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Reflexões (i)lógicas


Mary Jane Ansell

Não podia dizer que era uma pessoa sozinha. Tinha muitos amigos. Vivia dias movimentados. Sua cabeça estava quase sempre a mil por hora. Seus dedos, sempre teclando para a conectar ao mundo. E, de vez em quando, dormia acompanhada para satisfazer seus apetites. Mas, apesar disso tudo, não conseguia fugir daqueles momentos. Quando as notificações do celular silenciam. Quando a mente reduz a velocidade. Quando ninguém aquece sua cama. Quando nenhum amigo a recorda. E, assim, sozinha, no final de um longo dia, apenas o som do nada a rodeia. E um sentimento de grande vazio preenche seu peito. Por alguns instantes, desacelera e para de correr atrás do mundo. Nota o ser que há ali dentro de si. E sente aquela estranha sensação de que algo está errado na forma como todos estão vivendo. Pensa no porquê de todos estarmos correndo de nós mesmos. Tentando nos manter conectados a todos e ao mesmo tempo a ninguém. Fugindo para aquele fim de estarmos juntos, mas no fundo isolados. Porém, logo ela fecha os olhos. Adormece. E amanhece de novo. Para um mundo em que a solidão não tem lógica.

Carcereiro de si


Igor Morski

Uma lágrima correu solitária. Mas fraca, secou na metade do seu caminho. É que o terreno que percorria era árido demais. Há tempos que não era irrigado. Aquela lágrima foi a única que conseguiu escapar e tentar socorro. Viviam lágrimas presas dentro daquele homem. Ali dentro, havia sempre um pranto farto. Mas por fora, ninguém percebia. Sem ajuda, as lágrimas sufocavam ali dentro. E se multiplicavam, aumentando mais o sufoco. Então, aquela corajosa lágrima foi a única que conseguira suplicar ajuda externa. Porém, falecida lágrima, não teve força persuasiva. Ninguém notou o lamento interno do homem. Ninguém notou o pranto por trás da máscara árida de fortaleza. Ninguém libertou as tantas lágrimas presas em cárcere. O homem continuou sufocando. Continuou sufocado.

E se?

 

Sorrowing Old Man (At Eternity's gate) - Vincent van Gogh

Se você pudesse escolher qual batalha travar, qual escolheria? Se pudesse escolher quanto tempo atrás retornar, quanto tempo voltaria? E se pudesse escolher alguém para ressuscitar, quem seria? Quantos passos para trás daria? Quais palavras calaria? Quantas horas pausaria? Quais decisões mudaria? Quais dessas perguntas responderia? Quais? Quantas? Quem? Por quê?... E se não houvesse interrogações, seria menos complexo viver? Naquele instante, o velho resolveu responder essa última pergunta que surgia em sua mente. Apenas fechou os olhos e imaginou seus primeiros dias de vida, em que a arte de interrogar ainda não era conhecida. Ah!... Por aquele breve instante, suspirou aliviado ao sentir o quão fácil, natural e simples era viver! Porém esse instante findou-se logo em seguida: "Mas será se era assim mesmo a vida? Ou só na minha imaginação é que assim seria?".

Derrota solitária


Androniki - Giorgos Rorris

Esse é aquele momento em que a solidão vem e ataca. Pensou. Repousou as costas doloridas na poltrona. Buscou o sono, sua arma para tentar rebater o ataque, mas se lembrou que, há alguns meses, a insônia também tinha a atingido. Então, insone, teve que se render novamente. Sentir a dor de estar sozinha. Mais um dia a terminar assim. Sabia que esse era o preço que tinha que pagar por ter vivido daquela forma tão egoísta. As pessoas que pareciam na sua juventude tão substituíveis, tão descartáveis, agora pareciam tão fundamentais no auge dos seus cinquenta. Porém, ninguém permaneceu ao seu lado. E ela merecia aquela solidão. Por isso, não lutava mais. Deitaria e deixaria escorrer as lágrimas no rosto - sangues de mais uma derrota - até adormecer por umas poucas horas. Até acordar e viver mais um dia.

