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Ambição própria


Caretaker - Sally Storch


No caminho para deixar os filhos no colégio, ela passava sempre em frente a uma imobiliária. Parava diante da vitrine e ficava observando uma maquete de uma grande casa. Deixava alguns minutos de seu dia passar ali, parada, a reforçar dia após dia aquela sua única ambição: ser proprietária de uma casa. Sempre viveu de aluguel. E viver na casa dos outros era algo com o qual ela nunca se conformava. Mas o marido, que possuía um salário muito baixo, afirmava que eles deveriam investir na educação dos filhos e não numa casa própria. Ela concordava, com a esperança que os filhos, no futuro, retribuíssem o esforço dos pais, dando a estes uma casa para chamar de sua. E repetia, sempre que podia, esse encargo aos meninos. Ela só não notava a indiferença deles, que sempre passavam direto pela imobiliária, sem nem ao menos olhar a vitrine. A mãe não compreendia que cada um já tinha suas próprias ambições para perseguir.

O presente do futuro



Lovers in the lilacs - Marc Chagall

Eram muitas expectativas dentro de si, que doía respirar. Era muita palpitação para um só coração. Eram sonhos demais dentro de uma só mente imaginativa. Cansava viver assim tão intensamente, sempre de olho no futuro. Até que conheceu um outro coração palpitante. Seu salvador. Aquele que conseguiu trazer o olhar dela para o presente. O presente que era ele. Presente que o futuro - tão desejado por ela - reservou. E ela recebeu de mente aberta, coração acelerado e respiração arfante, aquele presente. Compartilhou com ele seus sonhos, expectativas e palpitações. Passou a viver de forma menos dolorida. De forma mais vivida.

Justo subconsciente


Quarto de hotel - Edward Hopper

Um dia, sonhou que traía seu marido. Acordou assustada, com tamanha repulsa do sonho, que chorou com raiva de si mesma. Imaginar praticar tamanha injustiça contra aquele que tanto dedicava amor a ela era um absurdo. O que o seu subconsciente tinha em mente para se manifestar daquele jeito? Não entendia. Até que no dia após o sonho, uma amiga a chamou para conversar. Muito cautelosamente, a amiga contou-lhe que havia visto seu marido traí-la. E, para piorar, ainda registrou o fato em fotos e vídeos. A sonhadora, diante daquela terrível notícia, compreendeu o recado dado pelo o seu subconsciente. Trair seu marido talvez não fosse uma má ideia. Injustiça contra um injusto traidor... Talvez, justo seja!

A alma da rotina



Laurette's head with a cup of coffee - Henri Matisse

Acordar para trabalhar – trabalhar para comer – comer para dormir. Dormir para sonhar com aquela infância que viveu tão leve como um pássaro no azul do céu. Acordar para trabalhar – trabalhar para comer – comer para dormir. Dormir para sonhar com aquela criança que queria passar a madrugada acordada para observar as estrelas. Acordar para trabalhar – trabalhar para comer – comer para dormir. Dormir para sonhar com a liberdade das tardes ensolaradas acompanhadas de seus livros de ficção-fantástica. Acordar para trabalhar – trabalhar para comer – comer para dormir. Dormir para esquecer que à medida que envelhecia, seus sonhos diminuíam, seu tempo endurecia, sua liberdade se esvaia, seu viver esmorecia. Acordar para trabalhar – trabalhar para... Morrer, um dia. E por fim àquela rotina.

Sonhos sem fronteira



Dreamer - Jennifer Balkan

Acabara de passar pela Torre Eiffel, antes de chegar a sua cozinha, e começar a fazer a limonada com limões da China. Avistava alguns escoceses e suas gaitas de Highland no seu quintal. Riu das araras azuis amazônicas que brincavam no galho de roseiras roxas, que plantou no dia de Ações de Graças - que passou na pirâmide inca do México. Rindo, ela fechou os olhos. A confusão que via, sentia e vivia era todos os seus sonhos que não encontravam limites na sua realidade e invadiam-na, tomando conta dos seus espaços como se realmente ali estivessem. Ela nunca soube definir uma fronteira entre seus sonhos e a sua realidade; vivia ambos de uma só vez. Com o tempo, ela parou de achar isso um problema e aceitou com satisfação toda a sua imaginação tão fértil. Afinal de contas, quem disse que é preciso estar dormindo para sonhar?

Saga fantástica


Vladimir Kush


A mulher-borboleta corria os nove mares da região oeste do território inimigo. Lutava para não deixar seu perfume escapar pelas suas asas, pois só através disso os homens morcegos poderiam rastreá-la. Sentiu saudades do seu paraíso floral. Paraíso este que seria o inferno para aqueles seres da escuridão. Porém, não se sentia fraca e nem queria desistir de um dia encontrar a pétala perdida... Com esta, o portal mandaria os suspiros celestes e, logo, suas asas funcionariam! Por enquanto, continuava a correr. Até que uma luz invadiu seus olhos...
A mulher acordou com a fantasia de seu sonho na cabeça. O sol acabara de invadir seu quarto. Algumas flores do seu jardim pareciam brilhar na sua janela. Lembrou-se de cada detalhe do sonho e, em um salto, pôs-se de pé com uma ideia brilhante: “vou escrever um livro!”. Aí nasceu um best-seller.

