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Solidão acompanhada


Supper Time - Horace Pippin

- Como foi seu dia, filha? - Foi bom. Normal. E o seu, pai? - Trabalhando muito. Ambos olharam para a mãe, dona de casa. Não perguntaram a ela como foi seu dia, pois já sabiam que nada demais teria ocorrido por ali, já que nada demais ocorria na vida deles - que saíam de casa, entravam em contato com todo tipo de gente e situações diversas - como que seria diferente ali dentro daquela casa? E não era diferente, de fato. Ao final do jantar - que era uma repetição do almoço - pai e filha se dirigiam aos seus quartos. Davam boa noite. Fingiam educação. Fingiam se importar com que a noite do outro fosse boa. E a mãe - que ficava para trás, para limpar a sujeira e organizar a bagunça - observava todo aquele fingimento automático da rotina. Observava que, ao fecharem suas portas, eles mergulhavam nas suas solidões. E seguiam assim: sozinhos, porém acompanhados. Em quartos vizinhos. Em uma vida compartilhada. Que quase sempre não levava a nada.

Derrota solitária


Androniki - Giorgos Rorris

Esse é aquele momento em que a solidão vem e ataca. Pensou. Repousou as costas doloridas na poltrona. Buscou o sono, sua arma para tentar rebater o ataque, mas se lembrou que, há alguns meses, a insônia também tinha a atingido. Então, insone, teve que se render novamente. Sentir a dor de estar sozinha. Mais um dia a terminar assim. Sabia que esse era o preço que tinha que pagar por ter vivido daquela forma tão egoísta. As pessoas que pareciam na sua juventude tão substituíveis, tão descartáveis, agora pareciam tão fundamentais no auge dos seus cinquenta. Porém, ninguém permaneceu ao seu lado. E ela merecia aquela solidão. Por isso, não lutava mais. Deitaria e deixaria escorrer as lágrimas no rosto - sangues de mais uma derrota - até adormecer por umas poucas horas. Até acordar e viver mais um dia.

Exercícios mentais


And the Bridegroom - Lucian Freud

A cada amanhecer, ela olhava o marido ao seu lado e se imaginava sem ele. Aquele exercício mental a fazia acordar sempre com os sentimentos de afeto renovados,  porque imaginar-se sem ele era doloroso demais para ela. A cada anoitecer, o marido observava a mulher pegar no sono e pensava que teria que ver aquela cena pro resto de sua vida. E sentia aquilo como uma rotina tediosa demais para suportar por tanto tempo. Logo, esse exercício mental dele foi destruindo o casamento. Acabaram se divorciando.
Divorciados, ela superou os fatos mais rápido do que pensava, pois aquela sua imaginação de outrora a tinha treinado psicologicamente para o pior.  Enquanto ele passou a sofrer pelo caos que ele mesmo provocou: sentiu falta daquela rotina segura que tinha e que, por pensar que seria para sempre, acabou destruindo.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.