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Sintonia surreal


Lovers holding hands on beach - Helga McLeod

Ele tocou na mão dela. Envolveu os dedos ao redor dos dedos magros. Deslizou o polegar na palma da mão. Aquilo fez ela sentir uma corrente elétrica incomum percorrer seu corpo. Já ele, se arrepiou. Sem falar sequer uma palavra, apenas envolvidos no silêncio daquele instante de reencontro, se questionaram se realmente não existia alguma ligação de outras vidas. Ou uma relação de outros mundos. Ou de passados mal resolvidos. Será se existia? Não sabiam. Apenas sentiam existir aquela tamanha sintonia. Tamanho desejo. Algo que, não importava o tempo que passasse, ao se reencontrarem, sentiam do mesmo jeito. Na mesma intensidade. Não importava com quantos outros relacionamentos se envolvessem, bastava um aperto de mãos, naqueles encontros casuais, e eles já se envolviam de novo. Um no outro. Ali calados, a sentir apenas o tocar das mãos. Até essas mãos se distanciarem e cada um fingir seguir em frente sem o outro. Porque, por mais espiritual, telepática ou de outro mundo que fosse aquela sintonia, eles não estavam mais juntos. E seus caminhos estavam traçados em sentidos distintos. Porém, caminhos que guardavam diversos reencontros, só para lembrá-los que existia no mundo alguém com quem partilhavam aquela surreal sintonia.

A arte de lapidar


Enveloped between a pleated thought - Tran Nguyen


Não, ela não era perfeita. Sim, de fato, isso ninguém é. Mas no caso dela, ela era cheia de imperfeições. Dessas imperfeições que fazem uma pessoa ser mal falada. Porém, ele via nela um brilho especial. Algo que não via em outra mulher. Algo que só ele conseguia enxergar. E, por isso, acabou se envolvendo com ela. Passou por muito baixos. Mas, foi valorizando cada momento alto, que transmitia boas influências para ela. Por muitas vezes, a salvou das confusões em que ela se metia. E, assim, foi construindo uma vida juntos, vida essa que ela nunca imaginou ter. Então, o brilho foi intensificando. Mas isso não foi da noite para o dia. Foram anos, ele a lapidar aquela mulher. É que ele era incansável no seu papel de lapidá-la, pois sabia que toda pedra preciosa sempre foi um dia uma pedra bruta. E só os mineradores sortudos é que têm olhos para enxergar seus brilhos especiais.

Conto de sedução


Lovers - Jarek Puczel

Cavalheirismo é sedutor. Pelo menos era o que ela passou a acreditar que fosse. Pois não havia um dia em que ela não o desejasse. Cada encontro, ele abria uma porta aqui, dava espaço para ela passar, oferecia um sorriso, um copo de água, um boa tarde, uma ajuda para fazer algo... E por aí seguia todos aqueles atos cavalheiresco de um homem que passava longe de ser fisicamente encantador, mas que, não sabia bem porquê, a deixava sem ar. Tão educado. Tão simpático. Tão natural. Ele não parecia um príncipe - faltavam aqueles olhos claros, traços simétricos, músculos dos astros de Hollywood. Mas ele agia como um príncipe. E mais importante do que isso: a fazia se sentir uma princesa. Por isso, ela o desejava. E depois de uma série de frustrados romances com aparentes príncipes, ela aprendeu que mais importante do que parecer, era agir e fazer sentir. Então, ela estava determinada: deixou-se seduzir. Deixou acontecer.

Singulares


Awaiting Return - Kenton Nelson

Em que momento foi que nos deixamos para trás? Desde quando a indiferença tomou conta de nós? Não guardo mais certeza sobre o amor que um dia sentimos um pelo outro. E também não sinto mais aquele rancor que nos motivou chegar até aqui. Sinto que já não há nem uma coisa nem outra. Não há mais dívidas, tampouco dúvidas, que sustentem nosso estar juntos. O que fazer, então? Onde vamos parar? Ah, agora vejo bem... Não vamos mais a lugar algum. Vamos, não mais. Eu vou. Tu vais. E seguimos conjugando os verbos na primeira pessoa do singular, já que o plural não nos agrada, nem desagrada mais. O plural não se encaixa em nós. Nós? Já não há. Eu sigo. Tu segues. No singular.

Romance



Pierre Auguste Renoir, Woman Reading

Na espera pelo ônibus de todo dia, se apaixonou pela leitora sorridente. Mas vivia amargurado pois não conseguia tirar os olhos da moça das páginas que ela levava sempre consigo. Aquele sorriso e sua leveza diante da narrativa o encantavam de tal forma que decidiu um dia chamar sua atenção. Depois de muito hesitar, iniciou uma conversa com ela. Recebeu como resposta a fisionomia mais raivosa que já vira na vida. Assustado com tamanho ódio expressado, ele percebeu que a beleza da moça só poderia ser encontrada durante suas leituras. Infelizmente não havia espaço para ele na vida dela. E ela sem um livro não seria assim tão encantadora. Decidiu não mais intervir. Porém, dedicou seu tempo a se imaginar personagem dos livros dela. Aí então, a namorou. E viveu um amor digno de um romance.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.