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Carta de herança


The artist's father on sick bed - Franz Marc

   Queridos filhos,

Estou inteiramente velho. Corpo e mente. As articulações estão de tal forma envelhecidas que quaisquer estralos são prenúncios da morte. Mas ainda me sobrou forças e sanidade para escrever essa breve carta a vocês. Serei direto: quando eu morrer, por favor, não decretem guerra pelos os meus patrimônios. Vocês são irmãos e mesmo com suas diferenças, com o tratamento específico que dei a cada um (porque nenhum pai trata seus filhos de modo igual), não há motivo para serem rivais em razão de bens materiais. Serão mal vistos. Mas, mais do que a aparência, o que me preocupa é o caráter de cada um de vocês. Quero morrer deixando essa mensagem em prol de um caráter íntegro e imaterial. Pois isso é o que importa. A morte vem e o que fica não é o patrimônio que obtive - este logo se desfaz - mas o caráter que tive. E eu bem que poderia estar fazendo um testamento ao invés dessa carta... Mas deixarei a tarefa materialista para o destino. Reservei-me da tarefa mais nobre. E é com essa mais pura nobreza que, então, me despeço, 
Seu velho.

Última lição - o vazio da morte


Death and Life - Gustav Klimt


Aos dez anos, suportou a morte de seu pequeno peixe. O pai optou por preencher o vazio dele com um cachorrinho - que viveria mais. Aos vinte anos, a morte levou esse cachorrinho. A dor foi maior e o pai lastimou não ter previsto tamanho sofrimento. O jovem desistiu de criar animais; resolveu preencher o vazio com os humanos. A dor persistiu: ora a morte resolve levar seus avós queridos, ora os amigos próximos desapareciam como se tivessem morrido. O homem resolve, então, constituir uma família - esposa, filho e filha. A esperança do resto da vida ao lado desses preencheu seu novo vazio. Mas eis que recebe a notícia do aproximar da morte do pai e percebe que logo teria que suportar um vazio lancinante. Chorando no leito do seu velho, ouviu sair da boca deste essas palavras:
“Meu filho, me perdoe. Há muitos anos atrás, eu perdi a oportunidade de lhe ensinar a viver de verdade. Quando você tinha dez anos, com o seu pequenino peixe morto nas mãos, eu deveria ter lhe ensinado que a morte é insuperável e que ela faz parte da vida. Aceitá-la é viver. Mas ao invés disso, ensinei-o a preencher o vazio e agora você é um homem triste, cheio de lembranças vazias, sofrimentos calados, dores profundas… Isso foi o maior mal que cometi em vida, então peço que me perdoe e aprenda essa última lição. Aprenda, por favor, pois só assim posso morrer mais vívido e deixar você viver sem vazios”.
Essas palavras foram como raio de luz na escuridão da alma daquele homem que chorava. E o olhar iluminado do filho foi suficiente para o pai compreender que conseguiu seu perdão. A morte veio tantas outras vezes. O vazio, não.

Som do café


Xícaras - Valéria Vidigal

Ele gostava de ouvir o barulho da cafeteira em plena seis da manhã. Sentava ao lado da máquina e silenciosamente esperava pelos roncos da água quente trespassando o pó de café. Ela, como boa filha que era, nunca ousava interromper aquele momento de contemplação dele. O bom dia sempre vinha depois do primeiro gole de café do pai. E aquela cena se repetia como oração em casa de religiosos. A religião do seu pai era o barulho do café quente.
Hoje, não o tinha mais. Ele partira dessa para melhor… Ou para pior, vai saber! Mas todos os dias, em plena seis da manhã, ela sabia que o café estaria sendo feito em algum outro plano da existência. Lá estaria, seu pai - cafeteiro de deuses e demônios.

