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Enlaçados


The crack up - Charles Blackman

Alguns laços nunca desatam. Ela compreendeu isso depois de deixar o filho na porta da casa do pai. O homem olhou-a nos olhos e demorou-se. Ela também demorou ali naquele olhar. E naquela fração de segundos, toda a história deles passou como um clarão de um raio na memória. Mas depois da luz, veio o estrondo forte do término. Das brigas, desentendimentos, descompassos. Não conseguiram mais seguir seus planos juntos. Divorciaram-se. Porém alguns laços nunca desatam. E o filho era aquele nó. Não adiantava ela ou ele tentar puxar o filho só para si. O nó apertaria mais e nó apertado dói. Cada um deles teria que viver com o outro, mesmo separados, mas mantendo aquele laço firme, sem deixar desatar, tampouco arrebentar. Somente com o passar dos anos, depois que mãe e pai fizessem cada um seu papel, é que esse nó aos poucos irá afrouxar. Não se partir por completo, apenas desapertar. E, assim, deixar cada um seguir - enlaçados, porém livres.

Sem mãos dadas


Preludio para una nueva era - Denis Nuñez Rodriguez

Ela dispensou a mão que a mãe, carinhosamente, ofereceu. Atravessaram, sem mãos dadas, a rua. Aquele ato fez a mãe desabar dentro de si. Nos últimos dias, a menina, que nem doze anos tinha ainda, já se negava a dormir com a mãe, a pedir ajuda no banho, a convidá-la para passear e agora nem andar de mãos dadas queria mais. Não demoraria muito para que a filha largasse os brinquedos, escolhesse as próprias roupas e saísse sem dar motivos... Já que nem ajuda precisava para atravessar uma rua. Esse pensamento fez a visão da mãe, sem querer, embaçar, cheia de lágrimas. Ela não sabia prever qual seria a próxima oportunidade que teria para andar de mãos dadas com sua pequenina garota. Talvez na sua velhice, quando fosse ela quem não pudesse caminhar sozinha. E, além disso, quando a filha voltasse a se importar com aquele simples ato de dar as mãos.

O fenômeno do fermento


Saturday Afternoon in a Girl's Life - Jeffrey Beauchamp


No domingo, foi para cozinha com a filha de cinco anos fazer um bolo de chocolate para alegrar o dia. Pediu para a menininha que a ajudasse, procurando pelo pequeno pote de fermento. Muito esperta, a menina achou rápido e logo questionou para que servia fermento. Pacientemente, a mãe explicou que uma pequena colher de fermento fazia o bolo crescer. O fenômeno da fermentação foi assistido por ambas. E o domingo foi pura delícia.
Na segunda, depois de voltar do trabalho, a mãe procurou pela filha e a encontrou toda suja de pó branco. Mas o que era aquilo? A menina, pacientemente, explicou para a mãe que era o fermento que ela derramou em cima de si mesma com a expectativa de crescer rápido. Diante daquela inocente cena cômica da filha, a mãe sorriu triste. Uma tristeza por saber que, já tão novinha, a filha já desejava crescer. Abandonar a infância. Sem saber que o resultado do fenômeno do crescimento humano não é assim tão fácil. Nem tão delicioso.

Uma deusa


Lady with a muff - Gustav Klimt

Era uma deusa e não sabia. Acordava junto com o sol. Seus passos transformavam o dia. O toque suave de seus dedos acordava o sono de suas crianças. O café que preparava tinha o poder mágico de dar força para seu homem enfrentar os desafios da rotina. Controlava o tempo. Preparava-se para o trabalho ao tempo que embarcava as crianças no ônibus escolar. Selava a sorte diária do marido com o tocar de seus lábios. Partia para o corre-corre, bela, discreta, mas sempre encantadora. Tomava as decisões sem nunca deixar de ponderar o bem-estar de todos. Retocava o batom, enquanto retornava para o seu lar. As crianças eram postas para estudar. Alimentava a família. Com um suspiro, determinava o anoitecer. Com sua voz angelical, introduzia as crianças no mundo dos sonhos. Satisfazia o marido. E acalmava-se, por fim. Tantos destinos em suas mãos, tantos detalhes. Era uma deusa e ninguém sabia.

