Mostrando postagens com marcador sociedade. Mostrar todas as postagens

Solidão acompanhada


Supper Time - Horace Pippin

- Como foi seu dia, filha? - Foi bom. Normal. E o seu, pai? - Trabalhando muito. Ambos olharam para a mãe, dona de casa. Não perguntaram a ela como foi seu dia, pois já sabiam que nada demais teria ocorrido por ali, já que nada demais ocorria na vida deles - que saíam de casa, entravam em contato com todo tipo de gente e situações diversas - como que seria diferente ali dentro daquela casa? E não era diferente, de fato. Ao final do jantar - que era uma repetição do almoço - pai e filha se dirigiam aos seus quartos. Davam boa noite. Fingiam educação. Fingiam se importar com que a noite do outro fosse boa. E a mãe - que ficava para trás, para limpar a sujeira e organizar a bagunça - observava todo aquele fingimento automático da rotina. Observava que, ao fecharem suas portas, eles mergulhavam nas suas solidões. E seguiam assim: sozinhos, porém acompanhados. Em quartos vizinhos. Em uma vida compartilhada. Que quase sempre não levava a nada.

Máscaras de Carnaval




Carnaval nos 4 cantos de Olinda - Olivia Castro Cranwell

Batucada retumbando. Chão tremendo quase na mesma frequência que os quadris das meninas. O ritmo carnavalesco num compasso rápido, tão rápido quanto os relacionamentos que ali se formavam e se desformavam. Um garrafa de cerveja se desfaz no chão, lançando seus cacos entre os confetes. Vidros que servirão de armadilhas pra aqueles seres dançantes desatentos. Mas ninguém estava preocupado com a possibilidade de se ferir. Ou em ferir os outros. Estavam todos feridos por dentro já. Vinham todos de um ano de trabalho árduo. De impostos roubados dos seus bolsos. De amores que não sobreviviam até o próximo carnaval. De insegurança pública que mata. E outras tantas feridas particulares. Eram soldados sobreviventes, diante de uma semana de folga das batalhas. Diante das ilusões, máscaras e fantasias do carnaval.

Anjo suburbano



Kierra (detalhe) - Michael Shapcott

A menina, com roupas simples e com um pássaro preso entre os dedos, ficava encostada ali nas esquinas da cidade movimentada, tentando chamar atenção. E chamava. Os olhos claros e sérios, o pássaro estranho e a voz angelical irrompiam o cenário urbano. Ao seu redor pessoas aleatórias se amontoavam para admirar o talento daquela criança. Sem instrumento algum, a menina passava os dias a cantar, a impressionar com sua voz de anjo. Sua imagem circulava o mundo virtual. Sua voz se propagava de celular em celular que a gravava. Mas ninguém perguntava seu nome. Ninguém se importava com sua história. Os que, por uma centelha de segundo, se importavam, atiravam algumas moedas na bolsinha que aos seus pés permanecia. E no final do dia, quando o movimento urbano reduzia, as moedas eram reunidas pelo homem que se dizia seu pai – cujo trabalho era permanecer distante a observar a filha – e esta, com a voz de anjo engolida, seguia os passos dele. De volta ao subúrbio. Onde sua voz pouco importava. Onde tinha nome próprio. Onde sua história se fazia.

Entre tiros


Guns - Andy Warhol

Som de tiro. Não só um. Muitos tiros. Para seus ouvidos, não era barulho. Era som, como dos passarinhos na primavera. Mas diferentes dos passarinhos – que só apareciam na primavera – os tiros não tinham estação. Eram sempre presentes. E nunca tivera medo disso. Não até ouvir aqueles tiros. Não eram tiros das armas do pai. Sabia disso. E soube da pior forma. Sangue. No chão da sua casa, havia muito sangue. Descobriu o corpo do pai morto na sala. De súbito, acordou. Aquela lembrança novamente durante o sono. O homem levantou, lavou o rosto para afastar aquela memória. Lembrou as palavras do homem que matou seu pai: “menino, não se preocupe, agora vamos te levar para um país melhor e terá uma educação melhor. Não precisará viver entre tiros”. Diante do espelho, ele encarou seu próprio riso. Muito enganado. Apesar do seu passado renegado, com seus pais talibãs mortos, após ser supostamente acolhido por outra nação, educado e formado, agora era policial. E escolhera aquela profissão só para continuar vivendo entre tiros. Porque ele foi criado assim. Porque aqueles foram os valores ensinados por seus pais. E sairia para mais um dia de trabalho. Para atirar. Porque aquele era o som da sua vida.

