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Romance



Pierre Auguste Renoir, Woman Reading

Na espera pelo ônibus de todo dia, se apaixonou pela leitora sorridente. Mas vivia amargurado pois não conseguia tirar os olhos da moça das páginas que ela levava sempre consigo. Aquele sorriso e sua leveza diante da narrativa o encantavam de tal forma que decidiu um dia chamar sua atenção. Depois de muito hesitar, iniciou uma conversa com ela. Recebeu como resposta a fisionomia mais raivosa que já vira na vida. Assustado com tamanho ódio expressado, ele percebeu que a beleza da moça só poderia ser encontrada durante suas leituras. Infelizmente não havia espaço para ele na vida dela. E ela sem um livro não seria assim tão encantadora. Decidiu não mais intervir. Porém, dedicou seu tempo a se imaginar personagem dos livros dela. Aí então, a namorou. E viveu um amor digno de um romance.

Relato de uma "inferior"



Edward Hopper

De longe, observava seu passado brilhante refletido num emaranhado de papéis desinteressados. A biblioteca municipal era menos atraente do que antes. Mas lá estavam os "superiores" que tantos admiravam. Quão inferior os superiores permitiram que a nobre biblioteca ficasse... Tratava-se de uma história cronologicamente decadente: um dia, ela fora a diretora daquela biblioteca e, apesar de manter tudo em ordem, foi substituída por um diretor "com ensino superior completo". Logo como simples bibliotecária também foi demitida do cargo, por muitos outros com "ensino superior". O último dos cargos, a de faxineira, ainda permitia a ela a chance de organizar e tornar atraente aquele lugar... Até que foi posta para fora de lá, pois uma mulher com "ensino superior incompleto" estava ali para limpar e espanar.  Saindo de lá, a pobre trabalhadora sem ensino superior algum viu o desinteresse se instalar na biblioteca. Lá, não a deixavam entrar. Nem ao menos muitas pessoas queriam entrar. Os superiores administravam um vazio agora. Os inferiores ficavam de fora, esperando uma chance de serem vistos com mais dignidade e capacidade.

Inspiração impressa


Livros 5 - Norberto Nunes

Não tinha irmãos mais velhos em quem se inspirar. Não conhecia muito bem seus pais para neles se espelhar. À medida que ia crescendo, dentro do peito crescia uma vontade de se desprender dos brinquedos e buscar novos complementos. Descobriu, numa tarde nublada, uma estante cheia de livros. Afastou a poeira do tempo e leu alguns parágrafos. Sem perceber, acumulava em cima do lábio superior uma fina camada de suor – algo que tanto o irritava, mas que dessa vez ele não afastou, notando-se completamente absorto naquela ficção muda e estampada nas folhas daquele livro. Gravitou o dia inteiro ao redor daquelas páginas. Encontrou-se. Aquela estante mudou a vida do garoto. Descobriu nos livros a sua maior inspiração na vida.

Terror psicológico


The death of Chatterton - Henry Walls


De Agatha Christie a Conan Doyle, percorreu alguns contos de Allan Poe e descobriu-se assassina de tudo. Sonhos, vontades, homens que a ignorava, qualquer poeira varrida pelo vento... Era tudo motivo de suspeitas. Crimes que sua mente arquitetava. Tornando-se louca, imaginou ao redor uma gama de malucos. Familiares conspiradores, amigos falsos e animais demoníacos. Para não correr chances de ser a presa e também para não se tornar a predadora, desapareceu do seu próprio caminho, entregando-se ao último suspiro dos suicidas. Morreu, assassinada pelo seu terror.