Filtro de sonhos


The dreamcatcher - Emma Bazan

Desde o dia em que tatuou um filtro dos sonhos na pele de suas costas, nunca mais se envolveu em romances. A princípio, julgou ser preconceito dos homens com relação às mulheres tatuadas. Passado um tempo, pensou que estivesse em uma fase de solteirisse. Mas anos se arrastaram sem nenhum relacionamento se manter por mais de um dia e, então, começou a se questionar se seria aquela tatuagem que estava afastando-a de viver os pesadelos que eram os relacionamentos mal sucedidos de antes. Cansada da solidão, voltou ao tatuador e mandou desenhar uma paisagem qualquer por cima daquele filtro dos sonhos. Preferia viver a ilusão dos romances, e pagar sofrendo com os pesadelos dos finais, do que viver sozinha, à espera pelo sonho de um eterno amor verdadeiro.

Teatro solitário




Conversation - Zack Zdrale

Era ator de teatro. Não só dentro, mas também fora do palco. Costumava usar a técnica teatral de se despersonalizar no dia-a-dia, sempre que surgiam situações complicadas ou sentimentos indesejados. A cada notícia ruim, para não ficar magoado ou enraivecido, fingia não ser ele mesmo. Atuava um personagem qualquer. E assim, nenhum problema o atingia, estando logo no outro dia plenamente recuperado. Mas o que ele não notava era a desconfiança que as pessoas tinham dele toda vez que ele assim se comportava. E era chamado de falso, artificial, insensível. Foi ficando cada vez mais sozinho. Aquilo que para ele era estratégia de sobrevivência, um meio de se proteger dos sofrimentos humanos, se tornou uma armadilha social pra si. Era livre dos problemas. Mas isolado das verdadeiras convivências.

Dançarina


Cheryl Naked - Romero Britto 

Ela sambava, requebrava e sambava. E não sabia se estava realmente sambando. Parecia estar pulando. Mas fechava os olhos, soltando o gingado. Sentia a energia extravasar por todo o corpo. E ofegava, mas sorria para parecer bonita. Era aquele seu sorriso o mais sincero. Os músculos do rosto esticados, os músculos das pernas pulsando. E descia até o chão e desequilibrava. Porém aquela falta de equilíbrio era só um toque na coreografia, que logo ia completando com um giro e outro rebolado. Até cair na cama e abrir os olhos para o teto. O peito arfando de cansaço, mas de prazer. Dançava sem se preocupar com julgamento de nenhum público. O seu quarto era o local de seu espetáculo diário. E solitário.

Olhos enxutos


Q Train - Nigel Van Wieck

Ela sentou-se no banco do metrô vazio e esperou as lágrimas descerem. Mas elas não desceram. E ficou ainda mais triste com isso. Na sua infância distante, o choro costumava ser sua redenção. O lugar-comum dos seus alívios. Porém, parece que, além da sua inocência, o tempo levou também sua capacidade de chorar. Mesmo com tantas decepções acumuladas, mesmo com todo aquele sentimento de tempo perdido... Não pôde contar com suas próprias lágrimas. Era o cúmulo da solidão. O atestado da sua imensa fragilidade. Ali ficou, no banco daquele metrô, uma recém-adulta só e frágil. Voltas e mais voltas, de olhos vazios.

A espera


Girl in white dress - Hollis Dunlap

A espera pelo marido começava ao entardecer, depois que todos os afazeres de casa já haviam acabado. Ela sempre lembrava o início do casamento: a pontualidade do marido em casa, disposto a jantar ao seu lado. Em seguida, sentia na alma as lembranças mais recentes de um marido que se atrasava, sem justificativas e sem paciência para nenhuma conversa.  Aquelas esperas já faziam parte de sua rotina. Até o velho sofá já tinha o formato do seu corpo. Suas noites passavam num sofrimento calado. Assim como os bons sentimentos que daquele casamento se afastavam.

Traumas


Male Nude Model - Henri Matisse

Ele passou a ter sérios problemas para ficar sozinho na sua própria casa depois daquele dia. Aquele traumático dia. Não, ele não podia revisar aquele dia mentalmente, pois seria capaz de invocar o caos universal dentro de si mesmo. A questão é que – para uma pessoa que adorava ficar sozinha – aquele seu complexo de repulsa à solidão estava o tirando do estado espiritual normal. Queria superar seu trauma. Voltar a sentir prazer na solidão... E conseguiu isso à medida que ia tentando fugir desta, buscando companhia de outros e descobrindo, com isso, a amargura das amizades superficiais, a falsidade dos parentes cansativos, a obsessão dos muitos templos religiosos, o vazio das ruas e festas urbanas. Esses dias, em que não esteve sozinho, o encheram de traumas. Eram verdades nuas e cruas. E, então, recordou do aconchego de sua própria casa. Dos dias em que fora feliz consigo mesmo, na companhia de um livro, um café, uma cama ou um filme. Redobrou suas forças e encarou as paredes vazias da sua residência. Voltou a frequentar a sua própria solidão. Fugindo dos traumas da sociedade, curou seu próprio trauma.