Tempos saudáveis


Cakes - Wayne Thiebaud

Na capa da revista a manchete principal anunciava uma vida saudável através de um novo modo de nutrição, sem açúcares. A senhora baixou a revista e olhou a bandeja de doces artesanais postos à venda. Uma receita passada de geração em geração. A fama que seu sobrenome carregou desde a muitas décadas. Mas agora jaziam todos os doces sem nenhum cliente para apreciá-los. Jazia a fama de doceiras com seu sobrenome. Tudo por conta de uma tal vida saudável... Como se ela, todos da sua família e de épocas passadas não tivessem tido uma vida saudável. E ali ficava, todos os dias, na espera de uma venda sequer. Entristecida, por ela viver naqueles novos tempos. Tempos "saudáveis". Tempos amargos.

Realidade julgada


Girls will be girls - Anita Kunz

Sentada no banco da praça, a moça notou: de um lado havia uma mulçumana e de outro, uma freira. Ambas com somente o rosto à mostra, devido às vestimentas características de cada uma. Seu juízo crítico, não se contendo, pensou no quão triste era estar na posição da mulçumana - imposta a se vestir daquele modo - e louvou a freira, que com certeza escolheu seguir aquele caminho de devoção. Fora dos pensamentos da moça, a realidade sussurrava a felicidade da mulçumana, que um dia, em busca de uma fé a seguir, conheceu a religião e cultura islâmica e decidiu seguir aqueles costumes que julgou honrados. Já a freira guardava dentro de si todos os seus desejos reprimidos de fugir do convento, onde foi deixada pelos pais, em cumprimento a uma promessa qualquer - promessa essa que sempre julgou errada. Juízos à parte, a realidade continuava sussurrando.

Esmola desumana



Contadina - Ciro Morrone

Sentiu aquela sensação tensa que paira no ar quando aparece uma velha senhora pedinte, contando alguma história muito triste, suplicando por alguma ajudinha – qualquer que seja. Percebeu aquele orgulho calado das pessoas, que negam dar qualquer que seja a ajudinha, acreditando que estão sendo cidadãos ao deixar de perder alguns centavos para alguma esmola. Constatou a falsa filosofia social da esmola como fator de incentivo à pobreza. Uma tese toda para reforçar a destruição da solidariedade humana. A declaração de extinção do altruísmo. O amansar dos egos cívicos. Notou o desamparo da velha pobre senhora. E, mesmo assim, nada fez. Seguiu com sua cidadania forjada.

Nas ruas


Suspended - Christopher St. Leger

Ninguém nunca parou qualquer caminhada para lhe perguntar a razão para ele ter ido parar ali, nas ruas. Se perguntassem iriam se espantar. Na verdade é inacreditável pensar em alguém que abandonou tudo o que possuía para viver de nada. Viver no nada. Mas foi isso que ele fez e assim que vivia. Como mendigo, ele não tinha casa para cuidar, pessoas com quem se importar, contas para pagar. Apenas precisava sobreviver dia após dia. E tinha a possibilidade de mudar a rota quando bem desejasse. E tinha todos os variados comportamentos alheios e situações diversas para observar e quebrar sua rotina. Observava aquelas pessoas indo e vindo e nenhum sentimento de inveja lhe surgia. Aquela era a vida que sempre havia desejado. Nas ruas, viveria e morreria.

Teatro solitário




Conversation - Zack Zdrale

Era ator de teatro. Não só dentro, mas também fora do palco. Costumava usar a técnica teatral de se despersonalizar no dia-a-dia, sempre que surgiam situações complicadas ou sentimentos indesejados. A cada notícia ruim, para não ficar magoado ou enraivecido, fingia não ser ele mesmo. Atuava um personagem qualquer. E assim, nenhum problema o atingia, estando logo no outro dia plenamente recuperado. Mas o que ele não notava era a desconfiança que as pessoas tinham dele toda vez que ele assim se comportava. E era chamado de falso, artificial, insensível. Foi ficando cada vez mais sozinho. Aquilo que para ele era estratégia de sobrevivência, um meio de se proteger dos sofrimentos humanos, se tornou uma armadilha social pra si. Era livre dos problemas. Mas isolado das verdadeiras convivências.