Perda de tempo


Dizziness - Iman Maleki


Todas aquelas ideias pensadas e batalhadas que tinha que ler o sufocavam. Teve que encostar seus romances numa prateleira e de longe observava a poeira assentar por lá, enquanto por ali tinha as teorias obrigatórias. Lia dois ou três parágrafos e levantava da cadeira para passar os dedos pelos livros encostados. Sonhava com o tempo em que teria tempo para lê-los. Sentia o peito amargurado pelas obrigações. Então, voltava para todas aquelas leituras enfadadas.
Até que chegou um dia que, triste e desesperado, sequestrou os livros da prateleira e foi perder seu tempo nas entrelinhas ficcionais. Sorrisos, afagos, memórias, lágrimas, suspiros, tremores... Perdeu seu tempo com todos os sentimentos vívidos que aquelas prazerosas páginas traziam. Esqueceu-se dos parágrafos teóricos e forçados. Perdeu todo o seu tempo, feliz.

Silenciados



Biblioteca - Miháy Bodó

Alguns metros de livros os separavam. O olhar aguçado dele não poupava ousadias; identificava-se com os olhos pequenos e leitores daquela moça. Esta lastimava-se e, a cada parágrafo degustado do clássico de Dostoiévski em mãos, lançava um olhar sorrateiro rumo a mesa do lado. Já o rapaz segurava-se à cadeira pouco confortável do prédio público para não deixar seu corpo ir de encontro àquela bela leitora, influenciado, talvez, por um impulso a lá Raskólnikov – aquele perturbado personagem russo que o ocupava no momento.
Se ao menos soubessem que liam o mesmo romance, quem sabe se arriscariam. Mas o silêncio imposto por aquelas vastas estantes de livros os impedia... Permaneceram leitores, de frases e olhares. Frio hábito das bibliotecas do mundo que insistem em silenciar romances.

Escondidos


Lane in Cheshire 1883 - John Aktinson Grimshaw

Atravessou o bosque escuro em segurança, tentando não deixar vestígios. Alcançou o casebre com o peito arfante de excitação. Não sabia se era a adrenalina do percurso ou o prazer da chegada que o deixava daquele jeito. Bateu quatro vezes pausadamente na janela e esperou o barulho da tranca da porta soar. Adentrou no ambiente pequeno e quente, soltou todo o ar do pulmão e olhou para a anfitriã. Bela, olhos negros compassivos, finos lábios vívidos, longos cabelos cor de areia. Mas o que o levava ali não era aquelas características... O que eles faziam – escondido, proibido e à luz de velas – era o que o movia.
Ele tirou o livro de capa dura marrom de dentro do casaco e pôs em cima da mesa velha. “Hoje você vai aprender um pouco de poesia...”, disse ele com um sorriso largo no rosto, deixando a compaixão despertar no seu íntimo. Ela assentiu, sentindo a curiosidade se expandir. Uma madrugada de leitura e aprendizado esperavam aqueles generosos jovens: um garoto rico e uma garota pobre, o primeiro sendo professor e a última, uma dedicada aluna. Separados por um bosque e pelo acesso ao conhecimento... Ou melhor, pelas desigualdades da sociedade em que viviam.

Fuga


A lanterna de Kyle - Denyse Klette

A madrugada invadia o quarto. O silêncio sussurrava na sua pele. Estava na hora certa para acordar. Levantou, esfregou os olhos e saiu da cama, tendo o cuidado de não deixar o lençol no chão. Saiu do seu quarto e foi direto ao destino de todas as suas madrugadas. Como uma fugitiva, espiou todas as sombras da casa, de modo a não deixá-las saber que por ali ela passava. Diante da grande porta, respirou fundo e sorriu silenciosamente. Abriu a porta e esperou o barulho da ferrugem do trinco não assustar ninguém. Mas ela sempre se assustava.
Venceu o percurso de sua fuga. Alcançou seu maná dos deuses. Diante de si, a biblioteca de seu pai se expandia. Deixou um sorriso sonoro escapar – nunca conseguia prendê-lo diante daquele momento. Agora, buscou o livro que começara a ler há duas semanas. Essa seria a madrugada da conclusão. Aconchegou-se e pôs-se a ler.
Na calada da noite, aquela menininha, sem consentimento dos pais, era feliz. De página em página, se deliciava com a vida.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.