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Olhar de elogios


 Freay's tears - Gustav Klimt

O marido nunca foi homem de elogiar. Mesmo assim ela aceitou viver ao lado dele. É que havia algo mais poderoso que o elogio: o olhar dele. Todas as vezes que ela se arrumava bem, o marido a olhava de uma maneira única, um olhar cheio de paixão e admiração. Era esse olhar que a enchia de graça e que a fazia tão bem. Porém, a velhice veio e o marido acabou cego. E a mulher teve que aprender a viver sem aqueles olhares apaixonados. Permaneceu ao lado dele, por consideração a todos os anos de amor. Mas perdeu a graça de antes. Até o dia em que, nos braços da morte, o marido cego a encarou no vazio e falou: "Você é a mulher mais linda que já conheci. Nunca deixou de ser. E certamente agora você deve estar encantadora. Obrigado por me permitir viver ao seu lado". Quem ali estivesse ou por ela passasse, veria uma viúva cheia de graça, como nunca se imaginou ser possível ver.

Retrato


Erasing herself 2 - Roberta Coni

"Querida, por que se vestir assim? Essas tantas maquiagens não te deixam tão bonita", a avó observava a neta se arrumar. Como resposta a esse palpite, a menina gritou "olha quem vem falar de beleza para mim, feia como a senhora é! Me deixa ser feliz, sua..." E completou o insulto listando os defeitos físicos da velha avó, antes de sair para festa. No outro dia, acordando cheia de ressaca, a neta encontra no espelho do quarto um retrato em preto e branco de uma moça que era a sua cara. Assustada com tamanha semelhança, correu até a avó pedindo explicações. "Essa sou eu, na sua idade". A moça ficou sem palavras e a avó continuou: "é só para te dizer que tome cuidado com suas palavras e seus conceitos. Se você tiver a sorte de viver o tanto que eu vivi, é muito possível que acabe tão feia como eu sou. E espero que você tenha essa sorte, não para que você pague pelo o que me disse, mas para que você aprenda que, no final, beleza pouco importa. Não construa sua felicidade com base na sua beleza, querida. Senão, quando chegar à velhice, será uma completa infeliz".

Romance



Pierre Auguste Renoir, Woman Reading

Na espera pelo ônibus de todo dia, se apaixonou pela leitora sorridente. Mas vivia amargurado pois não conseguia tirar os olhos da moça das páginas que ela levava sempre consigo. Aquele sorriso e sua leveza diante da narrativa o encantavam de tal forma que decidiu um dia chamar sua atenção. Depois de muito hesitar, iniciou uma conversa com ela. Recebeu como resposta a fisionomia mais raivosa que já vira na vida. Assustado com tamanho ódio expressado, ele percebeu que a beleza da moça só poderia ser encontrada durante suas leituras. Infelizmente não havia espaço para ele na vida dela. E ela sem um livro não seria assim tão encantadora. Decidiu não mais intervir. Porém, dedicou seu tempo a se imaginar personagem dos livros dela. Aí então, a namorou. E viveu um amor digno de um romance.

Seu perfil


Blue Lovers - Marc Chagall

Era seu perfil preferido. O nariz não era simétrico. E ela não gostava de simetrias. Os olhos eram fundos, como se o crânio afundasse com o peso brilhante daquelas duas amendoadas pedras preciosas. Os lábios, duas pétalas naturalmente róseas que repousavam por cima de uma dentadura firme a sorrir. De longe ou de perto, era definitivamente o seu perfil preferido. Era um observar radiante. Um despertar de desejos. Um se aproximar em contentamento. Era seu, e sabia.

Simples viver



Castilla I - Miguel Marazuela

O casebre era vestido de uma fantasia imutável. Quem por ali passasse, lamentaria a pobreza do mundo. Lamentações inúteis. Os donos da casinha apenas esqueceram-se do mundo e da mania de riqueza das pessoas. Sem fantasias, apenas eram tão felizes na simplicidade daquele lar, que a feia aparência servia para afastar intrusos que, por ventura, sempre ousavam em perturbar os seres felizes. Ali dentro do casebre viviam um homem idoso, sua senhora esposa cega e seus três comportados cachorros. O homem não havia mais o que apreciar do que a beleza do amor da sua esposa; a senhora, cega, não enxergava a feiura da casa, somente sentia-se amada; os cachorros, completudes daquela fidelidade, não eram humanos para se importar com padrões de beleza. Simplesmente viviam naquela imensa e feliz simplicidade.

Felicidade negra


The colors of black - David R. Darrow

A senhora branca ficava vermelha de raiva. Era difícil suportar a ousadia daquela negra. Pele lisa, macia, traços simétricos, lábios cheios, olhos brilhantes, dentes impecáveis... Todo aquele arranjo facial quase perfeito irritava qualquer branquinha rica da alta sociedade. Pior ainda era suportar a alegria de viver daquela escrava. Não importava quantos dias de açoites seguidos, na manhã seguinte lá estava a pele negra daquela escrava a brilhar.
Um dia, a senhora branca perguntou discretamente à escrava o que a fazia suspirar de felicidade. A simples mulher negra respondeu firme: “Sou feliz, porque me amo antes de tudo. E exatamente por isso, não tenho inveja de ninguém”. Logo ela concluiu, porém sem falar: amor próprio era a loção de beleza que faltava àquela branca senhora.

Carta a Narcisa



Girl combing her hair - William McGregor Paxton

Cada traço doce do seu rosto a encantava tanto que ela costumava passar horas inteiras se observando. Talvez por apenas se admirar, ela não conhecesse nenhuma outra beleza mais acolhedora do que a sua própria. Um dia, sem ela perceber, seu pai mandou um pintor desenhá-la numa tela enquanto ela se admirava no espelho. Aquela pintura permaneceu escondida por muitos anos. Seus pais morreram e a velhice veio murchando a imagem da bela moça. Ela pensou que não iria suportar o resto da vida sem a sua beleza para admirar e caiu numa profunda tristeza. Porém, seu irmão, sentindo ser aquele o momento certo, mostrou a pintura e entregou uma carta do pai falecido assim escrita: 
“Filha querida, é uma pena que somente agora que a velhice chegou para você é que poderei falar algumas palavras e você poderá ouvi-las com atenção. Não pense que a felicidade existe na sua imagem. Acredite que as mais belas coisas estão longe do seu espelho. Aproveite o resto da sua vida e viva de verdade. Estou morto, porém se estivesse vivo olharia para o fundo dos seus olhos e diria que agora, velha e desfocada, você está incrivelmente mais linda do que a moça bela que apenas perdia a vida a se admirar. Beleza de verdade está na vida, filha. E por acaso, você já viu alguma imagem pintada da vida por aí? Com amor, seu pai”.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.