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O paciente


Hartley - Alice Neel


"Minha vida está uma merda. Sei que tudo é uma tempestade feita em copo d'água. Isso só piora ainda mais o sentimento que guardo sobre mim. Odeio minha fraqueza. Não tenho forças para procurar fazer aquilo que realmente gosto. E naquilo que faço, coloco pouco esforço. Das coisas boas que tenho, sou muito desmerecedor. Nada consegui por trabalho próprio. Em nada vejo meus esmeros. Sinto-me um completo nada. Algo que vive uma vida medíocre e espera o dia do fim".
Depois desse desabafo, o psicanalista olhou profundamente no rosto transtornado daquele homem. Viu nele mais um paciente. Paciente da vida, não só paciente de consulta médica. Paciente não de paciência, mas de estar passivo. Era mais uma pessoa inteiramente passiva diante da vida. E que não acredita no potencial ativo que tem. Mais um paciente do tempo. Das circunstâncias em que acabou se inserindo. Mais um no universo de pessoas pacientes. Que não mudavam o que era. Que viviam aquilo que não queriam. O seu trabalho era tentar motivar essas pessoas a deixarem de ser pacientes. E eis um longo trabalho, por isso deixou seus devaneios de lado. Pôs-se a trabalhar.


Máscaras de Carnaval




Carnaval nos 4 cantos de Olinda - Olivia Castro Cranwell

Batucada retumbando. Chão tremendo quase na mesma frequência que os quadris das meninas. O ritmo carnavalesco num compasso rápido, tão rápido quanto os relacionamentos que ali se formavam e se desformavam. Um garrafa de cerveja se desfaz no chão, lançando seus cacos entre os confetes. Vidros que servirão de armadilhas pra aqueles seres dançantes desatentos. Mas ninguém estava preocupado com a possibilidade de se ferir. Ou em ferir os outros. Estavam todos feridos por dentro já. Vinham todos de um ano de trabalho árduo. De impostos roubados dos seus bolsos. De amores que não sobreviviam até o próximo carnaval. De insegurança pública que mata. E outras tantas feridas particulares. Eram soldados sobreviventes, diante de uma semana de folga das batalhas. Diante das ilusões, máscaras e fantasias do carnaval.

Carcereiro de si


Igor Morski

Uma lágrima correu solitária. Mas fraca, secou na metade do seu caminho. É que o terreno que percorria era árido demais. Há tempos que não era irrigado. Aquela lágrima foi a única que conseguiu escapar e tentar socorro. Viviam lágrimas presas dentro daquele homem. Ali dentro, havia sempre um pranto farto. Mas por fora, ninguém percebia. Sem ajuda, as lágrimas sufocavam ali dentro. E se multiplicavam, aumentando mais o sufoco. Então, aquela corajosa lágrima foi a única que conseguira suplicar ajuda externa. Porém, falecida lágrima, não teve força persuasiva. Ninguém notou o lamento interno do homem. Ninguém notou o pranto por trás da máscara árida de fortaleza. Ninguém libertou as tantas lágrimas presas em cárcere. O homem continuou sufocando. Continuou sufocado.

Café e suspiros


Coffee cup heart reflection - Nina Robinson

Primeiro, me apaixonei pelo aroma do café que ela fazia todas as manhãs. Era um cheiro que adentrava meu apartamento com a mesma intensidade que sua imagem adentrava minha alma todas as vezes que eu a via. Era linda. Morena da cor de café. Um jeito fluido e decidido de ser. Um dia, não resisti. Bati na porta do apartamento vizinho, onde ela morava. Fui com toda cara de pau que tinha, me ofereci para tomar o café. Ela não hesitou - que mulher! - e deixou-me entrar. Enquanto ela servia uma farta xícara de café, eu ofereci suspiros - os doces, claro, para iniciar. Experimentei o café... Amargo! Tão amargo quanto a história de vida que aquela negra começou a me contar. Enquanto eu só tinha a contar uma doce história de vida. E você pensa que eu achei ruim? Não achei, só me encantei. Cada vez que o amargor se tornava insuportável, eu jogava para dentro da boca um suspiro e o açúcar era como tomar um fôlego. E senti que os suspiros eram o mesmo para ela. Acredito que era bem isso que ela precisava. E eu também. Um equilíbrio que jamais imaginaríamos viver. Entre o amargo e o doce, um café e um suspiro, uma paixão.


E se?