Súplicas em vão


Rosa artificial - Alejandro Boim

Canta baixinho, mãe, aqui perto de mim. Canta aquela canção de ninar, eu queria tanto dormir... Queria desligar os pensamentos por um momento. Oh mãe, eu sei, não fiz todas as minhas tarefas de casa, meus deveres, minhas responsabilidades, minhas dívidas. Está bem, mãe, não sou mais uma criança, mas me perdoa, eu só queria um instante feliz nos seus braços... Mãe? Não some, mãe! Fica comigo... Ou me leva com você. Só com você.
O lamento se ouvia de longe. A moça não aceitava a morte da mãe. Comentavam que ela não gostava da mãe enquanto viva; que tampouco se despediu dela. Arrependida, definhava em cima do túmulo, em posição fetal, conversando as conversas que nunca teve com sua mãe.

Missão espiritual


Lucy and Camila - Fabian Perez


O esposo de Maria tinha apenas poucos meses de vida. Era difícil encarar que em tão pouco tempo Maria iria perder o amor da sua vida. Sentindo um forte anseio por ter um filho do homem que partiria em breve, ela engravidou. Nove meses foram o tempo que restou de vida do homem e o tempo que daria ao mundo um menino. Um dia antes de a criança nascer, o pai morreu. E no dia em que a criança nasceu, Maria também morreu.
Falecida no parto, Maria recuperou sua consciência no paraíso. Passou a procurar pelo seu marido falecido, uma vez que tinha em mente que iriam se encontrar no céu. Porém, um anjo surgiu para Maria e explicou-lhe: “Você morreu, Maria, porque cumpristes tua missão. Dera continuidade à vida daquele homem com quem se casou, pois, mesmo ele morrendo, foi ressuscitado no corpo do filho que acabara de dar luz. O mundo precisa daquele homem e agora você merece o paraíso”. Maria desfrutou pouco do paraíso, por estar sempre com saudades do seu amor. Compreendeu que missão cumprida nem sempre traz a felicidade.

Herdeiros



The family - Gustav Klimt

Ela era tão feliz: possuía o homem da sua vida e acabara de dar vida a uma criança linda. O homem era tão feliz: acabara de possuir um filho, herdeiro e criatura a quem ele passaria todos os seus conhecimentos. A criança recém-nascida seria infeliz: acabaria entendendo que sua mãe só o colocou no mundo para segurar o marido, e teria que viver debaixo das garras de um pai rígido e inflexível, para quem tudo o que sabia era o correto, nada mais. Seriam esses três mais uma família que pensa ser feliz, carregada de heranças infelizes.

Teias de aranha



Little Acrobat - Kirsten Bailey

Encontrei hoje dentro da sua xícara de café uma teia de aranha. Perguntei-me  qual aranha ousou invadir seu santuário para construir um ninho. Não obtive respostas... Assim como também não ouço mais suas indagações infantis de como a vida se realiza. Saudades de suas indagações. Saudades suas me consomem. Mas não se preocupe, não deixei a saudade me abalar, tratei de lavar sua xícara e recolocá-la na mesa. Um dia, tenho certeza disso, você irá retornar dessa sua fuga e eu, como uma verdadeira mãe que sou, irei recebê-lo com um café quentinho em mãos. Falando em café, tenho que tirar o papeiro do fogo...
De longe, o marido ouvia o monólogo da esposa de frente ao retrato do filho. Este saíra de casa jurando nunca mais voltar. E nunca mais voltaria mesmo... Há quase um ano, descobriram o corpo do adolescente morto por envenenamento. Veneno de aranha.

