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Lara, Aldo e o mundo


Gaston La Touché

Lara era tão frágil. Cheia de incertezas, indecisões. O mundo ainda era um grande enigma para seus parcos anos de vida. Era jovem e assumia que não sabia de quase nada. Por isso a timidez diante do mundo. Mas uma coisa sempre teve dentro de si: muita curiosidade.
Tal retrato psicológico de Lara logo encantou bastante Aldo, um homem já tão vivido. Ele se apaixonou pelas fraquezas dela. Sentiu ânsia de a proteger do mundo pelo resto da vida. Logo, empreendeu no desafio de a conquistar para si. E ela se deixou conquistar, mesmo com receio, mas motivada por pura curiosidade. Então, conquistada, passou a ser mulher superprotegida pelo homem. Aldo, antes cheio de boas intenções, passou a nutrir um grave sentimento possessivo. Queria limitar toda e qualquer forma de Lara se fortalecer, se descobrir. Queria substituir a noção de mundo na cabeça dela pela noção de viver completamente voltada para ele. Queria ser o único e exclusivo universo daquela mulher. Mas mal sabia ele que não se apaga o mundo diante dos olhos dos curiosos. E que curiosidade é o primeiro ingrediente para a porção de fortalecimento que toda pessoa precisa para superar seus próprios receios. E esse ingrediente, Lara tinha em boas doses. Logo, tudo era apenas uma questão de tempo. Mais dias, menos dias... Ela iria descobrir o mundo. Iria se descobrir.

Olhar de elogios


 Freay's tears - Gustav Klimt

O marido nunca foi homem de elogiar. Mesmo assim ela aceitou viver ao lado dele. É que havia algo mais poderoso que o elogio: o olhar dele. Todas as vezes que ela se arrumava bem, o marido a olhava de uma maneira única, um olhar cheio de paixão e admiração. Era esse olhar que a enchia de graça e que a fazia tão bem. Porém, a velhice veio e o marido acabou cego. E a mulher teve que aprender a viver sem aqueles olhares apaixonados. Permaneceu ao lado dele, por consideração a todos os anos de amor. Mas perdeu a graça de antes. Até o dia em que, nos braços da morte, o marido cego a encarou no vazio e falou: "Você é a mulher mais linda que já conheci. Nunca deixou de ser. E certamente agora você deve estar encantadora. Obrigado por me permitir viver ao seu lado". Quem ali estivesse ou por ela passasse, veria uma viúva cheia de graça, como nunca se imaginou ser possível ver.

Sussurro antes do embarque


Trust (serie Lovers) - Lynn Noelle Rushton

Monta acampamento em mim. Sou terra fértil. Não tenho cercas, nem muros, nem limites. Mas sou lugar seguro. Não há como forasteiros adentrar esse território que sou. Porque sou lugar feito para ti. E só a ti te serve. Aposenta tuas mochilas e teus pares de tênis de viajante. Guarda as experiências de fugas pelo mundo no baú da memória. E vem erguer moradia aqui. Uma cabana simples. Uma fortaleza grandiosa. Ou qualquer outra estrutura que desejar. Apenas vem, pois em mim há um pouco de qualquer lugar que tu já tenha ido ou pensa em ir. Só que com uma diferença: aqui não há motivos para fugir, porque aqui não precisa ter medo de ser o que você é. Nem de mudar isso que você é. Essa terra suporta tuas nevascas, vendavais e primaveras. Todas as tuas transformações. Pois nasci para te sustentar. Para te servir de base. Eis minha felicidade: servir a tua felicidade. Então... Assenta nessa terra? Não embarca... Casa comigo?

Exercícios mentais


And the Bridegroom - Lucian Freud

A cada amanhecer, ela olhava o marido ao seu lado e se imaginava sem ele. Aquele exercício mental a fazia acordar sempre com os sentimentos de afeto renovados,  porque imaginar-se sem ele era doloroso demais para ela. A cada anoitecer, o marido observava a mulher pegar no sono e pensava que teria que ver aquela cena pro resto de sua vida. E sentia aquilo como uma rotina tediosa demais para suportar por tanto tempo. Logo, esse exercício mental dele foi destruindo o casamento. Acabaram se divorciando.
Divorciados, ela superou os fatos mais rápido do que pensava, pois aquela sua imaginação de outrora a tinha treinado psicologicamente para o pior.  Enquanto ele passou a sofrer pelo caos que ele mesmo provocou: sentiu falta daquela rotina segura que tinha e que, por pensar que seria para sempre, acabou destruindo.

