Ele tocou na mão dela. Envolveu os dedos ao redor dos dedos magros. Deslizou o polegar na palma da mão. Aquilo fez ela sentir uma corrente elétrica incomum percorrer seu corpo. Já ele, se arrepiou. Sem falar sequer uma palavra, apenas envolvidos no silêncio daquele instante de reencontro, se questionaram se realmente não existia alguma ligação de outras vidas. Ou uma relação de outros mundos. Ou de passados mal resolvidos. Será se existia? Não sabiam. Apenas sentiam existir aquela tamanha sintonia. Tamanho desejo. Algo que, não importava o tempo que passasse, ao se reencontrarem, sentiam do mesmo jeito. Na mesma intensidade. Não importava com quantos outros relacionamentos se envolvessem, bastava um aperto de mãos, naqueles encontros casuais, e eles já se envolviam de novo. Um no outro. Ali calados, a sentir apenas o tocar das mãos. Até essas mãos se distanciarem e cada um fingir seguir em frente sem o outro. Porque, por mais espiritual, telepática ou de outro mundo que fosse aquela sintonia, eles não estavam mais juntos. E seus caminhos estavam traçados em sentidos distintos. Porém, caminhos que guardavam diversos reencontros, só para lembrá-los que existia no mundo alguém com quem partilhavam aquela surreal sintonia.
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Sorrowing Old Man (At Eternity's gate) - Vincent van Gogh
Se você pudesse escolher qual batalha travar, qual escolheria? Se pudesse escolher quanto tempo atrás retornar, quanto tempo voltaria? E se pudesse escolher alguém para ressuscitar, quem seria? Quantos passos para trás daria? Quais palavras calaria? Quantas horas pausaria? Quais decisões mudaria? Quais dessas perguntas responderia? Quais? Quantas? Quem? Por quê?... E se não houvesse interrogações, seria menos complexo viver? Naquele instante, o velho resolveu responder essa última pergunta que surgia em sua mente. Apenas fechou os olhos e imaginou seus primeiros dias de vida, em que a arte de interrogar ainda não era conhecida. Ah!... Por aquele breve instante, suspirou aliviado ao sentir o quão fácil, natural e simples era viver! Porém esse instante findou-se logo em seguida: "Mas será se era assim mesmo a vida? Ou só na minha imaginação é que assim seria?".
Cakes - Wayne Thiebaud
Na capa da revista a manchete principal anunciava uma vida saudável através de um novo modo de nutrição, sem açúcares. A senhora baixou a revista e olhou a bandeja de doces artesanais postos à venda. Uma receita passada de geração em geração. A fama que seu sobrenome carregou desde a muitas décadas. Mas agora jaziam todos os doces sem nenhum cliente para apreciá-los. Jazia a fama de doceiras com seu sobrenome. Tudo por conta de uma tal vida saudável... Como se ela, todos da sua família e de épocas passadas não tivessem tido uma vida saudável. E ali ficava, todos os dias, na espera de uma venda sequer. Entristecida, por ela viver naqueles novos tempos. Tempos "saudáveis". Tempos amargos.
Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.


