar dentro de si. Nos últimos dias, a menina, que nem doze anos tinha ainda, já se negava a dormir com a mãe, a pedir ajuda no banho, a convidá-la para passear e agora nem andar de mãos dadas queria mais. Não demoraria muito para que a filha largasse os brinquedos, escolhesse as próprias roupas e saísse sem dar motivos... Já que nem ajuda precisava para atravessar uma rua. Esse pensamento fez a visão da mãe, sem querer, embaçar, cheia de lágrimas. Ela não sabia prever qual seria a próxima oportunidade que teria para andar de mãos dadas com sua pequenina garota. Talvez na sua velhice, quando fosse ela quem não pudesse caminhar sozinha. E, além disso, quando a filha voltasse a se importar com aquele simples ato de dar as mãos.

O fenômeno do fermento


Saturday Afternoon in a Girl's Life - Jeffrey Beauchamp


No domingo, foi para cozinha com a filha de cinco anos fazer um bolo de chocolate para alegrar o dia. Pediu para a menininha que a ajudasse, procurando pelo pequeno pote de fermento. Muito esperta, a menina achou rápido e logo questionou para que servia fermento. Pacientemente, a mãe explicou que uma pequena colher de fermento fazia o bolo crescer. O fenômeno da fermentação foi assistido por ambas. E o domingo foi pura delícia.
Na segunda, depois de voltar do trabalho, a mãe procurou pela filha e a encontrou toda suja de pó branco. Mas o que era aquilo? A menina, pacientemente, explicou para a mãe que era o fermento que ela derramou em cima de si mesma com a expectativa de crescer rápido. Diante daquela inocente cena cômica da filha, a mãe sorriu triste. Uma tristeza por saber que, já tão novinha, a filha já desejava crescer. Abandonar a infância. Sem saber que o resultado do fenômeno do crescimento humano não é assim tão fácil. Nem tão delicioso.

A alma da rotina



Laurette's head with a cup of coffee - Henri Matisse

Acordar para trabalhar – trabalhar para comer – comer para dormir. Dormir para sonhar com aquela infância que viveu tão leve como um pássaro no azul do céu. Acordar para trabalhar – trabalhar para comer – comer para dormir. Dormir para sonhar com aquela criança que queria passar a madrugada acordada para observar as estrelas. Acordar para trabalhar – trabalhar para comer – comer para dormir. Dormir para sonhar com a liberdade das tardes ensolaradas acompanhadas de seus livros de ficção-fantástica. Acordar para trabalhar – trabalhar para comer – comer para dormir. Dormir para esquecer que à medida que envelhecia, seus sonhos diminuíam, seu tempo endurecia, sua liberdade se esvaia, seu viver esmorecia. Acordar para trabalhar – trabalhar para... Morrer, um dia. E por fim àquela rotina.

Inspiração impressa


Livros 5 - Norberto Nunes

Não tinha irmãos mais velhos em quem se inspirar. Não conhecia muito bem seus pais para neles se espelhar. À medida que ia crescendo, dentro do peito crescia uma vontade de se desprender dos brinquedos e buscar novos complementos. Descobriu, numa tarde nublada, uma estante cheia de livros. Afastou a poeira do tempo e leu alguns parágrafos. Sem perceber, acumulava em cima do lábio superior uma fina camada de suor – algo que tanto o irritava, mas que dessa vez ele não afastou, notando-se completamente absorto naquela ficção muda e estampada nas folhas daquele livro. Gravitou o dia inteiro ao redor daquelas páginas. Encontrou-se. Aquela estante mudou a vida do garoto. Descobriu nos livros a sua maior inspiração na vida.

Criança em fagulhas



Young black child - Maria Saldarriaga

Fogos explodindo acima da sua cabeça. Gritos que não diziam palavras, apenas gritavam. Ouvidos congestionados. Visão embaçada pelas lágrimas. Profundo desamparo, não sabia para onde correr, nem quem seguir. Não sentia mais as mãos dos seus pais lhe protegendo. Uma noite tremendamente escura que não parecia nunca acabar...
A criança afegã acordou assustada do pesadelo. O quarto do orfanato estava sendo iluminado por fogos de artifício que explodiam no céu lá fora. Não tinha seus pais ao seu lado, apenas algumas cobertas. O pesadelo que acabara de ter nada mais era do que as lembranças de um ano de guerra constante no seu país. Agora, a criança assistia à turbulência de um país diferente comemorando a chegada de um novo ano. Comemoração que trazia tanto as lembranças terríveis como a esperança – esta última coisa ainda tão pouco compreendida.

