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Reflexões (i)lógicas


Mary Jane Ansell

Não podia dizer que era uma pessoa sozinha. Tinha muitos amigos. Vivia dias movimentados. Sua cabeça estava quase sempre a mil por hora. Seus dedos, sempre teclando para a conectar ao mundo. E, de vez em quando, dormia acompanhada para satisfazer seus apetites. Mas, apesar disso tudo, não conseguia fugir daqueles momentos. Quando as notificações do celular silenciam. Quando a mente reduz a velocidade. Quando ninguém aquece sua cama. Quando nenhum amigo a recorda. E, assim, sozinha, no final de um longo dia, apenas o som do nada a rodeia. E um sentimento de grande vazio preenche seu peito. Por alguns instantes, desacelera e para de correr atrás do mundo. Nota o ser que há ali dentro de si. E sente aquela estranha sensação de que algo está errado na forma como todos estão vivendo. Pensa no porquê de todos estarmos correndo de nós mesmos. Tentando nos manter conectados a todos e ao mesmo tempo a ninguém. Fugindo para aquele fim de estarmos juntos, mas no fundo isolados. Porém, logo ela fecha os olhos. Adormece. E amanhece de novo. Para um mundo em que a solidão não tem lógica.

Solidão acompanhada


Supper Time - Horace Pippin

- Como foi seu dia, filha? - Foi bom. Normal. E o seu, pai? - Trabalhando muito. Ambos olharam para a mãe, dona de casa. Não perguntaram a ela como foi seu dia, pois já sabiam que nada demais teria ocorrido por ali, já que nada demais ocorria na vida deles - que saíam de casa, entravam em contato com todo tipo de gente e situações diversas - como que seria diferente ali dentro daquela casa? E não era diferente, de fato. Ao final do jantar - que era uma repetição do almoço - pai e filha se dirigiam aos seus quartos. Davam boa noite. Fingiam educação. Fingiam se importar com que a noite do outro fosse boa. E a mãe - que ficava para trás, para limpar a sujeira e organizar a bagunça - observava todo aquele fingimento automático da rotina. Observava que, ao fecharem suas portas, eles mergulhavam nas suas solidões. E seguiam assim: sozinhos, porém acompanhados. Em quartos vizinhos. Em uma vida compartilhada. Que quase sempre não levava a nada.

Cidade prostituta


Alta - Mário Fresco

Aquela cidade era como uma prostituta velha. Cujas rugas são o que há de mais atraente nela. Cujos lábios eram pintados da cor da moda, para se manter atualizada.  E seus clientes mais comuns eram jovens a procura da experiência exata. Uma velha prostituta, eternizada pelos gozos mais sinceros. Que trabalha manhã, tarde e noite. Pois combustível para o prazer nunca lhe faltou. Aquela cidade, mais conhecida pela sua universidade, recebia de braços (e pernas!) abertos uma leva de universitários. Todos com sede de conhecimento e de prazer. Recebia e se despedia deles, quase todos os dias! E era prostituída, abusada, acariciada, elogiada, xingada, engrandecida... Desde memoráveis séculos passados. Sempre grata por cada um que por sua cama passasse.

Relacionamento interessante


The bed, the chair, the dancing watching - Eric Fischl

É desolador ver dia após dia minha velha companheira se esforçar tanto para manter nosso relacionamento interessante. Tem dia que amanheço com ela entre minhas pernas, debaixo dos lençóis. Tem tarde que ela me serve uma taça de vinho com a esperança de esquentar o sangue para a noite adentro. Tem noite que ela se fantasia toda, finge ser o que não é, ser o que todo homem adoraria ter – de acordo com as revistas femininas de autoajuda. Mas eu nunca pertenci a esse “padrão” masculino. O tempo não mudou meus apetites... E é diante desse fato que mais me entristeço: por que razão minha esposa passou a me desconhecer? O que a faz pensar que mudei para eu a querer mudada? Será a velhice e sua perda de memória? Será a rotina e sua ânsia de mudar e enfraquecer os relacionamentos? Não sei. Só sigo a observando, até ver aonde tudo isso vai nos levar.

