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E se?

 

Sorrowing Old Man (At Eternity's gate) - Vincent van Gogh

Se você pudesse escolher qual batalha travar, qual escolheria? Se pudesse escolher quanto tempo atrás retornar, quanto tempo voltaria? E se pudesse escolher alguém para ressuscitar, quem seria? Quantos passos para trás daria? Quais palavras calaria? Quantas horas pausaria? Quais decisões mudaria? Quais dessas perguntas responderia? Quais? Quantas? Quem? Por quê?... E se não houvesse interrogações, seria menos complexo viver? Naquele instante, o velho resolveu responder essa última pergunta que surgia em sua mente. Apenas fechou os olhos e imaginou seus primeiros dias de vida, em que a arte de interrogar ainda não era conhecida. Ah!... Por aquele breve instante, suspirou aliviado ao sentir o quão fácil, natural e simples era viver! Porém esse instante findou-se logo em seguida: "Mas será se era assim mesmo a vida? Ou só na minha imaginação é que assim seria?".

Entre tiros


Guns - Andy Warhol

Som de tiro. Não só um. Muitos tiros. Para seus ouvidos, não era barulho. Era som, como dos passarinhos na primavera. Mas diferentes dos passarinhos – que só apareciam na primavera – os tiros não tinham estação. Eram sempre presentes. E nunca tivera medo disso. Não até ouvir aqueles tiros. Não eram tiros das armas do pai. Sabia disso. E soube da pior forma. Sangue. No chão da sua casa, havia muito sangue. Descobriu o corpo do pai morto na sala. De súbito, acordou. Aquela lembrança novamente durante o sono. O homem levantou, lavou o rosto para afastar aquela memória. Lembrou as palavras do homem que matou seu pai: “menino, não se preocupe, agora vamos te levar para um país melhor e terá uma educação melhor. Não precisará viver entre tiros”. Diante do espelho, ele encarou seu próprio riso. Muito enganado. Apesar do seu passado renegado, com seus pais talibãs mortos, após ser supostamente acolhido por outra nação, educado e formado, agora era policial. E escolhera aquela profissão só para continuar vivendo entre tiros. Porque ele foi criado assim. Porque aqueles foram os valores ensinados por seus pais. E sairia para mais um dia de trabalho. Para atirar. Porque aquele era o som da sua vida.

Existência esquecida

Regret - Katie O'Hagan

Vivia no vale do esquecimento. Colecionava recortes de memórias. As poucas lembranças que visualizava eram incompletas. Faltava o sentimento do momento. O passado se confundia com um desejo futuro. O presente mergulhava no peito e se incorporava quase imediatamente aos retalhos do passado. Tinha certeza do passo que estava dando, mas logo sentia medo pelos passos não dados. Vivia arrodeada de gente, mas plenamente sozinha. E não sabia se explicar. Não sabia o porquê daquele seu estado psicológico. Na realidade, nem se questionava sobre isso. Sua vida era um esquecer a cada instante. E quem disse que ela era infeliz?

Última lição - o vazio da morte


Death and Life - Gustav Klimt


Aos dez anos, suportou a morte de seu pequeno peixe. O pai optou por preencher o vazio dele com um cachorrinho - que viveria mais. Aos vinte anos, a morte levou esse cachorrinho. A dor foi maior e o pai lastimou não ter previsto tamanho sofrimento. O jovem desistiu de criar animais; resolveu preencher o vazio com os humanos. A dor persistiu: ora a morte resolve levar seus avós queridos, ora os amigos próximos desapareciam como se tivessem morrido. O homem resolve, então, constituir uma família - esposa, filho e filha. A esperança do resto da vida ao lado desses preencheu seu novo vazio. Mas eis que recebe a notícia do aproximar da morte do pai e percebe que logo teria que suportar um vazio lancinante. Chorando no leito do seu velho, ouviu sair da boca deste essas palavras:
“Meu filho, me perdoe. Há muitos anos atrás, eu perdi a oportunidade de lhe ensinar a viver de verdade. Quando você tinha dez anos, com o seu pequenino peixe morto nas mãos, eu deveria ter lhe ensinado que a morte é insuperável e que ela faz parte da vida. Aceitá-la é viver. Mas ao invés disso, ensinei-o a preencher o vazio e agora você é um homem triste, cheio de lembranças vazias, sofrimentos calados, dores profundas… Isso foi o maior mal que cometi em vida, então peço que me perdoe e aprenda essa última lição. Aprenda, por favor, pois só assim posso morrer mais vívido e deixar você viver sem vazios”.
Essas palavras foram como raio de luz na escuridão da alma daquele homem que chorava. E o olhar iluminado do filho foi suficiente para o pai compreender que conseguiu seu perdão. A morte veio tantas outras vezes. O vazio, não.

Lembranças do verão


Migração de pássaros - Johannes Larsen

Uma visão. De longe, ela permanecia de olhos fechados vislumbrando um horizonte que só ela tinha acesso. Nos tímpanos retumbava o barulho bravo do mar. Ficava quieta lembrando aquele perfil enfrentar as ondas. De tão concentrada que estava, conseguia degustar o sal da água que invadia a boca dele, mergulho após mergulho. De longe, ele – seu amante – desfrutava o prazer da maré enchendo, revolta na praia da Barra Grande. Aquela cena ficaria para sempre cravada na memória da observadora. Recortes de momentos simples, naturais e de puro deleite.  O fortalecimento de um sentimento sem nome, sem data e sem pressa.

Oração de saudade



Marc Chagall

Quando só as fotos sobram e você tem que se acostumar com aquele perfume se esvaindo. Quando você não sabe se comemora os dias passando, na esperança da dor parar ou na tristeza de ir ficando mais distante do último toque. O último abraço... As tentativas de se livrar dos momentos tristes, lembrando os momentos felizes. O dom de ir escrevendo contos sem sentido e sem objetivo... Apenas "escrever como forma de oração", como já orava Kafka. De reza em reza, a súplica para a saudade passar e a alma aquietar no fundo do peito aflito.


Em memória a minha Lilica.

Desenterro



A carta - Eliseu Visconti

Debaixo de sua cama, ela guardava um túmulo. Dormia por cima da angústia daquele enterro, até que resolveu desenterrar aquele segredo. Numa manhã como outra qualquer, tirou debaixo da cama a velha caixa de sapato que servia para guardar as tantas cartas de amor, de amizade, de saudades, de ciúmes, de intrigas, de reconciliações... Todas de um tempo que as cartas significavam sua vida. Tirou e jogou no lixo. Enterrava as lembranças bem longe dali. O vazio que deixou debaixo da cama foi preenchido com o alívio de um passado já passado e a esperança de um futuro por vir.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.