Contente


Christmas wishes - Heidi Malott

O menino, contente, correu pela casa quando soube que os presentes foram postos debaixo da árvore de natal. De longe avistou os pacotes brilhantes à sua espera. Contente, sentou-se ao redor da árvore, escolheu o maior embrulho e abriu: encontrou uma panela de pressão – Ah, filho, esse é o presente da sua mãe. O menino insistiu com o pacote médio; rasgou o papel dourado e encontrou um livro de matemática – Desculpe-me, filho, esse é o presente da sua irmã mais velha. Ainda contente, o menino recorreu a uma pequena caixa e a abriu rapidamente, descobrindo um relógio de bolso em ouro branco – Oh, querido, esse é o presente do seu avô, abra o último... Lá jazia um pequeno embrulho à espera do menino contente. Ele abriu – contente, mas desconfiado – e se deparou com uma camisa azul. A espera por um brinquedo fora sacrificada por uma simples peça de roupa. E as últimas palavras do sacrifício foram as da explicação de seu pai: Feliz Natal, filho, espero que esteja contente... Caso contrário, contente-se!

Palhaçada



Três palhaços - Georges Rouault

O menino amava os circos e, principalmente, os palhaços. Gargalhadas eram fartas sempre que entrava em contato com as palhaçadas. Porém, de tanto ir ao circo, um dia o circo retribuiu uma visita à casa do menino. De madrugada, três palhaços invadiram sua casa, amarraram sua mãe, bateram no seu pai e levaram todos os objetos de valor que lá havia. Antes de irem embora, no entanto, os palhaços intrigaram-se com a seriedade do menino que permanecia olhando-os fixamente. Sentiram-se ameaçados pelo olhar da criança e, por isso, decidiram matá-la. O espírito do menino morto foi buscar nos céus os circos sagrados para gargalhar.

Inférteis


In daddy's hands - Mats Eriksson


Casados a mais de vinte anos, nunca tiveram filhos. A princípio, porque queriam curtir o tempo, infinitamente devotados um ao outro. Logo após, porque não se julgavam preparados para educar uma criança. E agora, porque não conseguiam conceber a vida. Passaram a viver uma longa saga pela busca da gravidez. Foram envelhecendo ainda novos. Quem os visse saindo das clínicas de fertilização, perceberia um casal de jovens caducos.
Depois de anos tentando, nasceu uma bela criança. Mas a vitória não fora suficiente para apagar a caduquice que tomou conta do casal. A criança – que não queria nascer – ganhara como pais um casal de velhos desgastados. Um casal infertilizado.

Finita


Shadow - Mary Jane Ansell


Reconheceu sua própria vida. Agora tinha a nítida noção de que ela era única, que teria que fazer escolhas, construir os próximos anos. Entendeu a existência da morte. Passou noites em claro após perceber que sua vida era finita. Sofreu de início, demorava a pegar no sono. Mas o dia vinha e ela percebeu que já era hora de encarar aqueles novos dias como únicos e intransferíveis. Então, certo momento, nasceu dentro dela uma pessoa determinada a encontrar responsabilidades sérias com as quais se preocupar. E foi por isso que ela largou os brinquedos, as bonecas, os tempos de jogos com os colegas da rua. A menininha de quase dez anos passou a almejar ser adulta. Seu espírito infantil foi impregnado pelo medo da finitude da vida e, assim, entregou-se a seriedade da vida adulta.

Homem-menino


Qual a idade da velhice? - Ubirajara Rodrigues



Aos 5 anos, órfão, tinha que ser homem, criar-se sozinho. Passava de casa em casa, limpava calçadas, ajudava no que pudesse para conseguir comida e banho. Aos 10 anos, era homem promovido a carregador de água do poço da vila para todas as casas. Sobrevivia, trabalhador. Aos 15 anos, sentia-se jovem, cheio de anseios por conhecimento. Saiu da vila e de carona em carona foi parar na grande cidade. Aos 20 anos, consegue se educar; da misericórdia de poucas pessoas, passou a ler e criar. O jovem homem, aos 25 anos, começou a trabalhar no seu próprio negócio – era gerente de si mesmo, único funcionário. Aos 30 anos, o negócio crescia; sentia-se mais jovem a fartar-se da independência conseguida.
Essa breve cronologia passava na mente do menino de 50 anos: empresário que pouco trabalhava, de pernas para o ar numa praia estrangeira, tranquilo a rir-se da velhice que viveu quando menino... E da meninice que sua alma leve agora se permitia.

