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Justo subconsciente


Quarto de hotel - Edward Hopper

Um dia, sonhou que traía seu marido. Acordou assustada, com tamanha repulsa do sonho, que chorou com raiva de si mesma. Imaginar praticar tamanha injustiça contra aquele que tanto dedicava amor a ela era um absurdo. O que o seu subconsciente tinha em mente para se manifestar daquele jeito? Não entendia. Até que no dia após o sonho, uma amiga a chamou para conversar. Muito cautelosamente, a amiga contou-lhe que havia visto seu marido traí-la. E, para piorar, ainda registrou o fato em fotos e vídeos. A sonhadora, diante daquela terrível notícia, compreendeu o recado dado pelo o seu subconsciente. Trair seu marido talvez não fosse uma má ideia. Injustiça contra um injusto traidor... Talvez, justo seja!

Carta de divórcio



The dream - Pablo Picasso

Eu quero a ilusão calma de uma manhã sem ti. Eu quero o alívio de acordar do pesadelo de tê-lo por perto quando em vez. Eu quero o vazio da sala, quando bates a porta e sais gritando ao vento o quanto sou ingrata. Ingrata? Claro, não agradeço mesmo teus alardes, teus insultos de homem machista sem freio e tua burrice de homem que pensa que manda em casa. Eu continuo, em cada anoitecer, a desejar a infinitude das tuas noitadas, embriagadas e traíras, só para não ter que olhar na tua cara. Prefiro a cama só minha, pois ela é mais calorosa sem teus nojentos roncos.  Mas, acima de todos esses quereres, eu apenas quero que me compreendas, que me realizes e vai, de uma vez só, embora. Pois “a boa hora” da partida já passou há muito tempo. Vai! Em péssima hora, mas apenas vai! E gaste todos os teus escrúpulos com outra mulher, pois essa mulher, que te escreve essa carta, se apaixonou por outra pessoa: ela mesma! Completamente apaixonada por mim, te mando para bem longe – seu ingrato!

Vão amante



Cigar Bar - Brent Lynch

Ele adorava a falácia que via nos olhos das mulheres. Vãs mulheres. Mergulhava em cada pequeno romance como se fosse pedir a mão – e todo o corpo – da mulher em casamento no dia seguinte. Mas, rindo consigo mesmo, esquecia o que se passara no dia anterior, sempre que os seus olhos acordavam na nova manhã. Ele nascera para aquela vida suburbana. Sorrateira vida de quem esconde mágoas em copos de rum e em amassos descomprometidos. Sim, aquele homem escondia a sete chaves a mágoa de ter sido traído pela primeira mulher que amara. E, como se servisse de analgésico para sua própria decepção, passou a decepcionar cada uma das mulheres que com ele se envolvia. Passou a ver apenas falsidade nos gestos de carinho. Passou a enojar qualquer sentimento declarado. Então, desacreditado, nunca mais amaria. Apenas continuaria a pagar mais um copo de rum e a usufruir daquelas vãs mulheres.

Curiosidade de uma traída


Morning Light - Mary Jane Ansell


Recordou aquele dia...
Depois da discussão feia que teve, ela acalmou-se e refletiu por alguns minutos. Na sua frente, a figura do traidor permanecia imóvel e sem palavras, até mesmo porque era errado falar naquele momento e ele bem sabia disso. A traída, sem hesitar, sentenciou: permaneceria na mesma casa, com a mesma fechadura da porta, andaria nos mesmos lugares e não mudaria a rotina, pois não era ela quem devia fugir da situação. E iria aguardar por uma boa explicação dele durante o percorrer normal do resto da sua vida. Essa espera não seria por amor, piedade ou vontade de ouvir a voz rouca dele; era o desejo de saciar a curiosidade dela própria, do estigma que sua mente agora possuía em querer entender até onde vai a covardia e a falta de caráter de um ser humano.

Carta de despedida



Dutes Motes Dancing in the Sunbeams - Vilhelm Hammershoi

                “Querido pai,
É provável que esteja com lágrimas aos olhos e que agora esteja vendo de modo embaçado o meu corpo sem vida na sua sala de estar. Escolhi morrer aqui, porque já não aguentava mais a casa do meu marido – aquele homem soberbo a quem o senhor deu minha mão em casamento. Desculpe-me, pai, mas não fui forte como minha mãe. Ela, sim, era guerreira e suportou uma vida inteira do lado de um homem que a traía. Você! E não pense que eu não sabia disso; eu sempre soube. Passei minha vida odiando suas traições. Passei minha vida esperando por um casamento íntegro, fiel. Mas veja como o destino é ousado: casei-me com um homem que também adultera a união sagrada. Fui mais uma mulher traída; sofri igual minha mãe; senti na pele os mesmos ferimentos da infidelidade.
Resolvi morrer, o quanto antes. Não era essa vida que pensei viver. Então, desculpe-me, pai, pois sei que sou a última pessoa que sobrou na sua vida e sei do imenso amor que sente por mim. Agora vejo que serei o motivo para fazer o senhor sentir na pele o peso de seu pecado. Viverás, meu pai, até o fim da sua vida lamentando seus erros. Deixo meu perdão em nome de minha mãe; espero em oração suas lágrimas e lamentos por sua conduta. Não se esqueça, estarei esperando...”

O homem, caído de joelhos, chorando pesarosamente, com o corpo da filha morta nos braços, entregou-se ao martírio dos infiéis.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.