Tinha marcado no celular uma porção de despertadores, que nunca a acordava. Na estante do quarto, tinha um tanto de livros, que nunca lera. Guardava todas aquelas calças, que antes vestia bem, porque tinha planos de começar a dieta logo amanhã. Na bolsa, carregava sempre aquela agenda, com listas de tarefas - que nunca conseguia completar e passavam sempre para o dia seguinte. Eram tantos os seus planos que nunca se concretizavam. Mas nem por isso, ela se deixava desanimar: mantinha uma profunda fé no amanhã. Ainda que fosse mais um de seus eternos planos "ter mais fé na vida".
El inicio - Luz Letts
Ele era todo bossa nova. Nada de assuntos críticos. Nada de
preocupação com a vida social. O máximo de vida social que ele se permitia
pensar era a troca de palavras com as pessoas da vizinhança, os colegas do
dia-a-dia, os amigos de longa data. Vivia na calma de um samba tranquilo, num
ritmo de barquinho que vai, enquanto a tardinha cai. E quando o assunto era
sofrer, ele sofria com a devoção de um eterno apaixonado, sem deixar de mandar
sua tristeza atrás de sua amada e pedir que esta regresse, para dar fim a qualquer
saudade. E por ser todo bossa nova é que ela era inteiramente entregue à ele,
pois fundamental era mesmo aquele amor.
Virou as costas. Retornava para o presente. Mas
ficou sentindo os olhos do passado a acompanhá-la. Insistentes e pesados olhos.
No caminho do retorno, ela se sentiu triste, extremamente pesada, como se cada
passo tivesse que levantar toneladas de ressentimentos do passado. Este que a
culpava por não ser o presente e que dizia que, não importava o futuro, sempre
estaria presente. Ela, que não tinha culpa alguma, continuava na luta do
passo-a-passo. Todos esses ressentimentos frutos da falta do entendimento de um
fato: todos eles – passado, presente e
ela – eram brinquedos da Vida. A Vida que brinca sem dó.
The passenger - Paul Roberts
Parei no caminho para observar aquele momento. Ela dormia no
banco do carro ao meu lado. Não era um sono perfeito, daqueles de princesa em
filme romântico. Era uma boca entreaberta, uma respiração pesada, a cabeça meio
torta para o lado. Mas estava linda. Era a imagem que eu havia esperado
presenciar ao longo de toda a minha vida. Eu estava sendo o felizardo ao
presenciar seu momento de sono, frágil e íntimo. Agora era eu! Depois de tantos outros viverem ao lado dela, agora ela, finalmente, está nos meus braços.
E a felicidade, enfim, se instalou na minha vida. Voltei minha visão para
frente e segui aquele longo caminho, com minha amada vítima sequestrada e dopada ao lado.
Sem nome - Alejandro Boim
Feche a porta. Era o que a placa pendurada
na porta sussurrava para quem passava. Era uma medida encontrada por ele para
deixar ali guardadas todas as melancolias que ele vivia. Não queria
compartilhar suas mágoas. Ele gostava de ser o único a sofrer por ali. Pois
sofrer tem lá suas vantagens. Desde que, ainda muito pequeno, foi diagnosticado
com depressão, nunca mais recebera sermões raivosos do pai, nem obrigações
domésticas da mãe, tampouco podia ser maltratado pelos irmãos. A depressão era
o que assegurava toda a atenção, o carinho e os privilégios que achava merecer.
Por isso, cultivou uma série de melancolias ali no seu quarto. E fechava a
porta para qualquer motivo que afastasse suas mágoas.
Lovers in the lilacs - Marc Chagall
Eram muitas expectativas dentro de si, que doía respirar. Era muita palpitação para um só coração. Eram sonhos demais dentro de uma só mente imaginativa. Cansava viver assim tão intensamente, sempre de olho no futuro. Até que conheceu um outro coração palpitante. Seu salvador. Aquele que conseguiu trazer o olhar dela para o presente. O presente que era ele. Presente que o futuro - tão desejado por ela - reservou. E ela recebeu de mente aberta, coração acelerado e respiração arfante, aquele presente. Compartilhou com ele seus sonhos, expectativas e palpitações. Passou a viver de forma menos dolorida. De forma mais vivida.
Bristol - Gaetan Henrioux
No ar pairava uma fumaça. O apartamento cheirava a erva queimada. A cabeça estava leve. Tonta. Pensou que, se a vissem assim, talvez seus pais a chamariam de tonta. E ela riu. Agora, pela primeira vez, eles acertariam o adjetivo. Estava tonta, sim. Tonta de tanta liberdade. Depois de uma vida inteira presa àqueles padrões sociais, se desfez das amarras da vida que seus pais queriam que ela vivesse e agora estava entregue à paz daqueles que pouco se importam com a vida. Agora, ela pairava livre no ar, como aquela fumaça que observava ali em cima da sua cabeça. Leve. Tonta. Livre.
Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.






