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Enlaçados


The crack up - Charles Blackman

Alguns laços nunca desatam. Ela compreendeu isso depois de deixar o filho na porta da casa do pai. O homem olhou-a nos olhos e demorou-se. Ela também demorou ali naquele olhar. E naquela fração de segundos, toda a história deles passou como um clarão de um raio na memória. Mas depois da luz, veio o estrondo forte do término. Das brigas, desentendimentos, descompassos. Não conseguiram mais seguir seus planos juntos. Divorciaram-se. Porém alguns laços nunca desatam. E o filho era aquele nó. Não adiantava ela ou ele tentar puxar o filho só para si. O nó apertaria mais e nó apertado dói. Cada um deles teria que viver com o outro, mesmo separados, mas mantendo aquele laço firme, sem deixar desatar, tampouco arrebentar. Somente com o passar dos anos, depois que mãe e pai fizessem cada um seu papel, é que esse nó aos poucos irá afrouxar. Não se partir por completo, apenas desapertar. E, assim, deixar cada um seguir - enlaçados, porém livres.

Singulares


Awaiting Return - Kenton Nelson

Em que momento foi que nos deixamos para trás? Desde quando a indiferença tomou conta de nós? Não guardo mais certeza sobre o amor que um dia sentimos um pelo outro. E também não sinto mais aquele rancor que nos motivou chegar até aqui. Sinto que já não há nem uma coisa nem outra. Não há mais dívidas, tampouco dúvidas, que sustentem nosso estar juntos. O que fazer, então? Onde vamos parar? Ah, agora vejo bem... Não vamos mais a lugar algum. Vamos, não mais. Eu vou. Tu vais. E seguimos conjugando os verbos na primeira pessoa do singular, já que o plural não nos agrada, nem desagrada mais. O plural não se encaixa em nós. Nós? Já não há. Eu sigo. Tu segues. No singular.

Exercícios mentais


And the Bridegroom - Lucian Freud

A cada amanhecer, ela olhava o marido ao seu lado e se imaginava sem ele. Aquele exercício mental a fazia acordar sempre com os sentimentos de afeto renovados,  porque imaginar-se sem ele era doloroso demais para ela. A cada anoitecer, o marido observava a mulher pegar no sono e pensava que teria que ver aquela cena pro resto de sua vida. E sentia aquilo como uma rotina tediosa demais para suportar por tanto tempo. Logo, esse exercício mental dele foi destruindo o casamento. Acabaram se divorciando.
Divorciados, ela superou os fatos mais rápido do que pensava, pois aquela sua imaginação de outrora a tinha treinado psicologicamente para o pior.  Enquanto ele passou a sofrer pelo caos que ele mesmo provocou: sentiu falta daquela rotina segura que tinha e que, por pensar que seria para sempre, acabou destruindo.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.