Uma deusa


Lady with a muff - Gustav Klimt

Era uma deusa e não sabia. Acordava junto com o sol. Seus passos transformavam o dia. O toque suave de seus dedos acordava o sono de suas crianças. O café que preparava tinha o poder mágico de dar força para seu homem enfrentar os desafios da rotina. Controlava o tempo. Preparava-se para o trabalho ao tempo que embarcava as crianças no ônibus escolar. Selava a sorte diária do marido com o tocar de seus lábios. Partia para o corre-corre, bela, discreta, mas sempre encantadora. Tomava as decisões sem nunca deixar de ponderar o bem-estar de todos. Retocava o batom, enquanto retornava para o seu lar. As crianças eram postas para estudar. Alimentava a família. Com um suspiro, determinava o anoitecer. Com sua voz angelical, introduzia as crianças no mundo dos sonhos. Satisfazia o marido. E acalmava-se, por fim. Tantos destinos em suas mãos, tantos detalhes. Era uma deusa e ninguém sabia.

O imprevisto


Drag - Zack Zdrale

Nunca soube como lidar com a imprevisibilidade da vida. Quanto mais admitia isso para si mesmo, mais surgiam situações fortuitas no seu dia-a-dia. Frustrava-se cotidianamente. Vivia em um inconformismo quase absoluto. Sentia que não tinha capacidade de planejamento. O que ganhava era sempre uma profunda descrença em si mesmo ou uma raiva impertinente das pessoas ao seu redor. Como podia ser a vida assim tão inesperada? E então, em um desses acontecimentos imprevistos da vida, toda a raiva, o inconformismo e a frustação se acabaram. Uma causa completamente imprevista o atingiu. Morreu de forma tão fugaz que nem teve tempo de refletir sobre a impermanência daquela sua vida. Cessou-se, para ele, o imprevisto.

A espera


Girl in white dress - Hollis Dunlap

A espera pelo marido começava ao entardecer, depois que todos os afazeres de casa já haviam acabado. Ela sempre lembrava o início do casamento: a pontualidade do marido em casa, disposto a jantar ao seu lado. Em seguida, sentia na alma as lembranças mais recentes de um marido que se atrasava, sem justificativas e sem paciência para nenhuma conversa.  Aquelas esperas já faziam parte de sua rotina. Até o velho sofá já tinha o formato do seu corpo. Suas noites passavam num sofrimento calado. Assim como os bons sentimentos que daquele casamento se afastavam.

Contemplação


Starry Night - Vincent van Gogh

É sempre um sacrifício acordar cinco horas da manhã. A cama está quentinha, os três travesseiros me confortam e o lençol me envolve como se fosse a própria placenta materna de outrora. Mas levanto, tentando ignorar o peso da sonolência nas pálpebras, e me visto rapidamente. Saio na gélida madrugada da rua. Corro. Depois que o sangue quente desperta o corpo inteiro, paro e observo o meu redor. Então, sempre – digo, sempre! – suspiro de satisfação: contemplar a natureza despertando e chamando a cidade para acompanhá-la é recompensador. Uma cidade inteira a se levantar. Os raios de sol a se anunciar. Os mínimos barulhos de vidas que, na algazarra do cotidiano urbano, não se fazem notar... Há vidas! Confirmo que o sacrifício de alguns minutos atrás é pequeno demais perto da contemplação da vida. Ah... E volto logo a correr. Viver.

Traumas


Male Nude Model - Henri Matisse

Ele passou a ter sérios problemas para ficar sozinho na sua própria casa depois daquele dia. Aquele traumático dia. Não, ele não podia revisar aquele dia mentalmente, pois seria capaz de invocar o caos universal dentro de si mesmo. A questão é que – para uma pessoa que adorava ficar sozinha – aquele seu complexo de repulsa à solidão estava o tirando do estado espiritual normal. Queria superar seu trauma. Voltar a sentir prazer na solidão... E conseguiu isso à medida que ia tentando fugir desta, buscando companhia de outros e descobrindo, com isso, a amargura das amizades superficiais, a falsidade dos parentes cansativos, a obsessão dos muitos templos religiosos, o vazio das ruas e festas urbanas. Esses dias, em que não esteve sozinho, o encheram de traumas. Eram verdades nuas e cruas. E, então, recordou do aconchego de sua própria casa. Dos dias em que fora feliz consigo mesmo, na companhia de um livro, um café, uma cama ou um filme. Redobrou suas forças e encarou as paredes vazias da sua residência. Voltou a frequentar a sua própria solidão. Fugindo dos traumas da sociedade, curou seu próprio trauma.

