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O paciente


Hartley - Alice Neel


"Minha vida está uma merda. Sei que tudo é uma tempestade feita em copo d'água. Isso só piora ainda mais o sentimento que guardo sobre mim. Odeio minha fraqueza. Não tenho forças para procurar fazer aquilo que realmente gosto. E naquilo que faço, coloco pouco esforço. Das coisas boas que tenho, sou muito desmerecedor. Nada consegui por trabalho próprio. Em nada vejo meus esmeros. Sinto-me um completo nada. Algo que vive uma vida medíocre e espera o dia do fim".
Depois desse desabafo, o psicanalista olhou profundamente no rosto transtornado daquele homem. Viu nele mais um paciente. Paciente da vida, não só paciente de consulta médica. Paciente não de paciência, mas de estar passivo. Era mais uma pessoa inteiramente passiva diante da vida. E que não acredita no potencial ativo que tem. Mais um paciente do tempo. Das circunstâncias em que acabou se inserindo. Mais um no universo de pessoas pacientes. Que não mudavam o que era. Que viviam aquilo que não queriam. O seu trabalho era tentar motivar essas pessoas a deixarem de ser pacientes. E eis um longo trabalho, por isso deixou seus devaneios de lado. Pôs-se a trabalhar.


Distante liberdade


TM2 - Lou Ros

Mais um dia riscado no calendário. Agora faltavam quarenta dias para ele sair daquela solitária. Estava preso, sem ter cometido nenhum crime. A pena que pagava era por amor. A prisão em que se encontrava era sentimento que vivia por estar longe dela. A distância, para ele, causava tal sentimento de prisioneiro, pois ela era sua liberdade. Não importa quantas pessoas estivessem ao seu redor ou o quão livre no mundo ele estivesse. Sem ela, se sentia sozinho demais para viver. Incompleto demais para seguir em frente. Por isso, preso dentro de si. Era uma solitária em forma de homem. Então, contava os dias para ela voltar. Em quarenta dias, voltariam seus abraços, beijos e corpo. Sua liberdade em forma de mulher. A sua redenção.

Carcereiro de si


Igor Morski

Uma lágrima correu solitária. Mas fraca, secou na metade do seu caminho. É que o terreno que percorria era árido demais. Há tempos que não era irrigado. Aquela lágrima foi a única que conseguiu escapar e tentar socorro. Viviam lágrimas presas dentro daquele homem. Ali dentro, havia sempre um pranto farto. Mas por fora, ninguém percebia. Sem ajuda, as lágrimas sufocavam ali dentro. E se multiplicavam, aumentando mais o sufoco. Então, aquela corajosa lágrima foi a única que conseguira suplicar ajuda externa. Porém, falecida lágrima, não teve força persuasiva. Ninguém notou o lamento interno do homem. Ninguém notou o pranto por trás da máscara árida de fortaleza. Ninguém libertou as tantas lágrimas presas em cárcere. O homem continuou sufocando. Continuou sufocado.

Derrota solitária


Androniki - Giorgos Rorris

Esse é aquele momento em que a solidão vem e ataca. Pensou. Repousou as costas doloridas na poltrona. Buscou o sono, sua arma para tentar rebater o ataque, mas se lembrou que, há alguns meses, a insônia também tinha a atingido. Então, insone, teve que se render novamente. Sentir a dor de estar sozinha. Mais um dia a terminar assim. Sabia que esse era o preço que tinha que pagar por ter vivido daquela forma tão egoísta. As pessoas que pareciam na sua juventude tão substituíveis, tão descartáveis, agora pareciam tão fundamentais no auge dos seus cinquenta. Porém, ninguém permaneceu ao seu lado. E ela merecia aquela solidão. Por isso, não lutava mais. Deitaria e deixaria escorrer as lágrimas no rosto - sangues de mais uma derrota - até adormecer por umas poucas horas. Até acordar e viver mais um dia.