Relacionamento interessante


The bed, the chair, the dancing watching - Eric Fischl

É desolador ver dia após dia minha velha companheira se esforçar tanto para manter nosso relacionamento interessante. Tem dia que amanheço com ela entre minhas pernas, debaixo dos lençóis. Tem tarde que ela me serve uma taça de vinho com a esperança de esquentar o sangue para a noite adentro. Tem noite que ela se fantasia toda, finge ser o que não é, ser o que todo homem adoraria ter – de acordo com as revistas femininas de autoajuda. Mas eu nunca pertenci a esse “padrão” masculino. O tempo não mudou meus apetites... E é diante desse fato que mais me entristeço: por que razão minha esposa passou a me desconhecer? O que a faz pensar que mudei para eu a querer mudada? Será a velhice e sua perda de memória? Será a rotina e sua ânsia de mudar e enfraquecer os relacionamentos? Não sei. Só sigo a observando, até ver aonde tudo isso vai nos levar.

Justo subconsciente


Quarto de hotel - Edward Hopper

Um dia, sonhou que traía seu marido. Acordou assustada, com tamanha repulsa do sonho, que chorou com raiva de si mesma. Imaginar praticar tamanha injustiça contra aquele que tanto dedicava amor a ela era um absurdo. O que o seu subconsciente tinha em mente para se manifestar daquele jeito? Não entendia. Até que no dia após o sonho, uma amiga a chamou para conversar. Muito cautelosamente, a amiga contou-lhe que havia visto seu marido traí-la. E, para piorar, ainda registrou o fato em fotos e vídeos. A sonhadora, diante daquela terrível notícia, compreendeu o recado dado pelo o seu subconsciente. Trair seu marido talvez não fosse uma má ideia. Injustiça contra um injusto traidor... Talvez, justo seja!

Amargo acordar


Sleeping Women - Tamara de Lempicka

Acordou pela primeira vez ao lado da esposa. Olhou as pálpebras dela ainda fechadas. Os lábios entreabertos, por onde passava uma respiração leve. Ao invés de se sentir encantada com aquele momento, se sentiu estranhamente amarga. Aquele seria mais um dia em que teria que encarar os olhares alheios surpresos e indignados. Pois aquela mulher ao seu lado era a razão dos seus dias terem se tornado cheios de críticas, sussurros mal intencionados, comentários falsos e sorrisos amarelados. Acabou se apaixonando por uma mulher de uma maneira que nenhum outro homem a fez se apaixonar. E com essa paixão veio todo o preconceito feroz da sociedade. Casada e amada, ela ainda não tinha certeza se seria capaz de enfrentar uma vida daquele jeito. Amargurada com aquele pensamento, fechou os olhos. Preferiu voltar a dormir.

A espera


Girl in white dress - Hollis Dunlap

A espera pelo marido começava ao entardecer, depois que todos os afazeres de casa já haviam acabado. Ela sempre lembrava o início do casamento: a pontualidade do marido em casa, disposto a jantar ao seu lado. Em seguida, sentia na alma as lembranças mais recentes de um marido que se atrasava, sem justificativas e sem paciência para nenhuma conversa.  Aquelas esperas já faziam parte de sua rotina. Até o velho sofá já tinha o formato do seu corpo. Suas noites passavam num sofrimento calado. Assim como os bons sentimentos que daquele casamento se afastavam.

Carta de divórcio



The dream - Pablo Picasso

Eu quero a ilusão calma de uma manhã sem ti. Eu quero o alívio de acordar do pesadelo de tê-lo por perto quando em vez. Eu quero o vazio da sala, quando bates a porta e sais gritando ao vento o quanto sou ingrata. Ingrata? Claro, não agradeço mesmo teus alardes, teus insultos de homem machista sem freio e tua burrice de homem que pensa que manda em casa. Eu continuo, em cada anoitecer, a desejar a infinitude das tuas noitadas, embriagadas e traíras, só para não ter que olhar na tua cara. Prefiro a cama só minha, pois ela é mais calorosa sem teus nojentos roncos.  Mas, acima de todos esses quereres, eu apenas quero que me compreendas, que me realizes e vai, de uma vez só, embora. Pois “a boa hora” da partida já passou há muito tempo. Vai! Em péssima hora, mas apenas vai! E gaste todos os teus escrúpulos com outra mulher, pois essa mulher, que te escreve essa carta, se apaixonou por outra pessoa: ela mesma! Completamente apaixonada por mim, te mando para bem longe – seu ingrato!

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.