Domingo





Window with view on the Island Bréhat - Marc Chagall

Um incenso queimando. Na caneca verde, um chá de maça e canela esfriando. A solidão, deitada na cama, chamava para dormir. Lá fora, os pássaros riam. Lá dentro, as faltas e os excessos se batiam. Despencava dos olhos o peso daquele domingo, formando ali um inchaço escurecido. Nem som, nem companhia, nem nada. Apenas a espera pela segunda.

O ocaso da solidão



Reflections in the sun - Fabian Perez

Tinha se acostumado com a sua solidão. Até que sorrateiramente sentiu-se acompanhada. Dia após dia, percebeu que caminhava junto de si um ser que nunca havia percebido antes. Um ser que, por mais leve e pouco notável que fosse, a complementava de forma brilhante. Pois o dia, na sua presença, parecia mais claro, mais limpo. Pois o ar era respirado com maior firmeza, maior satisfação. Aos poucos, procurou pela solidão e já não a encontrava. Passou a viver acompanhada e feliz consigo mesma, pois aquele ser que fora se descobrindo era a sua própria independência. Independente, acabou com a solidão e foi ser feliz.

Dona de casa


The color of daylight - Jeffrey T. Larson

Depois de observar as sujeiras do cotidiano da família escorrerem pelo cano da pia, ela estendia as roupas no varal, sentindo o aroma floral do produto de limpeza no ar e o calor do sol na pele. Com as mãos úmidas e os olhos também, lamentava sua solidão quase serviçal. Ninguém ousava aparecer por perto com receio de serem convocados a ajudá-la naquela tarefa. Porém, aquele foi o melhor momento do dia para perceber uma verdade: assim como o vento, que varre o campo, imagina ser dono das verdes gramas e, no entanto, se engana – ela agora bem percebia que, apesar de varrer, lavar e limpar aquela casa, não passava de uma simples dona de casa, sujeita às sujeiras dos donos da casa.

Intocada



Ezquizofrenia II - Denis Nuñez Rodríguez

“Sabia que eu não permito que ninguém toque em você? Você deveria parar de surtar comigo, deveria me agradecer. Estou te protegendo, sabia? Hein, sabia? Pare de falar alto, ninguém precisa saber que estou do seu lado. Mas, olhe bem, eles são pessoas ruins; eles não podem tocar em você, por isso eu estou aqui... Sim, sim, eu estou aqui para te mostrar o quanto eles são ruins...”. Essa voz não se rendia aos altos lamentos da mulher. De fato, mesmo andando entre multidões, ela nunca sentiu alguém esbarrar nela. Todos se afastavam, não porque ela estava protegida como aquela voz bem repetia, mas porque todos sentiam repulsa e medo diante de uma mulher que falava sozinha, aos gritos, implorando para que a deixassem em paz. Ninguém entendia sua esquizofrenia. Ninguém, assim, poderia ajudá-la. E ajuda era o que mais ela precisava.

Abstrata


Zhannet - Serhiy Reznichenko


Era cheia de glamour e prazeres. Cheia de presentes... Tantos presentes que até se sentia uma deusa a receber diariamente oferendas de crentes religiosamente cegos pelo seu charme. Era exatamente o seu charme e todos os seus rebolados que os dominava. Porém, não importava a tamanha transcendência que ela era capaz de provocar nos seus galanteadores, nenhum deles ousava abstraí-la da simples crença para o real – ninguém a queria como companheira legítima, como mulher para toda a vida. Apenas a queriam como deusa nos momentos de pecados, queriam-na apenas para a sensação de absolvição, de ritual. Era por isso que sempre séria ela permanecia. Como uma imagem de santa imaculada, séria e de olhar fixo ficava. De santa, nada tinha. De deusa, também não. Tinha era muita solidão de mulher abstrata a observar homens fugindo das suas mulheres concretas.