Domingo de voo


Abandonment - Ian Castruita


Ele morava na casa dos pais, sozinho. Há tempos não tinha mais a mãe para limpar a casa, nem o pai para cozinhar o feijão carioca. Teve que se adaptar à vida daquela casa solitária. Por isso, as responsabilidades agora eram suas: aquele domingo de vento era dia de arrumação. E, sem motivo aparente, foi pela despensa que começou o trabalho doméstico. Já sentia o suor na testa escorrer, quando algo caiu por cima da sua cabeça. Olhou para o chão e viu uma pipa amarela, empoeirada e com teias de aranha. Lembrou-se de quando era moleque... De como passava horas observando os meninos lá fora empinando pipas... De como foi que furtou aquela pipa, mesmo o pai não o deixando brincar com ela.
Com a pipa nas mãos, não ouviu a voz da mãe o repreendendo, nem os gritos do pai mandando-o estudar. Um sorriso faceiro brilhou no seu rosto de trinta e sete anos. Foi para fora da casa, estendeu a corda da pipa e saiu correndo. Aproveitou o domingo de vento para resgatar sua infância perdida. Por um momento, não sentiu saudades dos pais – se eles estivessem ali, iriam mandá-lo parar. O homem deixou-se guiar pelo moleque que fora banido para o fundo do seu peito. Alçou voo naquela pipa amarela,  durante a tarde inteira.

A protetora


Mother and child on a couch - James Abbott McNeill Whistler


Correu para o quarto do menino o mais rápido que pôde. Trancou a porta e abraçou-o forte, pois sabia que ele corria perigo mais uma vez. A respiração acelerada não poupou sua pele de sentir as lágrimas quentes da criança. Sofria vendo-o daquele jeito. As pancadas na porta anunciavam que o pai do menino já chegara ali, depois de subir, trôpego, a escada da casa. A criança era vítima das irresponsabilidades do pai alcoólatra. Ela, tia e irmã do homem que berrava imundices do lado de fora do quarto, se sentia na obrigação de proteger aquele nobre pequeno ser. Sem mãe, o menino tímido apoiava-se nos carinhos da tia para ter esperanças de uma vida melhor, visto que seu pai desencantava qualquer sonho infantil seu.
Os minutos transcorreram frágeis; a mulher percebeu que conseguira, mais uma noite, afastar o menino da violência do pai. O homem, seu irmão, desistira. O menino, seu sobrinho, adormecera. Amanhã seria um novo dia... Ela rezava, agora, para que esse fosse melhor.

Fuga


A lanterna de Kyle - Denyse Klette

A madrugada invadia o quarto. O silêncio sussurrava na sua pele. Estava na hora certa para acordar. Levantou, esfregou os olhos e saiu da cama, tendo o cuidado de não deixar o lençol no chão. Saiu do seu quarto e foi direto ao destino de todas as suas madrugadas. Como uma fugitiva, espiou todas as sombras da casa, de modo a não deixá-las saber que por ali ela passava. Diante da grande porta, respirou fundo e sorriu silenciosamente. Abriu a porta e esperou o barulho da ferrugem do trinco não assustar ninguém. Mas ela sempre se assustava.
Venceu o percurso de sua fuga. Alcançou seu maná dos deuses. Diante de si, a biblioteca de seu pai se expandia. Deixou um sorriso sonoro escapar – nunca conseguia prendê-lo diante daquele momento. Agora, buscou o livro que começara a ler há duas semanas. Essa seria a madrugada da conclusão. Aconchegou-se e pôs-se a ler.
Na calada da noite, aquela menininha, sem consentimento dos pais, era feliz. De página em página, se deliciava com a vida.

Criança demais


A pureza - Miza

Era criança demais para os pais perceberem que entendia tudo. Mas entendia. Não havia historinhas de quadrinhos ou contos de fadas que encobrissem. As coisas dentro de casa eram reais demais que acabavam apagando as fantasias de sua infância. Se tivesse uma voz mais grave, levantaria, ousaria assim como uma super-heroína faria. Mas não percebia, ainda, que sua voz aguda e baixa era suficiente para acabar com as lamentáveis discussões.
Era criança demais, mas já desejava muito. Ajoelhava-se e pedia a Deus – aquele homem que a sua mãe ensinara a confiar todos os seus sentimentos – que não a tornasse um adulto daquela forma. E se fosse preciso crescer, que crescesse melhor. Por enquanto, tinha que fingir não entender nada. Suas orações eram contidas, sem pressa.
Seus pais eram mais crianças do que ela. Mas isso, ela ainda era criança demais para entender.

Olhar orfão


Bruno Amadio


"Por que é tão breve a alma?", perguntaram-se aflitos os olhos do pequeno garoto quieto. Descia aquela caixa de madeira lustrada, sob música pausada e melancólica, na terra bem cuidada daquele lugar cheio de cimento, mármore. Era pequeno demais e, um tanto por isso e por sua falta de compreensão, não soube ouvir a pergunta de seus olhos; tampouco saberia responder. Um adulto que o encarava triste e preocupado teria percebido a irrefreável dúvida daqueles olhos infantis, porém, por ser adulto, não tinha mais a sensibilidade - motor que moveria a perspicácia do apelo do menino. E aquele dia triste, por falta de compreensão e sensibilidade, terminou mais uma vez vazio. Vazio daquilo que só os olhos do pequeno órfão souberam questionar.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.