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Carta de desapropriação


La pasión II - Alberto Pancorbo

Tive que te deixar. Não suportava mais minha mente me importunando com mil questionamentos sobre ti. Questionamentos esses que não sei responder. Faz-te de enigma na minha vida e o que ganhas com isso? Ganhas um adeus! Cansei de viver perdidamente apaixonado por uma mulher que não compreendo inteiramente. E cheguei a essa conclusão, de que eu teria que te deixar, quando compreendi que a sensação de não te ter vem exatamente do fato de tu não ser do tipo de mulher que se tem. Ninguém pode te possuir! Tu não nasceste para ser propriedade. És proprietária em toda a tua essência! E isso me assusta... Como ficar com uma mulher que não compreendo por inteira? Que me surpreende? Que me possui? Minha mente não suporta esse amor todo! Por isso te deixo aqui. Ao menos levo comigo um amor que eu sinto e conheço bem: o meu amor por ti.

Carta branca



Reader, Flowers in her hair - Henri Matisse

Dobrei uma folha em branco, coloquei no envelope e enderecei para a sua casa, meu bem. Agora – enquanto a carta branca deve estar percorrendo ruas vazias e ruas movimentadas, a caminho do seu caminho – escrevo aqui essas palavras, nesse pedaço de papel de um velho diário, sem data, sem ano... Só para assegurar que, em algum breve futuro, quando eu estiver curada desse meu sofrimento, eu possa retornar a essas páginas e aqui ver escritos todos os sentimentos que eu poderia ter escrito para você. E não escrevi. Não para você. Mas os deixei registrados aqui, só para mim. Pois, meu bem, você não merece os meus sentimentos. Não por esse sofrimento todo que você me causa. O máximo que merece é uma carta branca. Repleta de um vazio similar ao que você deixou em mim.

Carta ao carteiro


Still Life with ink bottle book and letter - William Michael Harnett

   Sr. Responsável pelos Correios dessa cidade,

Eu não o conheço, por isso não me dirijo ao senhor pelo nome. Mas suspeito que talvez me conheça. Sou eu o homem que manda todo santo dia uma carta endereçada a uma senhora que vive na capital do país. Não há um dia sequer que eu não tenha escrito uma carta a ela. Mas minhas respostas nunca – digo, nunca! – chegaram até mim. Não entendo a razão de não haver cartas de resposta. Tenho profunda certeza de que essa senhora me ama o suficiente para escrever – quiçá, todo santo dia! – cartas para mim. Então, cheguei à conclusão de que o senhor ou os seus subordinados carteiros estejam conspirando contra esse velho homem apaixonado. Talvez tenham inveja de ainda existir um amor verdadeiro via correios. Talvez sejam homens muito mal amados ou sejam desses que vivem se correspondendo por esses meios virtuais tão fugazes... Mas não me importa quais são seus problemas, senhores! Apenas exijo que prestem seu serviço direito! Entreguem-me minhas correspondências!  Porque o meu  amor é recíproco e isso é inquestionável!

Atenciosamente, Platão.

Carta amiga



Beautiful with Withe Neck - Marc Chagall

Veja só, meu amigo, onde paramos. Sua loucura por mim me deixou sem princípios. Éramos eu e você na calçada da escola, até alguns anos atrás, pensando nas peripécias e brincadeiras da nossa pequena vida. O infortúnio se instalou quando você reconheceu em mim uma mulher e eu, em você, um homem. Os opostos se atraem e se destroem. Nada de amigos, não é? Acabamos com a lealdade de outrora e hoje somos mal vistos. Corroemos nossas dúvidas sacanas num voluptuoso fim de nós mesmos. Agora que sabes como funciona uma mulher e eu sei como funciona um homem, desaparece da minha vida e diz que não somos mais amigos deveras... Escrevo essa carta, querido, para lhe alertar que sinto falta das brincadeiras inocentes do nosso passado. Apenas quero que não deixe o nosso futuro adulto empobrecer sem a amizade leal que tivemos, tudo por conta de uns desejos de jovens insanos. O fato é que, atualmente, não se consegue amigos como antes, e devido a isso, mande notícias. Tua amiga, unicamente amiga, te espera.

Carta digital



Caixa de entrada - Carlos Ygoa

A gente reserva as declarações mais intrínsecas e especiais para por nas cartas. A magia de escrever no papel talvez desperte uma emoção mais gostosa de sentir. Não ocorre isso com você? Ah, que pena! Para mim, o digitar do mundo contemporâneo é um germe da dessentimentalização dos humanos. É ir contra a preocupação mental em produzir perfeições. Falta mais dedicação do remetente e consideração com o destinatário... Tal como agora, nessa minha divagação digital. Sou mais um poeta assentimental. As folhas brancas jazem abandonadas ao lado do meu computador que toca os versos “estou guardando o que há de bom em mim para lhe dar quando você chegar”. Quiçá, quando você voltar, algumas cartas terei para lhe entregar!