Ansioso violeiro


Dream in a dream - Fabian Perez


Dedilhando as cordas do violão velho, ficou esperando o mês de setembro acabar. Ficou aflito pelo começo de outubro. Ansioso pelo final do ano. E tinha todos os motivos para aquela sua derradeira espera. Já não possuía nada: perdera a família, os amores passaram, as dívidas cessaram. Desistira dos negócios; entregou-se a vida solitária. E, como um xeque mate, descobrira que sua vida minguava pouco a pouco devido a uma doença irreversível.
Aquela última descoberta servira como uma ótima ‘carapuça’. Já não tinha forças – nem vontade – de recuperar o tempo perdido, voltar à vida social, tentar um recomeço. Descobrir que o seu tempo estava acabando era reconfortante, pois já não ansiava por mais nada. Ou melhor, ansiava sim: pelo final dos seus dias. E, ansioso, continuou a dedilhar o violão.

Insatisfeita solidão


Melancolia - Edvard Munch


Era um escândalo aquela solidão sua. Tentava não torna-la tão explícita, mas, como se tivesse vontade própria, a solidão saltava do seu corpo e ameaçava as pessoas que por perto dele passavam. Talvez por isso essas pessoas não se aproximavam. Era como uma aura negra circundando todo o seu ser. Desde pequeno era o isolado; quando jovem, ele era o esquisito; agora o denominavam depressivo. Mas a maior lástima daquele homem não era o que os outros viam nele, mas como ele mesmo se sentia. Achava a solidão péssima, pois aquele sentimento o fazia se sentir acompanhado. Desde muito cedo sempre quis ficar completamente sozinho, no entanto, a maldita solidão insistia em circundá-lo. Apesar de tudo, ele tinha fé que um dia conseguiria se livrar daquela aura negra e deliciar-se com seus anseios solitários.

Idealizada família


Lyst - Serhiy Reznichenko

Sentou-se para jantar, novamente sozinha. O marido ainda não regressara do trabalho. Os filhos inventavam saídas casuais com amigos. E mesmo se ali estivessem provavelmente permaneceriam longe em mente. Isolada, ela deixou-se levar pelo sentimento de solidão e percebeu os olhos embaçados. Era nesses momentos que recordava o sonho que sempre teve: queria viver apaixonada por sua família, queria curtir os carinhos dos filhos e envolver-se com os prazeres do seu marido. Construiu aquela família, mas o sonho ainda era idealizado.
Nenhuma lágrima foi lançada.  Por força, determinação ou simplesmente por não ter o que fazer para mudar aquela situação, pôs-se a degustar o salpicão. Difícil era permanecer apaixonada por algo que não fazia questão de degustar a vida junto dela.  

Carta de pedido


Suplício por alívio - Edvard Munch


Olá, Desespero. Escrevo na minha mente, porque já não tenho forças nos dedos para escrever em papel. Meus dedos andam fracos do choro lancinante que não para de rasgar minha face. Os pingos de lágrimas já escorrem pelo meu peito e só digo isso para que constates que o meu sofrimento não é um mero abalo. Sim, recorro diretamente a ti, Desespero, para que tenhas pena desse corpo de mulher ferida. Já me bastam os fatos do abandono e ainda queres tu fazer companhia dia e noite a mim? Peço perdão, mas tua presença não me ajuda e penso que ajuda é a tua intenção, pois fosse o contrário, deixar-me-ia completamente na solidão – talvez ainda pior. Ah, querido Desespero, agradeço a preocupação, mas meu peito está machucado, o Amor deixou-me e não vejo melhor remédio do que pedir que vá, deixe-me também. Eu suporto este abalo novamente, as lágrimas equilibrarão o arfar da perda desta vez. Sim, eu cuido de mim mesma, prometo. E tenho mais dois pedidos a fazer-te: se tu vires a Paz por onde andares, Desespero, pede que me venha fazer uma visita e, por último, se vires o Amor, dê esse recado: a última vítima que fizestes, Amor, escolheu morrer em Paz.

Blindagem social



Waiting for Paris I - Myles Sullivan

Saiu do departamento onde trabalhava escoltado pelos seguranças. Entrou no carro blindado e esperou que o motorista fosse rápido pelo tráfego. Alcançou as imediações da sua prisão residencial. O prédio rasgava o céu cinza das seis horas da tarde. Subiu em silêncio pelo elevador principal. Passou pelos empregados sem cumprimentar. Trancafiou-se no seu duplex, condenado a pagar a pena da sua insociabilidade. Observou, passivo, as pessoas livres lá fora. O que esperar de mais um julgamento? A mesma resposta. Sua alma era presa a si mesma e tudo que conquistava na vida era para si. Compartilhava, no entanto, toda sua riqueza material com aquele vazio seleto que deixava ultrapassar as fechaduras e trancas de segurança da sua vida. Não fazia parte da sociedade... E também não queria.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.