Sem mãos dadas


Preludio para una nueva era - Denis Nuñez Rodriguez

Ela dispensou a mão que a mãe, carinhosamente, ofereceu. Atravessaram, sem mãos dadas, a rua. Aquele ato fez a mãe desabar dentro de si. Nos últimos dias, a menina, que nem doze anos tinha ainda, já se negava a dormir com a mãe, a pedir ajuda no banho, a convidá-la para passear e agora nem andar de mãos dadas queria mais. Não demoraria muito para que a filha largasse os brinquedos, escolhesse as próprias roupas e saísse sem dar motivos... Já que nem ajuda precisava para atravessar uma rua. Esse pensamento fez a visão da mãe, sem querer, embaçar, cheia de lágrimas. Ela não sabia prever qual seria a próxima oportunidade que teria para andar de mãos dadas com sua pequenina garota. Talvez na sua velhice, quando fosse ela quem não pudesse caminhar sozinha. E, além disso, quando a filha voltasse a se importar com aquele simples ato de dar as mãos.

Passado e ela



Close your eyes - Wlodzimierz Kuklinski

Virou as costas. Retornava para o presente. Mas ficou sentindo os olhos do passado a acompanhá-la. Insistentes e pesados olhos. No caminho do retorno, ela se sentiu triste, extremamente pesada, como se cada passo tivesse que levantar toneladas de ressentimentos do passado. Este que a culpava por não ser o presente e que dizia que, não importava o futuro, sempre estaria presente. Ela, que não tinha culpa alguma, continuava na luta do passo-a-passo. Todos esses ressentimentos frutos da falta do entendimento de um fato: todos eles – passado, presente e ela – eram brinquedos da Vida. A Vida que brinca sem dó.

De portas fechadas


Sem nome - Alejandro Boim

Feche a porta. Era o que a placa pendurada na porta sussurrava para quem passava. Era uma medida encontrada por ele para deixar ali guardadas todas as melancolias que ele vivia. Não queria compartilhar suas mágoas. Ele gostava de ser o único a sofrer por ali. Pois sofrer tem lá suas vantagens. Desde que, ainda muito pequeno, foi diagnosticado com depressão, nunca mais recebera sermões raivosos do pai, nem obrigações domésticas da mãe, tampouco podia ser maltratado pelos irmãos. A depressão era o que assegurava toda a atenção, o carinho e os privilégios que achava merecer. Por isso, cultivou uma série de melancolias ali no seu quarto. E fechava a porta para qualquer motivo que afastasse suas mágoas.

Seguro de vida



Weeping woman - Pablo Picasso

Das mãos pendiam notas e mais notas de dinheiro. Dos olhos pendiam lágrimas e lágrimas de tristeza. Uma cena estranha para qualquer observador que a desconhecesse. Mas se a conhecesse bem, saberia a imensa tristeza que a mulher sentia ao possuir nas mãos aquilo em que havia se transformado o seu marido. Viúva, acabara de receber o seguro de vida do falecido. No peito, a imensa vontade de trocar todo o dinheiro do mundo pela vida do seu amado. Que sinistro aquele o seu: ter o seu infinito amor transformado num finito valor. Ter o seu eterno amado convertido naquelas efêmeras notas.

Olhos enxutos


Q Train - Nigel Van Wieck

Ela sentou-se no banco do metrô vazio e esperou as lágrimas descerem. Mas elas não desceram. E ficou ainda mais triste com isso. Na sua infância distante, o choro costumava ser sua redenção. O lugar-comum dos seus alívios. Porém, parece que, além da sua inocência, o tempo levou também sua capacidade de chorar. Mesmo com tantas decepções acumuladas, mesmo com todo aquele sentimento de tempo perdido... Não pôde contar com suas próprias lágrimas. Era o cúmulo da solidão. O atestado da sua imensa fragilidade. Ali ficou, no banco daquele metrô, uma recém-adulta só e frágil. Voltas e mais voltas, de olhos vazios.