Acidente


Woman grief - Cynthia Angeles

Ele fora um acidente. Qualquer erro que cometesse – uma queda, um bom dia esquecido, uma nota ruim, uma risada alta demais – era motivo para sua mãe relembrar que ele fora um acidente. Ele era um acidente contínuo na vida da sua mãe solteira. Foi perseguido com esse estigma até o dia em que, distraído, bateu o carro, estraçalhou-se nas ferragens, virou um morto-vivo. Sim, ficou em coma. Mas durou pouco tempo na cama da UTI, tempo este suficiente para ouvir o choro da sua mãe ao lado, lamentando aquele acidente de carro, pedindo a Deus que o acidente não tivesse ocorrido, que seu filho voltasse. Não entendeu como a mãe agora pedia que um acidente passasse para outro acidente voltar. Cansado e sem querer entender mais nada, acidentalmente, entregou-se ao fim.

Inférteis


In daddy's hands - Mats Eriksson


Casados a mais de vinte anos, nunca tiveram filhos. A princípio, porque queriam curtir o tempo, infinitamente devotados um ao outro. Logo após, porque não se julgavam preparados para educar uma criança. E agora, porque não conseguiam conceber a vida. Passaram a viver uma longa saga pela busca da gravidez. Foram envelhecendo ainda novos. Quem os visse saindo das clínicas de fertilização, perceberia um casal de jovens caducos.
Depois de anos tentando, nasceu uma bela criança. Mas a vitória não fora suficiente para apagar a caduquice que tomou conta do casal. A criança – que não queria nascer – ganhara como pais um casal de velhos desgastados. Um casal infertilizado.

Luz



Rosa - desconhecido

Sozinha em casa, ela começou a sentir as dores. O peito arqueou num acesso de falta de ar. Os olhos lacrimejaram e não mais queriam piscar. Pediu aos santos que a mantivessem viva até, pelo menos, por no mundo aquele ser. E foi somente depois de quase uma hora de ávido esforço, que sentenciou com um grito o nascimento de sua criança.
Nesse instante, seu marido subia as escadas da casa e adentrava no quarto, quando viu uma forte luz sair do ventre da sua esposa. Luz que durou poucos segundos, mas que deu a ele a certeza de que era um anjo que nascia. Sua esposa acabava de dar a luz.

Dores de parto



First music lesson 1 - Djordje Prudnikov

Foram dez segundos até perceber que seu único filho havia anunciado que iria sair de casa. A dor pareceu mais forte do que imaginava que seria quando pensava e se preparava para esse anúncio. Um dia os filhos saem da casa dos pais, natural – coisa que ela mesma já fez, obviamente. Mas a dor era o medo de pensar que sair de casa pudesse significar sair da vida dela completamente. E notou em um simples lapso de pensamento que a relação com o seu filho sempre fora dolorosa – dores alegres e outras tristes. Desde o nascimento, já gritava e chorava por vê-lo sair dela. Com os primeiros passos dele, ela chorou de alegria, mas sentiu a dor de não o ter que carregar nos braços. E cada vitória do filho era uma perda milimétrica na sua vida. Agora, o sorriso independente dele contrastava com o espírito abandonado de mãe dela. Porém, esta sabia muito bem que, apesar de tantas dores, não deixaria murchar a libertação contínua do seu filho. Viveria por ele, mesmo sem ele.

Auroras


Aurora na vila do conde - Augusto Amaral


Aurora nascia. A menina Aurora também. Sua mãe, a Rainha Aurora, sofria sem prender o grito. Suava nos lençóis de linho egípcio e gritava para todos do castelo ouvir. Estava sofrendo para pôr Aurora no mundo. A criança levaria seu nome, porque sua mãe morreria de tanto esforço e sangue perdido para o seu nascimento. Foram horas noturnas inteiras de esmero no parto, mas foi nos minutos breves da aurora do novo dia que a menina vinha à vida e levava sua mãe à morte. O Rei – velho, gordo e ausente ao sofrimento da sua esposa – não era o pai biológico da criança, pois sua apatia era tanta que não era capaz de fertilizar uma Aurora. Esta ao menos morria por uma criança fruto de um amor verdadeiro... Pelo jardineiro do castelo. Fertilizaram-se de amor.
O jardineiro observava a aurora nascendo e sentia dor pelo pressentimento da morte de sua Aurora, quando ouviu um choro que arrebentou o silêncio do novo dia. Aurora morrera.

