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Lara, Aldo e o mundo


Gaston La Touché

Lara era tão frágil. Cheia de incertezas, indecisões. O mundo ainda era um grande enigma para seus parcos anos de vida. Era jovem e assumia que não sabia de quase nada. Por isso a timidez diante do mundo. Mas uma coisa sempre teve dentro de si: muita curiosidade.
Tal retrato psicológico de Lara logo encantou bastante Aldo, um homem já tão vivido. Ele se apaixonou pelas fraquezas dela. Sentiu ânsia de a proteger do mundo pelo resto da vida. Logo, empreendeu no desafio de a conquistar para si. E ela se deixou conquistar, mesmo com receio, mas motivada por pura curiosidade. Então, conquistada, passou a ser mulher superprotegida pelo homem. Aldo, antes cheio de boas intenções, passou a nutrir um grave sentimento possessivo. Queria limitar toda e qualquer forma de Lara se fortalecer, se descobrir. Queria substituir a noção de mundo na cabeça dela pela noção de viver completamente voltada para ele. Queria ser o único e exclusivo universo daquela mulher. Mas mal sabia ele que não se apaga o mundo diante dos olhos dos curiosos. E que curiosidade é o primeiro ingrediente para a porção de fortalecimento que toda pessoa precisa para superar seus próprios receios. E esse ingrediente, Lara tinha em boas doses. Logo, tudo era apenas uma questão de tempo. Mais dias, menos dias... Ela iria descobrir o mundo. Iria se descobrir.

Sintonia surreal


Lovers holding hands on beach - Helga McLeod

Ele tocou na mão dela. Envolveu os dedos ao redor dos dedos magros. Deslizou o polegar na palma da mão. Aquilo fez ela sentir uma corrente elétrica incomum percorrer seu corpo. Já ele, se arrepiou. Sem falar sequer uma palavra, apenas envolvidos no silêncio daquele instante de reencontro, se questionaram se realmente não existia alguma ligação de outras vidas. Ou uma relação de outros mundos. Ou de passados mal resolvidos. Será se existia? Não sabiam. Apenas sentiam existir aquela tamanha sintonia. Tamanho desejo. Algo que, não importava o tempo que passasse, ao se reencontrarem, sentiam do mesmo jeito. Na mesma intensidade. Não importava com quantos outros relacionamentos se envolvessem, bastava um aperto de mãos, naqueles encontros casuais, e eles já se envolviam de novo. Um no outro. Ali calados, a sentir apenas o tocar das mãos. Até essas mãos se distanciarem e cada um fingir seguir em frente sem o outro. Porque, por mais espiritual, telepática ou de outro mundo que fosse aquela sintonia, eles não estavam mais juntos. E seus caminhos estavam traçados em sentidos distintos. Porém, caminhos que guardavam diversos reencontros, só para lembrá-los que existia no mundo alguém com quem partilhavam aquela surreal sintonia.

Distante liberdade


TM2 - Lou Ros

Mais um dia riscado no calendário. Agora faltavam quarenta dias para ele sair daquela solitária. Estava preso, sem ter cometido nenhum crime. A pena que pagava era por amor. A prisão em que se encontrava era sentimento que vivia por estar longe dela. A distância, para ele, causava tal sentimento de prisioneiro, pois ela era sua liberdade. Não importa quantas pessoas estivessem ao seu redor ou o quão livre no mundo ele estivesse. Sem ela, se sentia sozinho demais para viver. Incompleto demais para seguir em frente. Por isso, preso dentro de si. Era uma solitária em forma de homem. Então, contava os dias para ela voltar. Em quarenta dias, voltariam seus abraços, beijos e corpo. Sua liberdade em forma de mulher. A sua redenção.

A arte de lapidar


Enveloped between a pleated thought - Tran Nguyen


Não, ela não era perfeita. Sim, de fato, isso ninguém é. Mas no caso dela, ela era cheia de imperfeições. Dessas imperfeições que fazem uma pessoa ser mal falada. Porém, ele via nela um brilho especial. Algo que não via em outra mulher. Algo que só ele conseguia enxergar. E, por isso, acabou se envolvendo com ela. Passou por muito baixos. Mas, foi valorizando cada momento alto, que transmitia boas influências para ela. Por muitas vezes, a salvou das confusões em que ela se metia. E, assim, foi construindo uma vida juntos, vida essa que ela nunca imaginou ter. Então, o brilho foi intensificando. Mas isso não foi da noite para o dia. Foram anos, ele a lapidar aquela mulher. É que ele era incansável no seu papel de lapidá-la, pois sabia que toda pedra preciosa sempre foi um dia uma pedra bruta. E só os mineradores sortudos é que têm olhos para enxergar seus brilhos especiais.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.