Carta de divórcio



The dream - Pablo Picasso

Eu quero a ilusão calma de uma manhã sem ti. Eu quero o alívio de acordar do pesadelo de tê-lo por perto quando em vez. Eu quero o vazio da sala, quando bates a porta e sais gritando ao vento o quanto sou ingrata. Ingrata? Claro, não agradeço mesmo teus alardes, teus insultos de homem machista sem freio e tua burrice de homem que pensa que manda em casa. Eu continuo, em cada anoitecer, a desejar a infinitude das tuas noitadas, embriagadas e traíras, só para não ter que olhar na tua cara. Prefiro a cama só minha, pois ela é mais calorosa sem teus nojentos roncos.  Mas, acima de todos esses quereres, eu apenas quero que me compreendas, que me realizes e vai, de uma vez só, embora. Pois “a boa hora” da partida já passou há muito tempo. Vai! Em péssima hora, mas apenas vai! E gaste todos os teus escrúpulos com outra mulher, pois essa mulher, que te escreve essa carta, se apaixonou por outra pessoa: ela mesma! Completamente apaixonada por mim, te mando para bem longe – seu ingrato!

Carta a Narcisa



Girl combing her hair - William McGregor Paxton

Cada traço doce do seu rosto a encantava tanto que ela costumava passar horas inteiras se observando. Talvez por apenas se admirar, ela não conhecesse nenhuma outra beleza mais acolhedora do que a sua própria. Um dia, sem ela perceber, seu pai mandou um pintor desenhá-la numa tela enquanto ela se admirava no espelho. Aquela pintura permaneceu escondida por muitos anos. Seus pais morreram e a velhice veio murchando a imagem da bela moça. Ela pensou que não iria suportar o resto da vida sem a sua beleza para admirar e caiu numa profunda tristeza. Porém, seu irmão, sentindo ser aquele o momento certo, mostrou a pintura e entregou uma carta do pai falecido assim escrita: 
“Filha querida, é uma pena que somente agora que a velhice chegou para você é que poderei falar algumas palavras e você poderá ouvi-las com atenção. Não pense que a felicidade existe na sua imagem. Acredite que as mais belas coisas estão longe do seu espelho. Aproveite o resto da sua vida e viva de verdade. Estou morto, porém se estivesse vivo olharia para o fundo dos seus olhos e diria que agora, velha e desfocada, você está incrivelmente mais linda do que a moça bela que apenas perdia a vida a se admirar. Beleza de verdade está na vida, filha. E por acaso, você já viu alguma imagem pintada da vida por aí? Com amor, seu pai”.

Carta de pedido


Suplício por alívio - Edvard Munch


Olá, Desespero. Escrevo na minha mente, porque já não tenho forças nos dedos para escrever em papel. Meus dedos andam fracos do choro lancinante que não para de rasgar minha face. Os pingos de lágrimas já escorrem pelo meu peito e só digo isso para que constates que o meu sofrimento não é um mero abalo. Sim, recorro diretamente a ti, Desespero, para que tenhas pena desse corpo de mulher ferida. Já me bastam os fatos do abandono e ainda queres tu fazer companhia dia e noite a mim? Peço perdão, mas tua presença não me ajuda e penso que ajuda é a tua intenção, pois fosse o contrário, deixar-me-ia completamente na solidão – talvez ainda pior. Ah, querido Desespero, agradeço a preocupação, mas meu peito está machucado, o Amor deixou-me e não vejo melhor remédio do que pedir que vá, deixe-me também. Eu suporto este abalo novamente, as lágrimas equilibrarão o arfar da perda desta vez. Sim, eu cuido de mim mesma, prometo. E tenho mais dois pedidos a fazer-te: se tu vires a Paz por onde andares, Desespero, pede que me venha fazer uma visita e, por último, se vires o Amor, dê esse recado: a última vítima que fizestes, Amor, escolheu morrer em Paz.

Carta de despedida



Dutes Motes Dancing in the Sunbeams - Vilhelm Hammershoi

                “Querido pai,
É provável que esteja com lágrimas aos olhos e que agora esteja vendo de modo embaçado o meu corpo sem vida na sua sala de estar. Escolhi morrer aqui, porque já não aguentava mais a casa do meu marido – aquele homem soberbo a quem o senhor deu minha mão em casamento. Desculpe-me, pai, mas não fui forte como minha mãe. Ela, sim, era guerreira e suportou uma vida inteira do lado de um homem que a traía. Você! E não pense que eu não sabia disso; eu sempre soube. Passei minha vida odiando suas traições. Passei minha vida esperando por um casamento íntegro, fiel. Mas veja como o destino é ousado: casei-me com um homem que também adultera a união sagrada. Fui mais uma mulher traída; sofri igual minha mãe; senti na pele os mesmos ferimentos da infidelidade.
Resolvi morrer, o quanto antes. Não era essa vida que pensei viver. Então, desculpe-me, pai, pois sei que sou a última pessoa que sobrou na sua vida e sei do imenso amor que sente por mim. Agora vejo que serei o motivo para fazer o senhor sentir na pele o peso de seu pecado. Viverás, meu pai, até o fim da sua vida lamentando seus erros. Deixo meu perdão em nome de minha mãe; espero em oração suas lágrimas e lamentos por sua conduta. Não se esqueça, estarei esperando...”

O homem, caído de joelhos, chorando pesarosamente, com o corpo da filha morta nos braços, entregou-se ao martírio dos infiéis.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.