Vingou-se


Rostro 2 - Rossina Bossio

Depois que a irmã mais velha roubou o seu namorado platônico, ela contou para os pais que a irmã havia perdido a virgindade muito cedo. Os pais castigaram a filha mais velha, mandando ela para um internato. Assim, se vingou. Depois que o marido pediu divórcio, ela encheu a cabeça do filho pequeno de coisas ruins sobre o pai. O filho nunca teve um bom relacionamento com o pai. Assim, se vingou. Depois que uma amiga a reprovou por ela se comportar de forma tão mesquinha, ela acabou com a amizade e espalhou a todas as outras amigas que aquela era falsa, que sempre falava mal das outras. Assim, se vingou. Essas e outras memórias rondavam a mente daquela mulher, enquanto ela estava na quimioterapia. Percebeu que todos os momentos felizes da sua vida foram sempre ligados à vingança. Mas que nunca havia sentido a felicidade de fato. Mas ao invés de voltar atrás e pedir perdão por suas vinganças, a mulher, com tanta raiva de si e sem muitas chances de vencer aquela doença que a alcançou tão cedo, desistiu de se cuidar e passou a esperar sua morte chegar. Quando morresse, se vingaria de si mesma. E aquele seria seu último momento feliz.

Entre tiros


Guns - Andy Warhol

Som de tiro. Não só um. Muitos tiros. Para seus ouvidos, não era barulho. Era som, como dos passarinhos na primavera. Mas diferentes dos passarinhos – que só apareciam na primavera – os tiros não tinham estação. Eram sempre presentes. E nunca tivera medo disso. Não até ouvir aqueles tiros. Não eram tiros das armas do pai. Sabia disso. E soube da pior forma. Sangue. No chão da sua casa, havia muito sangue. Descobriu o corpo do pai morto na sala. De súbito, acordou. Aquela lembrança novamente durante o sono. O homem levantou, lavou o rosto para afastar aquela memória. Lembrou as palavras do homem que matou seu pai: “menino, não se preocupe, agora vamos te levar para um país melhor e terá uma educação melhor. Não precisará viver entre tiros”. Diante do espelho, ele encarou seu próprio riso. Muito enganado. Apesar do seu passado renegado, com seus pais talibãs mortos, após ser supostamente acolhido por outra nação, educado e formado, agora era policial. E escolhera aquela profissão só para continuar vivendo entre tiros. Porque ele foi criado assim. Porque aqueles foram os valores ensinados por seus pais. E sairia para mais um dia de trabalho. Para atirar. Porque aquele era o som da sua vida.

Tanta saudade


Happiness - Clare Elsaesser

A saudade não a apertava mais. De tão grande que era, a saudade daquela moça já escapava para apertar seu arredor. As pessoas não se sentiam mais tão bem ao lado dela, pois a saudade que ela transmitia causava a sensação de aperto nos outros. E por onde ela passava, a saudade ia envolvendo as pessoas, os lugares, os ares... Até o dia que sua saudade ficou tão grande que apertou o mundo. E nesse aperto mundial, ela sentiu que havia tocado nele. Ele, razão daquela saudade, que estava a uma distância tão grande. Distantes por um tempo tão longo. E, então, pela primeira vez, meio a tanto tempo e tanta distância, a moça agradeceu por ter aquela saudade. Saudades dele. Saudades que a mantinha perto dele.

O vazio no olhar


Lady Beatrice - George Clausen

Ela tinha o vazio nos olhos. Ninguém conseguia olhar para ela sem perder, nem que seja por um instante, o ar. Algumas pessoas simplesmente não conseguiam trocar palavras com ela. Outros gaguejavam. E a técnica mais usada por aqueles que com ela mais interagia era: evitar encarar o olhar daquela moça. Mas a moça não notava esse poder que possuía, de causar tamanha surpresa nas pessoas. De tirar o ar dos outros. Ela não sabia que carregava o vazio no olhar. Pois nunca teve a chance de encarar seus próprios olhos. Nascera cega. Com olhos num cinza opaco. E vivia com a impressão de que os seres humanos são, por natureza, silenciosos. Porém, o que ela nunca saberia era que, por natureza, o vazio é algo difícil de encarar. 

História real



The pages of time - Shiori Matsumoto

A pequena princesa passava dentro de um carro blindado e discreto, para não chamar atenção. Observava as tantas pessoas que por ali circulavam, tiravam fotos, exaltando aqueles monumentos. Sabia que aqueles prédios ornamentados e aquelas artes monumentais, espalhados pela cidade e tão famosos no mundo inteiro, foram erguidos e projetados em homenagem aos seus antepassados da realeza a que pertencia. Eram presentes e honrarias conseguidos graças às riquezas dos antepassados da maioria daqueles tantos turistas. Sabia que houve muita exploração para que a sua cidade fosse tão brilhante e encantadora como hoje o mundo a considerava. E, apesar disso, lá estavam todos aqueles turistas apreciando, aplaudindo e rindo diante desses monumentos da sua família real. Esse fato ela sempre observava, mas nunca conseguia compreender. Ela não encontrava lógica na história. História essa a que ela, sem querer, pertencia.

Solução racional


Long day - Ed Hofer

Ouviu os pais dizendo que teriam que tirar o Bob de casa. Arquitetavam a ideia de levá-lo para um lugar bem distante, soltar a coleira e deixá-lo para trás. Pelo o que ele entendeu, já não havia espaço para cachorro grande naquela casa. O menino-adolescente retornou pensativo para o quarto, onde encontrou seu querido Bob. Enquanto o cachorro saltitava alegre aos seus pés, ele pensou no quão triste era aquela ideia. Bob era um simples cão, que desde filhote vivia ali na sua casa. Pensou no potencial racional que Bob tinha, então: como ele iria se virar para sobreviver? Para se abrigar das chuvas? Para se alimentar? Onde teria água limpa para beber? Não achava aquilo justo, jogar na rua um ser que nem pensar direito sabia. Logo, encontrou uma solução.
No outro dia, a mãe foi acordar o filho e encontrou a cama vazia e um bilhete com a seguinte mensagem: "Já que a casa não tem mais espaço para um cachorro grande, imagina para um homem que cresce muito mais que um cachorro. Cuidem do Bob. Eu saberei me cuidar". Bob, aos pés da dona, não saltitava alegre.

Tempos saudáveis


Cakes - Wayne Thiebaud

Na capa da revista a manchete principal anunciava uma vida saudável através de um novo modo de nutrição, sem açúcares. A senhora baixou a revista e olhou a bandeja de doces artesanais postos à venda. Uma receita passada de geração em geração. A fama que seu sobrenome carregou desde a muitas décadas. Mas agora jaziam todos os doces sem nenhum cliente para apreciá-los. Jazia a fama de doceiras com seu sobrenome. Tudo por conta de uma tal vida saudável... Como se ela, todos da sua família e de épocas passadas não tivessem tido uma vida saudável. E ali ficava, todos os dias, na espera de uma venda sequer. Entristecida, por ela viver naqueles novos tempos. Tempos "saudáveis". Tempos amargos.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.