A alma da rotina



Laurette's head with a cup of coffee - Henri Matisse

Acordar para trabalhar – trabalhar para comer – comer para dormir. Dormir para sonhar com aquela infância que viveu tão leve como um pássaro no azul do céu. Acordar para trabalhar – trabalhar para comer – comer para dormir. Dormir para sonhar com aquela criança que queria passar a madrugada acordada para observar as estrelas. Acordar para trabalhar – trabalhar para comer – comer para dormir. Dormir para sonhar com a liberdade das tardes ensolaradas acompanhadas de seus livros de ficção-fantástica. Acordar para trabalhar – trabalhar para comer – comer para dormir. Dormir para esquecer que à medida que envelhecia, seus sonhos diminuíam, seu tempo endurecia, sua liberdade se esvaia, seu viver esmorecia. Acordar para trabalhar – trabalhar para... Morrer, um dia. E por fim àquela rotina.

Feriadão


Mind Changer - Leah Saulnier


Era feriado e lá estava ele, ao vivo, apresentando o principal Jornal da cidade. Indignava-se por estar ali. Não que não gostasse do seu trabalho. Na verdade, sempre sonhara ser jornalista. A indignação era devido às notícias que anunciaria: pessoa morre na fila de hospital público, porque o médico plantonista aderiu ao feriado nacional; governador é fotografado em praia paradisíaca, descansando no "feriadão"; escolas "enforcam" a semana inteira para aproveitar o feriado; comércio paralisa o dia inteiro; indústria diminui a carga horária de trabalho em decorrência da data especial... Já o jornalista não podia tirar folga, porque a televisão (essa sim!) era levada a sério e sem TV a população não podia ficar no feriadão.

Cidadãos cegos


The Empire of Light - Rene Magritte

Em uma ocasião – como outra qualquer – os vizinhos sentados na calçada ousaram lançar seus olhares ao horizonte acima dos tetos da vizinhança. A escuridão daquele novo mundo saltou aos olhos. Não que o dinheiro público não tivesse sido usado na distribuição de iluminação. Na verdade, os cidadãos eram ofuscados justamente pelas tantas luminárias. O tanto que se podia enxergar da cidade, com o auxílio das lâmpadas, era o tanto que se tornavam cegos diante da natureza. Estrela alguma parecia importar aos casais românticos; nuvem nenhuma era mais sondada sobre suas formas e desenhos. O novo mundo apagava aos poucos um mundo que não precisava de tanto para ser contemplado – pois este, sem gasto de energia, poderia felicitar quem se dispusesse a ver os simples espetáculos da natureza. Aquele mundo escuro, no entanto, nada felicitava... Somente cegava.

Uma Eva fora do paraíso



Woman with Black Cravat - Amadeo Modigliani

Ela estava “naqueles dias” em que tudo desmorona por entre as pernas e, ainda por cima, põem a culpa na tal da Eva – culpada por ter possuído o dom traiçoeiro da curiosidade. Sentia-se mais uma Eva, contudo fora do paraíso; as maçãs da sua época de fato não são mais tão apetitosas como as de antes. Enquanto a Eva original teve somente seu amado e a natureza ao seu redor para aturar, lá estava ela, sensível, com tantos seres humanos para atender naquela repartição pública na qual era empregada. Ah, bichos carrascos! O pior de tudo aquilo era não ter o direito de pedir compaixão e calma, por ela estar “naqueles dias”. Para os homens – criaturas que ainda nutriam a ilusão de estar no poder – aqueles dias não significavam nada. Por isso, ela sobrevivia à flor da pele no meio daqueles bichos carrascos.