Oração de saudade



Marc Chagall

Quando só as fotos sobram e você tem que se acostumar com aquele perfume se esvaindo. Quando você não sabe se comemora os dias passando, na esperança da dor parar ou na tristeza de ir ficando mais distante do último toque. O último abraço... As tentativas de se livrar dos momentos tristes, lembrando os momentos felizes. O dom de ir escrevendo contos sem sentido e sem objetivo... Apenas "escrever como forma de oração", como já orava Kafka. De reza em reza, a súplica para a saudade passar e a alma aquietar no fundo do peito aflito.


Em memória a minha Lilica.

Formado


Alter ego - Rene Magritte

A festa acabara. Subiu as escadas e foi para seu quarto. Foi parado no meio do corredor pela imagem refletida pelo espelho que havia logo ali, no final. Não era ele. Angustiado, percebera o que se tornara: ele não era o que queria, mas o que outros quiseram. Não era ele. O reflexo era a realização de desejos alheios, de pai, de mãe, da família, da sociedade. Diante dessa realidade, ele sentiu uma lágrima descer pelo rosto. Na imagem do espelho, não viu lágrima alguma. Homem não chorava, afinal... E algumas coisas apenas se sentem. O fato era que a sua festa de formatura acabara. Formou-se – formado naquilo que nunca quis.

Paternidade velha



Washington prays for America - Rubber Durk

“Papai, minha professora me deu meio ponto por uma resposta bem respondida hoje...”. Sentado na escadaria da praça, ouviu a lembrança de mais um início de conversa morrendo. Recordou o garotinho, com a voz fininha, tentando todos os dias chamar atenção daquele homem majestoso, ocupado com os artigos do jornal. Também ouviu os decretos de pena de morte das conversas dados através de algum “hum” e “aham”.
Aquelas iniciativas do filho diminuíram, enfraqueciam-se diante da frieza paternal. As novidades tornaram-se segredos. A juventude os afastou. O pai, ficando velho, largou os jornais devido à dificuldade na visão para a leitura e, aposentado, passou mais tempo dentro de casa. Percebeu que não havia ninguém para conversar com ele. O tempo fez crescer o garotinho e o arrancou da casa daquele velho. Não mais teria aquela voz fininha e nem teve longos registros da voz grave que o tempo transformou... O pai velho nunca teve o prazer de ser chamado de velho pai.

Carta a Narcisa



Girl combing her hair - William McGregor Paxton

Cada traço doce do seu rosto a encantava tanto que ela costumava passar horas inteiras se observando. Talvez por apenas se admirar, ela não conhecesse nenhuma outra beleza mais acolhedora do que a sua própria. Um dia, sem ela perceber, seu pai mandou um pintor desenhá-la numa tela enquanto ela se admirava no espelho. Aquela pintura permaneceu escondida por muitos anos. Seus pais morreram e a velhice veio murchando a imagem da bela moça. Ela pensou que não iria suportar o resto da vida sem a sua beleza para admirar e caiu numa profunda tristeza. Porém, seu irmão, sentindo ser aquele o momento certo, mostrou a pintura e entregou uma carta do pai falecido assim escrita: 
“Filha querida, é uma pena que somente agora que a velhice chegou para você é que poderei falar algumas palavras e você poderá ouvi-las com atenção. Não pense que a felicidade existe na sua imagem. Acredite que as mais belas coisas estão longe do seu espelho. Aproveite o resto da sua vida e viva de verdade. Estou morto, porém se estivesse vivo olharia para o fundo dos seus olhos e diria que agora, velha e desfocada, você está incrivelmente mais linda do que a moça bela que apenas perdia a vida a se admirar. Beleza de verdade está na vida, filha. E por acaso, você já viu alguma imagem pintada da vida por aí? Com amor, seu pai”.