Passarinhado

Flight of the mind - Christian Schloe

Era considerado o pior filho para sua mãe. Teve os piores rendimentos na escola. Não conseguiu nenhum emprego desses taxados como “de sucesso” pela sociedade. Nenhuma mulher, que se envolvia com ele, passou perto de pensar em tê-lo como marido. E nada de muito interessante lhe ocorria na vida. Isso tudo porque todos o achavam surdo. Mas o que ninguém sabia – e nem tentavam compreender – era que aquele homem nascera com uma cantoria constante de pássaros nos ouvidos. Desde o nascimento, chorou porque ouviu os passarinhados. Cresceu com os passarinhados. Vivia com os passarinhados. E quando ele tentava entender porque ele era tão destratado por todos, ele só conseguia pensar que os passarinhos que cantavam nos ouvidos das outras pessoas deviam ser péssimos cantores para lhes provocar tamanha falta de carinho pelo próximo. Só os seus passarinhos, por ele, tinham carinho.

Inauguração pública


A Piscina - Milton Dacosta

Inauguraram a piscina pública na cidade. A semana inteira foi um alvoroço de preparativos para esse dia. O comércio, que nunca havia vendido uma só peça de biquíni, teve que inventar até moda para atender a demanda. As praças, os únicos pontos de encontro da cidade, esvaziaram de tal modo, que nem os pombos por ali passaram. O povo, afoito, correu para a piscina. Mas a piscina não suportou tamanha atenção. A água quase toda transbordou. Teve menino que quase se afogou. Teve velhinho que das pernas das moças se aproveitou. Teve velhinha que se escandalizou. Teve fofoca que nunca mais se acabou. E o povo, antes afoito, logo abusou a pobre da piscina pública que dos seus bolsos tanto custou.

Flautista desencantado


Flautista - Candido Portinari

Quando era menino, sua vó só lhe botava para dormir contando a história do flautista encantado, que afastou a peste de ratos de sua comunidade, ao som de sua flauta mágica. Essa lembrança muito rondava seus pensamentos, nas noites em que não conseguia mais dormir, pois uns vizinhos "ratos" insistiam em fazer algazarra todas as madrugadas. Com isso em mente, aprendeu a tocar flauta e, certa noite, sentado na laje, começou a tocar. Aos poucos percebera o silêncio que causara. Lá em baixo, toda a vizinhança contemplava aquele belo som.  Mas o efeito da flauta logo acabou. Os "ratos" preferiam tagarelar ao som de músicas nada clássicas. O homem lamentou aquela sua realidade. E, cansado, conseguiu adormecer, sonhando com o mundo mágico que sua avó contava.

Direitos sociais


Paesaggio Urbano - Mario Sironi

Passava por um ponto de ônibus, quando ouviu uma garota, com um grosso livro no colo, falar em voz alta a um amigo algo como “são direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia...”. Nem conseguiu ouvir o resto da frase, pois logo encheu os olhos d’água. Emocionou-se. Não sabia o que significava exatamente direito social, mas sabia que, como parte da sociedade, ela talvez merecesse todas aquelas coisas bonitas que a garota falava. Sentiu vontade de perguntar à menina onde ela podia ir reclamar aquelas coisas. Mas sentiu vergonha. Acabava de ser maltratada na fila do hospital público. Voltava para o seu casebre, onde seu filho a esperava com fome e sem nenhuma educação. E não sabia de onde tirar dinheiro para comprar comida para o filho, pois há tempos não sabia o que era um bom trabalho. Emocionada, continuou caminhando. Tentou esquecer aquelas palavras tão bonitas.

