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Teatro solitário




Conversation - Zack Zdrale

Era ator de teatro. Não só dentro, mas também fora do palco. Costumava usar a técnica teatral de se despersonalizar no dia-a-dia, sempre que surgiam situações complicadas ou sentimentos indesejados. A cada notícia ruim, para não ficar magoado ou enraivecido, fingia não ser ele mesmo. Atuava um personagem qualquer. E assim, nenhum problema o atingia, estando logo no outro dia plenamente recuperado. Mas o que ele não notava era a desconfiança que as pessoas tinham dele toda vez que ele assim se comportava. E era chamado de falso, artificial, insensível. Foi ficando cada vez mais sozinho. Aquilo que para ele era estratégia de sobrevivência, um meio de se proteger dos sofrimentos humanos, se tornou uma armadilha social pra si. Era livre dos problemas. Mas isolado das verdadeiras convivências.

Despedida teatral


Reflect - Mary Jane Ansell


“Esse camarim não me fará falta. Os gritos, suspiros, olhares, sorrisos, por mais bem feitos, porém mentirosos, também não despertarão saudades. Deixo as máscaras para trás, com o orgulho de quem já conseguiu superar a mania de atuar – tanto em palco, como em vida. Cansada, largo os monólogos e vou viver. Viverei a realidade de um mundo que não pede que você decore as falas, simplesmente fale o que bem lhe aprazer...”.
De longe, a faxineira do teatro observava a atriz – que fora aposentada forçadamente no dia anterior – falando sozinha dentro do camarim que seria ocupado pela mais nova estrela do teatro. De longe, aquela era a pior de suas apresentações, pois a voz, embargada pelo choro de quem fora passada para trás pelo mercado de atrizes, deixava sua dicção terrível. Aquela atriz aposentada continuaria a monologar, no entanto, cada vez mais frustrada.

Entrou em cena


Teatro (Romeu e Julieta) - Tenini

Lá estava ele, e ela já previa sua fala, assim como também possuía um texto em mente. Ele começou; entonação sensitiva, olhos aguçados, movimentando-se quase pendularmente de uma perna a outra. Explicava-se. Na noite anterior, ela ficara sozinha. Na noite anterior, ela relembrou todas as outras noites anteriores que ficara sozinha, completamente a se sentir fora de cena. A imaginar cenas. Todas as manhãs, no entanto, lá estava ele a se explicar. Terminou. Ela parou, pensou como se não tivesse pensado tantas vezes antes. Depois de um profundo suspiro, dinamicamente entrou o corpo dela em movimento. Buscou a melhor expressão facial. Beijou-o no rosto e deixou claro, apenas com seu olhar teatralmente treinado: ela havia se cansado. "Acostumei-me sozinha. Desculpe, mas agora não há por quê estar acompanhada". Deixou um simples sorriso surgir no canto da boca. Fez mais uma jogada cênica: parecia estar tudo bem. Ela, porém, sabia que estava tudo mal. Ele não sabia, nunca soube como estavam as coisas.
Ela pegou o roteiro e saiu do camarim. Tinha uma peça de teatro a comandar, menos trágica, menos real que esta, então, acabada.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.