Contrato




Day dream - Andrew Wyeth

A noite de núpcias foi fria. Nem o calor do corpo da donzela esquentou-o. Casamento por conveniência já começava assim, passivo e triste. Forçado. Entristecia a cada expiração só em pensar que não era um contrato de tempo determinado, muito pelo contrário, a intenção era para ser por toda a vida. E que vida viveria dali por diante? A vida de um marido frio, com lembranças da amante esquecida, de amores pausados por uma assinatura entre famílias. O seu pai estava com o peito cheio de honra pelo contrato com uma das melhores famílias da província, mas ele, o filho, estava com o peito cheio de angústia por ter que largar a paixão com a cabocla da fazenda para ficar com a loirinha da vila. Pois bem, o que haveria ele de fazer? Permaneceria pelas manhãs a observar o corpo pálido da então sua esposa, adormecido sob o mosquiteiro. Observaria com pesar, uma vez que aquela imagem seria mais bela se o mosqueteiro tentasse, em vão, esconder uma certa pele dourada que ele tanto sentia falta.

Carta de pedido


Suplício por alívio - Edvard Munch


Olá, Desespero. Escrevo na minha mente, porque já não tenho forças nos dedos para escrever em papel. Meus dedos andam fracos do choro lancinante que não para de rasgar minha face. Os pingos de lágrimas já escorrem pelo meu peito e só digo isso para que constates que o meu sofrimento não é um mero abalo. Sim, recorro diretamente a ti, Desespero, para que tenhas pena desse corpo de mulher ferida. Já me bastam os fatos do abandono e ainda queres tu fazer companhia dia e noite a mim? Peço perdão, mas tua presença não me ajuda e penso que ajuda é a tua intenção, pois fosse o contrário, deixar-me-ia completamente na solidão – talvez ainda pior. Ah, querido Desespero, agradeço a preocupação, mas meu peito está machucado, o Amor deixou-me e não vejo melhor remédio do que pedir que vá, deixe-me também. Eu suporto este abalo novamente, as lágrimas equilibrarão o arfar da perda desta vez. Sim, eu cuido de mim mesma, prometo. E tenho mais dois pedidos a fazer-te: se tu vires a Paz por onde andares, Desespero, pede que me venha fazer uma visita e, por último, se vires o Amor, dê esse recado: a última vítima que fizestes, Amor, escolheu morrer em Paz.

Volta perdida


Above and Below III - Mary Jane Ansell


Acordou ansiosa e, com seu olhar minucioso, descobriu o que temia: ele não estava mais ali. Fechou os olhos e deixou-se rolar por aqueles lençóis de seda vermelha. A angústia tomava conta do seu peito. As lágrimas, sem nenhuma educação, romperam as frestas de seus olhos e banharam seu rosto macio. Sentiu a saudade invadir sua mente. E sentiu que não demoraria muito até surgir a torrente de perguntas sem respostas: ‘por que’, ‘o que eu fiz’, ‘eu mereço’? Deixou o corpo se curvar, como se estivesse numa guerra sem esperanças e com aquilo buscasse proteção. Os lábios secos abriram-se num gemido tristonho.
A perda é lastimável para qualquer ser humano. Mas pior do que isso é perder depois de pensar que ganhou... Depois de uma noite de amor, depois de sentir que poderia ter volta, depois de pensar que tudo havia se consertado... Perdeu pela segunda vez. Seu homem a deixou de novo, depois de tê-la nos braços a noite inteira. Idas e vindas... Porém, dessa vez não haveria volta.

Olhar orfão


Bruno Amadio


"Por que é tão breve a alma?", perguntaram-se aflitos os olhos do pequeno garoto quieto. Descia aquela caixa de madeira lustrada, sob música pausada e melancólica, na terra bem cuidada daquele lugar cheio de cimento, mármore. Era pequeno demais e, um tanto por isso e por sua falta de compreensão, não soube ouvir a pergunta de seus olhos; tampouco saberia responder. Um adulto que o encarava triste e preocupado teria percebido a irrefreável dúvida daqueles olhos infantis, porém, por ser adulto, não tinha mais a sensibilidade - motor que moveria a perspicácia do apelo do menino. E aquele dia triste, por falta de compreensão e sensibilidade, terminou mais uma vez vazio. Vazio daquilo que só os olhos do pequeno órfão souberam questionar.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.