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Última tragada de ilusão



Fabian Perez

Com o cigarro queimando entre seus lábios, lembrou o fascínio que era fumar a algumas décadas atrás. Ouvira um dia desses algum jovem metido a intelectual afirmar que o mundo está se encaminhando para a decadência... Com isso, ele tinha que concordar, afinal de contas por que toda essa preocupação com os vícios das pessoas? Deixava o cigarro e a moral dele em paz e fossem procurar imoralidades nas próprias vidas, mas dizer que fumar era ruim? Feio? Ah, tantas mulheres caíram nos braços dele por conta de uma tragada profunda... É, o passado sempre soava mais brilhante. O futuro estava cada vez mais banal.
Agora fumava o último cigarro da última carteira, pois se entregara aos tratamentos contra um câncer no pulmão, que diziam ser causado pelo fumo. Mentira, pensava ele. Aquele câncer é coisa de fim da vida, natural a qualquer ser humano vivo. Apenas chegava o seu fim e a opção do seu corpo fora por um câncer... Poderia ser outra doença, ora.
Porém, o último cigarro cessou. A nicotina foi passando; o seu efeito e as ilusões, também. A realidade não era mentira, a doença e sua causa, também não.

Memória apagada


Netley Hospital - Paul Smyth

Uma pancada na cabeça e foi parar na área de urgência do hospital. Medidas médicas tomadas e o diagnóstico no outro dia apontava que o homem perdera a memória. Entraram em contato com a esposa e os filhos, e estes foram imediatamente se apresentar diante do paciente. Nada. Eram todos estranhos para o acidentado. Mas ainda mais estranho foi o largo sorriso de alívio e satisfação que a mulher e as crianças deram diante da situação. “Obrigada, meu Deus! Finalmente iremos nos livrar desse homem ruim!”. A mulher deixou o número da conta bancário do homem na recepção para que ele pudesse sobreviver dali por diante sem família. Ela esperava que aquela vida recomeçada trouxesse um homem melhor. Já o recomeço dela e de seus filhos estava perfeito demais.

Intocada



Ezquizofrenia II - Denis Nuñez Rodríguez

“Sabia que eu não permito que ninguém toque em você? Você deveria parar de surtar comigo, deveria me agradecer. Estou te protegendo, sabia? Hein, sabia? Pare de falar alto, ninguém precisa saber que estou do seu lado. Mas, olhe bem, eles são pessoas ruins; eles não podem tocar em você, por isso eu estou aqui... Sim, sim, eu estou aqui para te mostrar o quanto eles são ruins...”. Essa voz não se rendia aos altos lamentos da mulher. De fato, mesmo andando entre multidões, ela nunca sentiu alguém esbarrar nela. Todos se afastavam, não porque ela estava protegida como aquela voz bem repetia, mas porque todos sentiam repulsa e medo diante de uma mulher que falava sozinha, aos gritos, implorando para que a deixassem em paz. Ninguém entendia sua esquizofrenia. Ninguém, assim, poderia ajudá-la. E ajuda era o que mais ela precisava.

Ansioso violeiro


Dream in a dream - Fabian Perez


Dedilhando as cordas do violão velho, ficou esperando o mês de setembro acabar. Ficou aflito pelo começo de outubro. Ansioso pelo final do ano. E tinha todos os motivos para aquela sua derradeira espera. Já não possuía nada: perdera a família, os amores passaram, as dívidas cessaram. Desistira dos negócios; entregou-se a vida solitária. E, como um xeque mate, descobrira que sua vida minguava pouco a pouco devido a uma doença irreversível.
Aquela última descoberta servira como uma ótima ‘carapuça’. Já não tinha forças – nem vontade – de recuperar o tempo perdido, voltar à vida social, tentar um recomeço. Descobrir que o seu tempo estava acabando era reconfortante, pois já não ansiava por mais nada. Ou melhor, ansiava sim: pelo final dos seus dias. E, ansioso, continuou a dedilhar o violão.

Águas divididas



sem título - Edouard Manet

Ser empregado tinha suas particularidades. Uma delas parecia gritante frente às outras: a separação das águas entre os donos ricos da casa e os empregados pobres. Havia uma garrafa na geladeira com água mineral para os primeiros, enquanto para os últimos, uma garrafa com água direto da torneira. O trabalho duro de limpeza era todo refrescado nos goles da água da torneira, enquanto o rico ócio era compensado com goles de água comprada, industrializada.
Um dia, porém, um empregado quebrou as regras e bebeu a água mineral. Amanheceu no outro dia gravemente doente. O diagnóstico do médico – que a dona da casa teve a piedade de pagar – apontava ser uma infecção por bactéria transmitida por meio da água. Pelo visto o organismo do empregado não era forte ou acostumado com o outro tipo do líquido.
Muito doente e beirando a morte, a última frase que ouviu antes de falecer foi: “pobre é assim, quando tenta ser rico, se estrepa”.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.