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Esmola desumana



Contadina - Ciro Morrone

Sentiu aquela sensação tensa que paira no ar quando aparece uma velha senhora pedinte, contando alguma história muito triste, suplicando por alguma ajudinha – qualquer que seja. Percebeu aquele orgulho calado das pessoas, que negam dar qualquer que seja a ajudinha, acreditando que estão sendo cidadãos ao deixar de perder alguns centavos para alguma esmola. Constatou a falsa filosofia social da esmola como fator de incentivo à pobreza. Uma tese toda para reforçar a destruição da solidariedade humana. A declaração de extinção do altruísmo. O amansar dos egos cívicos. Notou o desamparo da velha pobre senhora. E, mesmo assim, nada fez. Seguiu com sua cidadania forjada.

Direitos sociais


Paesaggio Urbano - Mario Sironi

Passava por um ponto de ônibus, quando ouviu uma garota, com um grosso livro no colo, falar em voz alta a um amigo algo como “são direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia...”. Nem conseguiu ouvir o resto da frase, pois logo encheu os olhos d’água. Emocionou-se. Não sabia o que significava exatamente direito social, mas sabia que, como parte da sociedade, ela talvez merecesse todas aquelas coisas bonitas que a garota falava. Sentiu vontade de perguntar à menina onde ela podia ir reclamar aquelas coisas. Mas sentiu vergonha. Acabava de ser maltratada na fila do hospital público. Voltava para o seu casebre, onde seu filho a esperava com fome e sem nenhuma educação. E não sabia de onde tirar dinheiro para comprar comida para o filho, pois há tempos não sabia o que era um bom trabalho. Emocionada, continuou caminhando. Tentou esquecer aquelas palavras tão bonitas.

Águas divididas



sem título - Edouard Manet

Ser empregado tinha suas particularidades. Uma delas parecia gritante frente às outras: a separação das águas entre os donos ricos da casa e os empregados pobres. Havia uma garrafa na geladeira com água mineral para os primeiros, enquanto para os últimos, uma garrafa com água direto da torneira. O trabalho duro de limpeza era todo refrescado nos goles da água da torneira, enquanto o rico ócio era compensado com goles de água comprada, industrializada.
Um dia, porém, um empregado quebrou as regras e bebeu a água mineral. Amanheceu no outro dia gravemente doente. O diagnóstico do médico – que a dona da casa teve a piedade de pagar – apontava ser uma infecção por bactéria transmitida por meio da água. Pelo visto o organismo do empregado não era forte ou acostumado com o outro tipo do líquido.
Muito doente e beirando a morte, a última frase que ouviu antes de falecer foi: “pobre é assim, quando tenta ser rico, se estrepa”.

Deficientes



Wind from the sea - Andrew Wyeth


Nascera deficiente; não podia andar, correr, viver fora do seu quarto; não tinha quem muito cuidasse dele, pois todos que moravam na casa tinham que trabalhar para fazer a família sobreviver. Portanto, vivia sozinho com poucas visitas. Enquanto isso, seu maior prazer era observar o mundo que vivia lá fora através da janela: o vento, as sombras dos pássaros que por ali sobrevoavam, as árvores distante e densas... Mas naquele dia observou algo novo: cinzas atravessavam a janela e pousavam no seu lençol branco. Algo estava pegando fogo, sendo destruído?
“Filho, vamos nos mudar rápido”, a mãe cheia de rugas entrou no quarto, apressada e preocupada. “O governo decidiu despejar a gente da nossa terra. Estão queimando as florestas para construírem alguma coisa...”. Foi nesse momento atordoado que ele viu pela primeira vez o mundo de fora do seu quarto.
Mais tarde, ele iria concluir que sentiria saudades do tempo em que não conhecia o mundo. Tempos difíceis seguiram-se desde então: desprezados, sem ter para onde ir, sua família ficou tão deficiente quanto ele mesmo – não sabiam para onde andar, correr, viver.

Vida movimentada


Street Scene - George Grosz

A sua vida social era agitada. Estava sempre no centro de todos, tentando chamar atenção. Cumprimentava cordialmente quem na sua frente passasse. Por vezes havia quem lhe retribuísse o comportamento, por outras, o ignoravam. Natural, pensava ele. Para uma pessoa que tem uma vida movimentada, manhã, tarde e noite na rua, aquilo poderia ser natural, uma vez que ele teria que lidar com personalidades diversas.

Mas ele não gostava dessa vida aturdida. Afinal de contas, o que ele era? Um mendigo. Não voltava para casa, porque literalmente vivia na rua.  Cumprimentava todos que passavam com a esperança de sua súplica arrancar daqueles pedestres uma forma de mudar sua situação. Recebia atenção de alguns: umas moedas, um pedaço de pão que restou do lanche de alguém ou algumas bençãos de religiosos. Mas o natural, e ele naturalmente aceitava isso, era ser ignorado. E tinha alguma coisa que ele pudesse fazer? Não, pensava. Sentado naquela calçada larga, sujo e maltrapilho, estendia a mão àquela sociedade.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.