 

Sorrowing Old Man (At Eternity's gate) - Vincent van Gogh

Se você pudesse escolher qual batalha travar, qual escolheria? Se pudesse escolher quanto tempo atrás retornar, quanto tempo voltaria? E se pudesse escolher alguém para ressuscitar, quem seria? Quantos passos para trás daria? Quais palavras calaria? Quantas horas pausaria? Quais decisões mudaria? Quais dessas perguntas responderia? Quais? Quantas? Quem? Por quê?... E se não houvesse interrogações, seria menos complexo viver? Naquele instante, o velho resolveu responder essa última pergunta que surgia em sua mente. Apenas fechou os olhos e imaginou seus primeiros dias de vida, em que a arte de interrogar ainda não era conhecida. Ah!... Por aquele breve instante, suspirou aliviado ao sentir o quão fácil, natural e simples era viver! Porém esse instante findou-se logo em seguida: "Mas será se era assim mesmo a vida? Ou só na minha imaginação é que assim seria?".

De coração


Crepuscular Old Man (1917-1918) - Salvador Dali

Disseram-lhe que tinha uma bomba relógio dentro do peito. Recordou que desde menino acreditava que guardava no peito o poder de ser um super homem. Descobriu na adolescência que esse poder também era capaz de o tornar frágil. Usou para o mal e para o bem todo potencial daquilo que tinha dentro do peito. Desde as mais criativas histórias de criança às paixões e intrigas. Dos planos de filantropia aos planos de vingança. Em tudo, agia muito com o coração. Mas hoje ouviu que aquele mesmo órgão poderoso agora tinha uma contagem a correr regressivamente. E quando findasse essa contagem, o levaria junto para o seu fim. O coração que o fez viver de forma tão intensa desde menino, era o mesmo que o levava a morrer. Vivia e morreria em razão daquilo que guardava dentro do peito.

Injustificados


Operários - Tarsila do Amaral

Ela era mais uma na multidão e observava. Não eram mais jovens. Aceitando isso, uns vão desistindo. Retornam as suas origens ou adotam uma residência, um trabalho, contas a pagar, filhos para criar. Abandonam seus passados de juventude selvagem. Juventude fugitiva. Abandono doloroso, mas necessário. Já não são mais jovens, afinal. E é a juventude que justifica a loucura que é fugir da reta, buscar fazer aquilo que se realmente ama ou buscar não fazer nada, simplesmente. A juventude, esse estado temporal que permite a todos se permitir. Mas que finda. E sem essa justificativa, ou rumam suas vidas para a reta ou passam a viver como incompreendidos, inconsequentes, incompetentes, irresponsáveis – coisas que já eram quando jovens, só que agora sem a tal justificativa: a juventude. E ela era uma dentre esses tantos injustificados.

Fórmula vital

 

Camilla - Anna e Elena Balbusso

Ela era como uma flor, necessitava ser regada. E a água que a melhor hidratava era a atenção dele. Sim, ela precisava da atenção diária dele para parecer viva. Caso ele não desse atenção, ela murchava. Perdia a cor. Parecia morta. E isso ocorria por mais que ela soubesse que ele a amava, por mais que houvesse amor como nutrientes no solo em que a flor estava fixada... É que não basta somente os nutrientes do solo para manter uma flor vivaz. É preciso água - esse precioso meio que distribui os nutrientes. Assim, para aquela flor específica, não era o amor por si só que a sustentava. Era o amor atencioso. Eis a fórmula vital daquela flor-mulher.

Vingou-se


Rostro 2 - Rossina Bossio

Depois que a irmã mais velha roubou o seu namorado platônico, ela contou para os pais que a irmã havia perdido a virgindade muito cedo. Os pais castigaram a filha mais velha, mandando ela para um internato. Assim, se vingou. Depois que o marido pediu divórcio, ela encheu a cabeça do filho pequeno de coisas ruins sobre o pai. O filho nunca teve um bom relacionamento com o pai. Assim, se vingou. Depois que uma amiga a reprovou por ela se comportar de forma tão mesquinha, ela acabou com a amizade e espalhou a todas as outras amigas que aquela era falsa, que sempre falava mal das outras. Assim, se vingou. Essas e outras memórias rondavam a mente daquela mulher, enquanto ela estava na quimioterapia. Percebeu que todos os momentos felizes da sua vida foram sempre ligados à vingança. Mas que nunca havia sentido a felicidade de fato. Mas ao invés de voltar atrás e pedir perdão por suas vinganças, a mulher, com tanta raiva de si e sem muitas chances de vencer aquela doença que a alcançou tão cedo, desistiu de se cuidar e passou a esperar sua morte chegar. Quando morresse, se vingaria de si mesma. E aquele seria seu último momento feliz.