Amargo acordar


Sleeping Women - Tamara de Lempicka

Acordou pela primeira vez ao lado da esposa. Olhou as pálpebras dela ainda fechadas. Os lábios entreabertos, por onde passava uma respiração leve. Ao invés de se sentir encantada com aquele momento, se sentiu estranhamente amarga. Aquele seria mais um dia em que teria que encarar os olhares alheios surpresos e indignados. Pois aquela mulher ao seu lado era a razão dos seus dias terem se tornado cheios de críticas, sussurros mal intencionados, comentários falsos e sorrisos amarelados. Acabou se apaixonando por uma mulher de uma maneira que nenhum outro homem a fez se apaixonar. E com essa paixão veio todo o preconceito feroz da sociedade. Casada e amada, ela ainda não tinha certeza se seria capaz de enfrentar uma vida daquele jeito. Amargurada com aquele pensamento, fechou os olhos. Preferiu voltar a dormir.

Infeliz paixão


Hombre - Alberto Pancorbo

Tão apaixonado que ele era por aquela mulher! Tão encantado pelas ações dela, pelo comportamento dela, pela beleza dela... Enlouquecido de paixão, mas sem chances de se expressar plenamente. Seu mal era viver em uma sociedade onde homens não podem se apaixonar perdidamente pelas mulheres. Os homens não devem se expor tão submissos à paixão por uma mulher. Pois os homens são seres superiores e o amor é armadilha para os fracos. Declarar-se louco de amor por uma mulher era declarar sua própria fraqueza. Eis o martírio daquele homem tão apaixonado. Eis a infelicidade das mulheres daquela sociedade.

Traumas


Male Nude Model - Henri Matisse

Ele passou a ter sérios problemas para ficar sozinho na sua própria casa depois daquele dia. Aquele traumático dia. Não, ele não podia revisar aquele dia mentalmente, pois seria capaz de invocar o caos universal dentro de si mesmo. A questão é que – para uma pessoa que adorava ficar sozinha – aquele seu complexo de repulsa à solidão estava o tirando do estado espiritual normal. Queria superar seu trauma. Voltar a sentir prazer na solidão... E conseguiu isso à medida que ia tentando fugir desta, buscando companhia de outros e descobrindo, com isso, a amargura das amizades superficiais, a falsidade dos parentes cansativos, a obsessão dos muitos templos religiosos, o vazio das ruas e festas urbanas. Esses dias, em que não esteve sozinho, o encheram de traumas. Eram verdades nuas e cruas. E, então, recordou do aconchego de sua própria casa. Dos dias em que fora feliz consigo mesmo, na companhia de um livro, um café, uma cama ou um filme. Redobrou suas forças e encarou as paredes vazias da sua residência. Voltou a frequentar a sua própria solidão. Fugindo dos traumas da sociedade, curou seu próprio trauma.

Formado


Alter ego - Rene Magritte

A festa acabara. Subiu as escadas e foi para seu quarto. Foi parado no meio do corredor pela imagem refletida pelo espelho que havia logo ali, no final. Não era ele. Angustiado, percebera o que se tornara: ele não era o que queria, mas o que outros quiseram. Não era ele. O reflexo era a realização de desejos alheios, de pai, de mãe, da família, da sociedade. Diante dessa realidade, ele sentiu uma lágrima descer pelo rosto. Na imagem do espelho, não viu lágrima alguma. Homem não chorava, afinal... E algumas coisas apenas se sentem. O fato era que a sua festa de formatura acabara. Formou-se – formado naquilo que nunca quis.

Feriadão


Mind Changer - Leah Saulnier


Era feriado e lá estava ele, ao vivo, apresentando o principal Jornal da cidade. Indignava-se por estar ali. Não que não gostasse do seu trabalho. Na verdade, sempre sonhara ser jornalista. A indignação era devido às notícias que anunciaria: pessoa morre na fila de hospital público, porque o médico plantonista aderiu ao feriado nacional; governador é fotografado em praia paradisíaca, descansando no "feriadão"; escolas "enforcam" a semana inteira para aproveitar o feriado; comércio paralisa o dia inteiro; indústria diminui a carga horária de trabalho em decorrência da data especial... Já o jornalista não podia tirar folga, porque a televisão (essa sim!) era levada a sério e sem TV a população não podia ficar no feriadão.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.