Paternidade velha



Washington prays for America - Rubber Durk

“Papai, minha professora me deu meio ponto por uma resposta bem respondida hoje...”. Sentado na escadaria da praça, ouviu a lembrança de mais um início de conversa morrendo. Recordou o garotinho, com a voz fininha, tentando todos os dias chamar atenção daquele homem majestoso, ocupado com os artigos do jornal. Também ouviu os decretos de pena de morte das conversas dados através de algum “hum” e “aham”.
Aquelas iniciativas do filho diminuíram, enfraqueciam-se diante da frieza paternal. As novidades tornaram-se segredos. A juventude os afastou. O pai, ficando velho, largou os jornais devido à dificuldade na visão para a leitura e, aposentado, passou mais tempo dentro de casa. Percebeu que não havia ninguém para conversar com ele. O tempo fez crescer o garotinho e o arrancou da casa daquele velho. Não mais teria aquela voz fininha e nem teve longos registros da voz grave que o tempo transformou... O pai velho nunca teve o prazer de ser chamado de velho pai.

Herdeiros



The family - Gustav Klimt

Ela era tão feliz: possuía o homem da sua vida e acabara de dar vida a uma criança linda. O homem era tão feliz: acabara de possuir um filho, herdeiro e criatura a quem ele passaria todos os seus conhecimentos. A criança recém-nascida seria infeliz: acabaria entendendo que sua mãe só o colocou no mundo para segurar o marido, e teria que viver debaixo das garras de um pai rígido e inflexível, para quem tudo o que sabia era o correto, nada mais. Seriam esses três mais uma família que pensa ser feliz, carregada de heranças infelizes.

Teias de aranha



Little Acrobat - Kirsten Bailey

Encontrei hoje dentro da sua xícara de café uma teia de aranha. Perguntei-me  qual aranha ousou invadir seu santuário para construir um ninho. Não obtive respostas... Assim como também não ouço mais suas indagações infantis de como a vida se realiza. Saudades de suas indagações. Saudades suas me consomem. Mas não se preocupe, não deixei a saudade me abalar, tratei de lavar sua xícara e recolocá-la na mesa. Um dia, tenho certeza disso, você irá retornar dessa sua fuga e eu, como uma verdadeira mãe que sou, irei recebê-lo com um café quentinho em mãos. Falando em café, tenho que tirar o papeiro do fogo...
De longe, o marido ouvia o monólogo da esposa de frente ao retrato do filho. Este saíra de casa jurando nunca mais voltar. E nunca mais voltaria mesmo... Há quase um ano, descobriram o corpo do adolescente morto por envenenamento. Veneno de aranha.

Inférteis


In daddy's hands - Mats Eriksson


Casados a mais de vinte anos, nunca tiveram filhos. A princípio, porque queriam curtir o tempo, infinitamente devotados um ao outro. Logo após, porque não se julgavam preparados para educar uma criança. E agora, porque não conseguiam conceber a vida. Passaram a viver uma longa saga pela busca da gravidez. Foram envelhecendo ainda novos. Quem os visse saindo das clínicas de fertilização, perceberia um casal de jovens caducos.
Depois de anos tentando, nasceu uma bela criança. Mas a vitória não fora suficiente para apagar a caduquice que tomou conta do casal. A criança – que não queria nascer – ganhara como pais um casal de velhos desgastados. Um casal infertilizado.

Lembranças


Mynheer's Lunch - William Michael Harnett


Reuniu todos os pertences do seu pai falecido. Cada objeto era agraciado com memórias fortes, antes de ser depositado na caixa. O cachimbo ainda tinha vestígios do fumo queimado e cheiro de doença; a velha caneca de cerveja tinha nas dobradiças o escuro da despreocupada sujeira; o último jornal, com todas as letras ‘o’ pintadas – passatempo este que ela também pegou como mania; até mesmo os fósforos das esquinas da casa estavam ali para testemunhar os modos do seu pai. Era sempre bêbado, sempre bruto e sábio. Tinha sempre nos olhos o desejo de mais fumo e a vontade de ver sua filha feliz.
Agora jaziam dentro da caixa todas as lembranças de uma personalidade inesquecível. Ela tentaria, mesmo assim, esquecer, pois uma vez seu pai disse, depois de uma longa tragada no cachimbo: “Leve suas lembranças todas para o fundo de uma caixa e esqueça-as. Você não precisa delas para ser feliz.”.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.