Tabuleiro em construção


Evgeniy Monahov


A morte é algo realmente desconsertante. Não dá para viver só pensando nela. Tampouco dá para viver sem pensar nela. Se se vive pensando na morte, não se tem sossego na mente para desfrutar das felicidades que surgem na vida. Se se vive sem pensar na morte, não se dá o devido valor a essas felicidades. A morte é coisa que não se pode exagerar, nem menosprezar. Ela vem e vai, quando em vez, para te lembrar que nada é constante. Ela vem, desconserta algo aqui, retira uma peça do tabuleiro da vida, e deixa espaço para os vivos consertarem. Para que provem suas capacidades de reconstruir. E seguir construindo e reconstruindo, com a medida certa de consciência da morte, até que seja nossa vez de sermos retirados desse tabuleiro em construção.

Oração esperançosa


Aunt Dale in Contemplation - David Jon Kassan 

Subiu as escadas e se recolheu em um canto onde ninguém costumava ir. Entrelaçou os dedos das mãos, com força. Permaneceu de olhos abertos, para se certificar que ninguém se aproximava. Começou a sussurrar uma oração - ou ao menos era o que pensava ser aqueles versos que aprendera quando ainda nem sabia o que era a vida. Mas agora que sabia o que era a vida e sentia tão perto o perigo da morte, queria acreditar que aquela oração surtiria efeitos. Há muito que a tradição de fé havia se tornado minoritária. Os jovens eram crentes da ciência. Assim ela também o era... Até que recebeu a notícia de que a ciência não a salvaria. Então resolveu orar, porque as soluções dos mais novos, por mais racionais que fossem, não estava levando a lugar algum. Quem sabe a solução dos antigos resolvesse seu problema? Entre um mundo de fé e um mundo de ciência, ela ainda pertencia ao mundo dos esperançosos. Para ela, não importavam os meios. O importante era o fim: não deixar sua vida chegar ao fim.

Eternos planos




Seek - Iyan de Jesus

Tinha marcado no celular uma porção de despertadores, que nunca a acordava. Na estante do quarto, tinha um tanto de livros, que nunca lera. Guardava todas aquelas calças, que antes vestia bem, porque tinha planos de começar a dieta logo amanhã. Na bolsa, carregava sempre aquela agenda, com listas de tarefas - que nunca conseguia completar e passavam sempre para o dia seguinte. Eram tantos os seus planos que nunca se concretizavam. Mas nem por isso, ela se deixava desanimar: mantinha uma profunda fé no amanhã. Ainda que fosse mais um de seus eternos planos "ter mais fé na vida".

Passado e ela



Close your eyes - Wlodzimierz Kuklinski

Virou as costas. Retornava para o presente. Mas ficou sentindo os olhos do passado a acompanhá-la. Insistentes e pesados olhos. No caminho do retorno, ela se sentiu triste, extremamente pesada, como se cada passo tivesse que levantar toneladas de ressentimentos do passado. Este que a culpava por não ser o presente e que dizia que, não importava o futuro, sempre estaria presente. Ela, que não tinha culpa alguma, continuava na luta do passo-a-passo. Todos esses ressentimentos frutos da falta do entendimento de um fato: todos eles – passado, presente e ela – eram brinquedos da Vida. A Vida que brinca sem dó.

O presente do futuro



Lovers in the lilacs - Marc Chagall

Eram muitas expectativas dentro de si, que doía respirar. Era muita palpitação para um só coração. Eram sonhos demais dentro de uma só mente imaginativa. Cansava viver assim tão intensamente, sempre de olho no futuro. Até que conheceu um outro coração palpitante. Seu salvador. Aquele que conseguiu trazer o olhar dela para o presente. O presente que era ele. Presente que o futuro - tão desejado por ela - reservou. E ela recebeu de mente aberta, coração acelerado e respiração arfante, aquele presente. Compartilhou com ele seus sonhos, expectativas e palpitações. Passou a viver de forma menos dolorida. De forma mais vivida.

Nas ruas


Suspended - Christopher St. Leger

Ninguém nunca parou qualquer caminhada para lhe perguntar a razão para ele ter ido parar ali, nas ruas. Se perguntassem iriam se espantar. Na verdade é inacreditável pensar em alguém que abandonou tudo o que possuía para viver de nada. Viver no nada. Mas foi isso que ele fez e assim que vivia. Como mendigo, ele não tinha casa para cuidar, pessoas com quem se importar, contas para pagar. Apenas precisava sobreviver dia após dia. E tinha a possibilidade de mudar a rota quando bem desejasse. E tinha todos os variados comportamentos alheios e situações diversas para observar e quebrar sua rotina. Observava aquelas pessoas indo e vindo e nenhum sentimento de inveja lhe surgia. Aquela era a vida que sempre havia desejado. Nas ruas, viveria e morreria.

