Pierre Auguste Renoir, Woman Reading
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Edward Hopper
Livros 5 - Norberto Nunes
Não tinha irmãos mais velhos em quem se inspirar. Não conhecia
muito bem seus pais para neles se espelhar. À medida que ia crescendo, dentro
do peito crescia uma vontade de se desprender dos brinquedos e buscar novos
complementos. Descobriu, numa tarde nublada, uma estante cheia de livros. Afastou
a poeira do tempo e leu alguns parágrafos. Sem perceber, acumulava em cima do
lábio superior uma fina camada de suor – algo que tanto o irritava, mas que
dessa vez ele não afastou, notando-se completamente absorto naquela ficção muda
e estampada nas folhas daquele livro. Gravitou o dia inteiro ao redor daquelas
páginas. Encontrou-se. Aquela estante mudou a vida do garoto. Descobriu nos
livros a sua maior inspiração na vida.
The death of Chatterton - Henry Walls
De Agatha Christie a Conan Doyle, percorreu alguns contos de
Allan Poe e descobriu-se assassina de tudo. Sonhos, vontades, homens que a
ignorava, qualquer poeira varrida pelo vento... Era tudo motivo de suspeitas.
Crimes que sua mente arquitetava. Tornando-se louca, imaginou ao redor uma gama
de malucos. Familiares conspiradores, amigos falsos e animais demoníacos. Para
não correr chances de ser a presa e também para não se tornar a predadora,
desapareceu do seu próprio caminho, entregando-se ao último suspiro dos
suicidas. Morreu, assassinada pelo seu terror.
Dizziness - Iman Maleki
Todas aquelas ideias pensadas e batalhadas que tinha que ler
o sufocavam. Teve que encostar seus romances numa prateleira e de longe
observava a poeira assentar por lá, enquanto por ali tinha as teorias
obrigatórias. Lia dois ou três parágrafos e levantava da cadeira para passar os
dedos pelos livros encostados. Sonhava com o tempo em que teria tempo para
lê-los. Sentia o peito amargurado pelas obrigações. Então, voltava para todas aquelas
leituras enfadadas.
Até que chegou um dia que, triste e desesperado, sequestrou
os livros da prateleira e foi perder seu tempo nas entrelinhas ficcionais. Sorrisos,
afagos, memórias, lágrimas, suspiros, tremores... Perdeu seu tempo com todos os
sentimentos vívidos que aquelas prazerosas páginas traziam. Esqueceu-se dos
parágrafos teóricos e forçados. Perdeu todo o seu tempo, feliz.
Biblioteca - Miháy Bodó
Alguns metros de livros os separavam. O olhar aguçado dele não poupava ousadias; identificava-se com os olhos pequenos e leitores daquela moça. Esta lastimava-se e, a cada parágrafo degustado do clássico de Dostoiévski em mãos, lançava um olhar sorrateiro rumo a mesa do lado. Já o rapaz segurava-se à cadeira pouco confortável do prédio público para não deixar seu corpo ir de encontro àquela bela leitora, influenciado, talvez, por um impulso a lá Raskólnikov – aquele perturbado personagem russo que o ocupava no momento.
Se ao menos soubessem que liam o mesmo romance, quem sabe se arriscariam. Mas o silêncio imposto por aquelas vastas estantes de livros os impedia... Permaneceram leitores, de frases e olhares. Frio hábito das bibliotecas do mundo que insistem em silenciar romances.
Lane in Cheshire 1883 - John Aktinson Grimshaw
Atravessou o bosque escuro em segurança, tentando não deixar vestígios. Alcançou o casebre com o peito arfante de excitação. Não sabia se era a adrenalina do percurso ou o prazer da chegada que o deixava daquele jeito. Bateu quatro vezes pausadamente na janela e esperou o barulho da tranca da porta soar. Adentrou no ambiente pequeno e quente, soltou todo o ar do pulmão e olhou para a anfitriã. Bela, olhos negros compassivos, finos lábios vívidos, longos cabelos cor de areia. Mas o que o levava ali não era aquelas características... O que eles faziam – escondido, proibido e à luz de velas – era o que o movia.
Ele tirou o livro de capa dura marrom de dentro do casaco e pôs em cima da mesa velha. “Hoje você vai aprender um pouco de poesia...”, disse ele com um sorriso largo no rosto, deixando a compaixão despertar no seu íntimo. Ela assentiu, sentindo a curiosidade se expandir. Uma madrugada de leitura e aprendizado esperavam aqueles generosos jovens: um garoto rico e uma garota pobre, o primeiro sendo professor e a última, uma dedicada aluna. Separados por um bosque e pelo acesso ao conhecimento... Ou melhor, pelas desigualdades da sociedade em que viviam.
A lanterna de Kyle - Denyse Klette
A madrugada invadia o quarto. O silêncio sussurrava na sua pele. Estava na hora certa para acordar. Levantou, esfregou os olhos e saiu da cama, tendo o cuidado de não deixar o lençol no chão. Saiu do seu quarto e foi direto ao destino de todas as suas madrugadas. Como uma fugitiva, espiou todas as sombras da casa, de modo a não deixá-las saber que por ali ela passava. Diante da grande porta, respirou fundo e sorriu silenciosamente. Abriu a porta e esperou o barulho da ferrugem do trinco não assustar ninguém. Mas ela sempre se assustava.
Venceu o percurso de sua fuga. Alcançou seu maná dos deuses. Diante de si, a biblioteca de seu pai se expandia. Deixou um sorriso sonoro escapar – nunca conseguia prendê-lo diante daquele momento. Agora, buscou o livro que começara a ler há duas semanas. Essa seria a madrugada da conclusão. Aconchegou-se e pôs-se a ler.
Na calada da noite, aquela menininha, sem consentimento dos pais, era feliz. De página em página, se deliciava com a vida.
Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.