A protetora


Mother and child on a couch - James Abbott McNeill Whistler


Correu para o quarto do menino o mais rápido que pôde. Trancou a porta e abraçou-o forte, pois sabia que ele corria perigo mais uma vez. A respiração acelerada não poupou sua pele de sentir as lágrimas quentes da criança. Sofria vendo-o daquele jeito. As pancadas na porta anunciavam que o pai do menino já chegara ali, depois de subir, trôpego, a escada da casa. A criança era vítima das irresponsabilidades do pai alcoólatra. Ela, tia e irmã do homem que berrava imundices do lado de fora do quarto, se sentia na obrigação de proteger aquele nobre pequeno ser. Sem mãe, o menino tímido apoiava-se nos carinhos da tia para ter esperanças de uma vida melhor, visto que seu pai desencantava qualquer sonho infantil seu.
Os minutos transcorreram frágeis; a mulher percebeu que conseguira, mais uma noite, afastar o menino da violência do pai. O homem, seu irmão, desistira. O menino, seu sobrinho, adormecera. Amanhã seria um novo dia... Ela rezava, agora, para que esse fosse melhor.

Amado réu


Lumia Czchwska - Amedeo Modigliani

A senhora vestida de preto levantou da cadeira e se deixou a mostra diante de todos. Não gostava daquele tipo de situação, mas era preciso. Iria defender sua vida. Iria, em frente ao tribunal, expor seus sentimentos, argumentos e anseios para viver conforme toda mãe queria viver. Seu filho estava sendo tirado dela. Não sabia ela que, realmente, o filho era culpado. Mas o que importava aquilo? Era o seu filho, amor pela qual viveu amando. Não sobreviveria sem ter notícias dele. Não era aquilo que imaginou para o seu amor.
“Quero dizer, antes de tudo, que sou mãe. O meu filho é razão e essência de toda uma existência, sabendo ele ou não, errado ou não... Ele é meu filho.”. Colocou as cartas na mesa. Disse tudo e até um pouco mais. Faria tudo, mas não queria ver seu filho longe, sozinho e sem seu amor.
Mas, apesar de todo o seu esmero, seu filho foi condenado. Assistiu, estática, sentada, sem poder fazer nada, seu filho sendo levado dela. Não o veria tão cedo. Doeu no fundo do peito ver aquilo. Mas o olhar do seu filho não era triste. Era alegre, pois sabia que a mãe ainda o amava. Fora condenado e amado. Viveria preso, mas sabendo que alguém o amava de verdade.

Vida contada


La mer à Pourville - Claude Monet

Estreitava os olhos para impedir o vento arenoso da praia de invadir sua visão. Observava seu filho levar até as ondas a estrela-do-mar que ambos acabaram de encontrar na margem. Observava ali, um fruto de seu ventre, pequeno, mas com todas as características que sonhara. Via-o, longe, mas dava para sentir o cheiro de sua pele. Nada explicável, coisa da alma. A sensibilidade materna a levara até ali, firme. Viveria cada momento como o último até... Ele ir-se. Não fora concebido perfeitamente, como toda boa mãe sonha: seu filho, agora sorrindo e acenando de longe, do mar, iria morrer antes de alcançar metade de uma simples década. A ciência de seu século não sabia como salvá-lo. Não havia nada a ser feito, além de aceitar...
Sentiu uma mãozinha pequena tocar seu braço. Despertou para o presente. Largou o futuro, os problemas do futuro. Tirou o foco de sua visão do horizonte azul e olhou o rostinho de seu filho, agora próximo. Tinha muitas coisas para mostrar ao seu pequeno fruto. Principalmente o tamanho do amor que ela, sua mãe, sentia por ele. E isso bastava... Por toda uma vida.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.