Bailarina espelhada



Waiting - Edgar Degas

Procuravam moças que amassem o Balé, que quisessem viver por essa arte. A moça ganharia uma bolsa para estudar na melhor escola de dança do país. Aquele era o sonho da senhora de preto; sempre quis ser bailarina, brilhar debaixo de holofotes, rodopiando com passos precisos, leves e clássicos. Ah, mas o tempo corroeu seus dias e seus pais corroeram as oportunidades que o tempo dava a ela, por isso não podia competir por aquela bolsa. Mas... Sua filha podia! E se espelhou na moça para concorrer àquela oportunidade...
Sua filha saiu da sala de testes, sentou ao seu lado e falou: “Não fui aprovada; os júris disseram que eu não tenho o espírito da dança e que pareço fazer os movimentos forçada...”. Desamarrando a sapatilha de ponta, a filha completou: “Incrível como os júris são adivinhões, né mãe? Agora que já tentei o seu sonho, posso tentar os meus?”.

Idealizada família


Lyst - Serhiy Reznichenko

Sentou-se para jantar, novamente sozinha. O marido ainda não regressara do trabalho. Os filhos inventavam saídas casuais com amigos. E mesmo se ali estivessem provavelmente permaneceriam longe em mente. Isolada, ela deixou-se levar pelo sentimento de solidão e percebeu os olhos embaçados. Era nesses momentos que recordava o sonho que sempre teve: queria viver apaixonada por sua família, queria curtir os carinhos dos filhos e envolver-se com os prazeres do seu marido. Construiu aquela família, mas o sonho ainda era idealizado.
Nenhuma lágrima foi lançada.  Por força, determinação ou simplesmente por não ter o que fazer para mudar aquela situação, pôs-se a degustar o salpicão. Difícil era permanecer apaixonada por algo que não fazia questão de degustar a vida junto dela.  

Noiva


Summerdress II - Willem Haenraets


De frente para o espelho, sorriu emocionada. O tecido branco bordado à mão com algumas pérolas no busto deixou-a radiante. Sentiu-se quase um anjo, de tão bela e feliz que estava. Recebera o pedido de casamento na noite anterior. Iria construir sua vida agora inteiramente do lado do homem que tanto amava. E naquele instante, numa loja de noivas, ousou escolher um modelo e experimentar. Sim, foi um ato de pura ousadia. Infelizmente, não poderia realizar o desejo de se casar daquela forma radiante. O tecido branco e as pérolas ficariam nos sonhos. O produto era caro demais, até mesmo o aluguel, para ela – moça pobre, faxineira do centro da cidade. Porém, naquele momento, imaginou-se daquele modo a entrar na igreja matriz e a dizer ‘sim’ para o seu amado. A sua felicidade era capaz de ignorar suas condições e tornar aquela intensa imaginação em quase realidade.

Desfrute



Danae - Gustav Klimt


Sentiu o frio na barriga, mas ainda assim deixou-se levar. O corpo foi passando da vergonha à liberdade. Todo aquele tremor nas pernas, aqueles afagos do peito e a escuridão dos olhos fixamente fechados construíam um momento de excitação único. Segurava-se para não deixar um arrepio percorrer o corpo, pois denunciaria sua fraqueza e todo sua entrega. Sim, estava se entregando de corpo e alma. Decidira o desfrute. Esperava que cada pedaço seu fosse descascado e agraciado. Decidira o prazer... Até que... Ah, os pensamentos se esvaziaram e apertou com mais força os olhos: de longe, uma luz queria penetrar a escuridão acolhedora da sua mente; de longe, um calor queria percorrer sua pele. Mas o sentimento que agora inundava seu íntimo era de repulsa - não queria aquela luz e aquele calor... Queria mantê-los longe, queria permanecer naquele leve desfrute... Aaaah...
"Acorde, Lolita! Já é tarde!". Abriu os olhos para o quarto iluminado e sentiu o calor dos raios do sol no seu corpo. Sentiu o amargo da insaciedade na boca e amaldiçoou seus sonhos. Todos aqueles sonhos... Só por simplesmente ainda serem sonhos!

Sertanejo


Sertão - Mauro Andriole

Levantou em um salto. A testa suada. Seu lençol de trapos estava jogado no chão. Ao certo o pesadelo o fizera se mexer demais. De novo aquele sonho anormal o assaltava. Servia de despertador. Já era dia. Mas no sonho, o dia era branco morto. Do céu caíam pedacinhos brancos da nuvem. O dia era apagado. O céu chorava; tanta água que não acabava. E ele estava todo enrolado em panos, como se desejasse esquentar o corpo. E o sol? Era uma luz longe, detrás de tanta nuvem escura. “Será o inferno, santo pai?”. É, com certeza não haveria lugar na Terra que fosse daquele jeito. Acomodou-se na soleira da porta de sua casa de taipa, observou o dia claro, o horizonte alaranjado daquele sertão bonito. “O mundo só pode ser assim, vivo, ensolarada, sô!”. Fechou os olhos e começou a rezar. Afinal de contas, não queria ir parar no inferno, naquele lugar sem sol, com as nuvens se desmanchando e água caindo do céu.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.