Curtidas


Still Moment in Teal - Jeremy Mann

A neta nunca foi muito simpática com a avó, mas, alguns segundos atrás, a jovem pediu para tirar uma foto com ela. Toda sorridente, envolvida num abraço meigo. O primeiro abraço que recebera da neta, que se lembrava. Depois do flash, a jovem voltou ao rosto fechado, sentou-se e se curvou sobre o celular. A avó sabia que algum sério problema deveria haver com aquela geração. Tudo deveria ser registrado e posto na tal internet. Não importa se falso ou verdadeiro. O que importava eram as curtidas virtuais. E curtir a realidade? Nada.

Carta de herança


The artist's father on sick bed - Franz Marc

   Queridos filhos,

Estou inteiramente velho. Corpo e mente. As articulações estão de tal forma envelhecidas que quaisquer estralos são prenúncios da morte. Mas ainda me sobrou forças e sanidade para escrever essa breve carta a vocês. Serei direto: quando eu morrer, por favor, não decretem guerra pelos os meus patrimônios. Vocês são irmãos e mesmo com suas diferenças, com o tratamento específico que dei a cada um (porque nenhum pai trata seus filhos de modo igual), não há motivo para serem rivais em razão de bens materiais. Serão mal vistos. Mas, mais do que a aparência, o que me preocupa é o caráter de cada um de vocês. Quero morrer deixando essa mensagem em prol de um caráter íntegro e imaterial. Pois isso é o que importa. A morte vem e o que fica não é o patrimônio que obtive - este logo se desfaz - mas o caráter que tive. E eu bem que poderia estar fazendo um testamento ao invés dessa carta... Mas deixarei a tarefa materialista para o destino. Reservei-me da tarefa mais nobre. E é com essa mais pura nobreza que, então, me despeço, 
Seu velho.

Olhos enxutos


Q Train - Nigel Van Wieck

Ela sentou-se no banco do metrô vazio e esperou as lágrimas descerem. Mas elas não desceram. E ficou ainda mais triste com isso. Na sua infância distante, o choro costumava ser sua redenção. O lugar-comum dos seus alívios. Porém, parece que, além da sua inocência, o tempo levou também sua capacidade de chorar. Mesmo com tantas decepções acumuladas, mesmo com todo aquele sentimento de tempo perdido... Não pôde contar com suas próprias lágrimas. Era o cúmulo da solidão. O atestado da sua imensa fragilidade. Ali ficou, no banco daquele metrô, uma recém-adulta só e frágil. Voltas e mais voltas, de olhos vazios.

Sua perfeita escolha


Suicide - Amber Christian Osterhout

Uma bela casa, carro, emprego. Uma família unida, pais fiéis e dedicados ao extremo. Formou-se na melhor faculdade, no curso mais promissor. Ao seu lado, a mais bela das mulheres. Tinha saúde física, amigos, ótima condição financeira. O mundo parecia estar aos seus pés. Sua vida era perfeita aos olhos de todos. Vivia tudo aquilo que sonharam para ele, mas nada que ele havia escolhido. Quando fez sua primeira escolha, o estômago embrulhou, as lágrimas escorreram, não conseguia respirar e o coração acelerou... Até parar. O sorriso que restou estampado no seu rosto foi o único e verdadeiro pela primeira e última vez. Tornou-se o homem mais feliz do mundo naquele breve momento de adeus.

Em parceria com Raphael Craveiro.

O imprevisto


Drag - Zack Zdrale

Nunca soube como lidar com a imprevisibilidade da vida. Quanto mais admitia isso para si mesmo, mais surgiam situações fortuitas no seu dia-a-dia. Frustrava-se cotidianamente. Vivia em um inconformismo quase absoluto. Sentia que não tinha capacidade de planejamento. O que ganhava era sempre uma profunda descrença em si mesmo ou uma raiva impertinente das pessoas ao seu redor. Como podia ser a vida assim tão inesperada? E então, em um desses acontecimentos imprevistos da vida, toda a raiva, o inconformismo e a frustação se acabaram. Uma causa completamente imprevista o atingiu. Morreu de forma tão fugaz que nem teve tempo de refletir sobre a impermanência daquela sua vida. Cessou-se, para ele, o imprevisto.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.