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Entre tiros


Guns - Andy Warhol

Som de tiro. Não só um. Muitos tiros. Para seus ouvidos, não era barulho. Era som, como dos passarinhos na primavera. Mas diferentes dos passarinhos – que só apareciam na primavera – os tiros não tinham estação. Eram sempre presentes. E nunca tivera medo disso. Não até ouvir aqueles tiros. Não eram tiros das armas do pai. Sabia disso. E soube da pior forma. Sangue. No chão da sua casa, havia muito sangue. Descobriu o corpo do pai morto na sala. De súbito, acordou. Aquela lembrança novamente durante o sono. O homem levantou, lavou o rosto para afastar aquela memória. Lembrou as palavras do homem que matou seu pai: “menino, não se preocupe, agora vamos te levar para um país melhor e terá uma educação melhor. Não precisará viver entre tiros”. Diante do espelho, ele encarou seu próprio riso. Muito enganado. Apesar do seu passado renegado, com seus pais talibãs mortos, após ser supostamente acolhido por outra nação, educado e formado, agora era policial. E escolhera aquela profissão só para continuar vivendo entre tiros. Porque ele foi criado assim. Porque aqueles foram os valores ensinados por seus pais. E sairia para mais um dia de trabalho. Para atirar. Porque aquele era o som da sua vida.

Criança em fagulhas



Young black child - Maria Saldarriaga

Fogos explodindo acima da sua cabeça. Gritos que não diziam palavras, apenas gritavam. Ouvidos congestionados. Visão embaçada pelas lágrimas. Profundo desamparo, não sabia para onde correr, nem quem seguir. Não sentia mais as mãos dos seus pais lhe protegendo. Uma noite tremendamente escura que não parecia nunca acabar...
A criança afegã acordou assustada do pesadelo. O quarto do orfanato estava sendo iluminado por fogos de artifício que explodiam no céu lá fora. Não tinha seus pais ao seu lado, apenas algumas cobertas. O pesadelo que acabara de ter nada mais era do que as lembranças de um ano de guerra constante no seu país. Agora, a criança assistia à turbulência de um país diferente comemorando a chegada de um novo ano. Comemoração que trazia tanto as lembranças terríveis como a esperança – esta última coisa ainda tão pouco compreendida.

Em tempos de guerra


Summer interior - Edward Hopper

A insônia dormia junto com ela novamente. A cidade estava calada. A sua rua, vazia. Os seus olhos despertos fixavam-se no teto. Cansara das orações, dos pedidos, súplicas afogadas em lágrimas. Olhou para o relógio no criado-mudo: 04:43. Naquela hora seu filho, seu marido e seu amante estariam em solo inimigo. A guerra já estava no seu vigésimo terceiro dia, cada vez mais banhada em sangue. A estratégia dessa madrugada fora anunciada no telejornal das oito. Ficara assombrada. Seus amores guerreavam, obrigados. Os três deixaram para trás ela, sozinha, com o coração na mão. Cada dia aumentava a falta do amor filial, do amor companheiro de seu marido e do amor ardente do seu amante.
Olhando o teto branco do seu quarto, insistiu na súplica: que a guerra acabasse e que os três homens da sua vida voltassem, ou ela mesma morreria.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.