Rotinas quebradas



Room in New York - Edward Hopper

Tanto tempo juntos esgotou o enlace do romance entre eles, aquele gostinho bom da surpresa ao longo do processo de conhecimento mútuo. Agora, conhecendo-se tão bem, já não havia mais nada que os excitassem como antes. Então, um filho parecia bastante conveniente para quebrar o cotidiano. E, como num passe de mágica, tiveram um filho. As experiências de pai e mãe nutriram mais os desafios de casados... Porém, o que eles não haviam pensado antes era o fato de um filho ser para sempre, não como um objeto para sair da rotina, mas como um ser que os forçaria a criar uma rotina fixa.
Com o tempo, perceberam que não nasceram para serem pais. Infelizes, a única solução foi o divórcio. Com cotidianos diferentes, deram ao mundo mais uma criança com pais separados.

Família do taxista


Side effects for goers - Christopher St. Leger


Seus dias e suas noites eram fadados à direção do táxi. Ganhava o salário pouco que era totalmente destinado a sua família. O tempo ao lado dos filhos era no domingo de tardezinha. Os prazeres da esposa ele tinha de forma muito rápida, sem inovações. A benção do seu velho pai ele apenas conseguia nos poucos almoços que conseguia fazer na sua casa. E, com toda essa distância e brevidade, acabava por se achar sem família. Ele sabia mais dos passageiros do táxi do que dos seus familiares. E quem disse que isso o angustiava? Gostava do trabalho de condutor, conselheiro, ouvinte e informante do clima e pontos turísticos para os viajantes.
Encontrava nos passageiros o perfil de pessoas que queria na sua família: aquele que não espera seu dinheiro, mas sua palavra; que não pede explicações da sua rotina, mas que conta a própria rotina, sem rodeios. Os passageiros eram a sua família... E imagine que família grande ele tinha! Riu e acelerou para passar no sinal que acabara de ficar verde.

Aromatizados


Urban alley II


Meio dia. De tanto as casinhas serem pregadas umas nas outras, aquele horário do dia era um maná dos aromas. Quem parasse para analisar os cheiros e fedores ficaria impressionado. Aquela era a hora das crianças voltarem das creches e colégios – hora de banhá-las para o fedor do suor infantil ir se dissipando com o cheiro do sabão de coco. Era hora da refeição mais importante do dia – o almoço de um vizinho era sempre peixe, de outro era sempre carne assada e daquela senhora da esquina, sempre feijoada apimentada. E ainda, era hora do trânsito congestionar ali próximo e o vento soprava sempre para o corredor das casinhas pregadas aquele cheiro de gasolina, fedor de carbono queimado. Os moradores ociosos acumulavam o cheiro da preguiça; os moradores trabalhadores eram impregnados pelo cheiro do cansaço. Os aromas eram a marca registrada do cotidiano daquele corredor de casinhas.

Utópico


Leonid Alfremov


Saiu do metrô, sobreviveu à multidão, subiu as escadas da estação e chegou à luz natural do dia nublado. A caminhada era longa, ele bem sabia. Repetia o trajeto cotidianamente, não se lembrava desde quando, mas já era tão comum aquela hora do dia que seus pés mandavam mais em seu corpo do que sua mente. Caminhava sem ficar atento ao mundo. Respirava sem sentir emoção em viver. Havia na sua vida a sensação de passividade que todo indivíduo perfeitamente incluído no vai-e-vem da cidade tinha. No fundo, se importava com esse fato. Queria se libertar, poder viver algo intenso o suficiente que fizesse sua mente comandar seu corpo, sua consciência permanecer alerta e seu respirar tornar-se empolgante. “Mas... Ah, esqueça essa utopia!”, gritava consigo mesmo. Então, voltou-se para si, retornou o foco para os seus pés e sentiu o chuvisco do dia. Mecanicamente, abriu o guarda-chuva.
E era ocupando sua mente com sua “utopia” que deixava a vida passar sem ser vivida. Seus pés continuaram, afinal de contas, o caminho era longo.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.