Recomeçar



L'origine du monde - David Agenjo

Acabava seu sétimo namoro. Além do desgaste emocional, da falta que aquele companheiro faria, do processo de se desacostumar... Ela sentiu um profundo desinteresse em recomeçar. Conhecer outra pessoa, entender outros costumes, se amoldar a um novo corpo... Tudo parecia desgastante demais. E, então, desistiu. Desistindo, decidiu. Recomeçaria, mas consigo mesma. Se conheceria, descobriria seus próprios costumes, definiria seu corpo. E sem mais desgastes, pois ela não se abandonaria. E isso haveria de bastar, enfim.

Confidências


Sem título - Rob Hefferan


Trocavam confidências em silêncio. Ele a queria. Mas não podia. Ela não o queria. Mas podia. O não querer dela era superado pelo desafio de ficar com um homem proibido. O não poder dele era superado por um desejo acima do normal de possuir aquela mulher. Mas aquele misto de sentimentos, recíprocos ou não, não eram suficientes. Nem ele tinha coragem de se envolver com algo proibido. Nem ela demonstrava interesse demais, para não parecer por demais envolvida. Assim, ficavam ali, trocando confidências em silêncio. Pois era o que lhes restava.

Dona do crime perfeito


Tess II - Fabian Perez

Só tinha uma forma de liberar toda aquela energia que pulsava dentro dele. A forma era complexa, mas harmônica. Umas curvas aqui, umas entrâncias ali, um conjunto todo humano. Um todo feminino. Mas bem específico. Era uma forma que só aquela mulher tinha. Ela era dona da única forma de libertá-lo. Ela era o único remédio para aquela sua pulsação. Ou ele eliminava aquela energia louca, ou iria explodir. Explodiria e morreria. Morte matada. E ela bem sabia dessa sua exclusividade. E adorava isso. Mas não se entregaria. Queria vê-lo explodir. Queria matá-lo. E não se preocupava com isso, pois sabia que depois de morto, ninguém iria incriminá-la. Ser a única forma de prazer de um homem, e usar isso de má-fé, ainda não era criminalizado. Era o "crime perfeito". E ela era dona disso.

Carta branca



Reader, Flowers in her hair - Henri Matisse

Dobrei uma folha em branco, coloquei no envelope e enderecei para a sua casa, meu bem. Agora – enquanto a carta branca deve estar percorrendo ruas vazias e ruas movimentadas, a caminho do seu caminho – escrevo aqui essas palavras, nesse pedaço de papel de um velho diário, sem data, sem ano... Só para assegurar que, em algum breve futuro, quando eu estiver curada desse meu sofrimento, eu possa retornar a essas páginas e aqui ver escritos todos os sentimentos que eu poderia ter escrito para você. E não escrevi. Não para você. Mas os deixei registrados aqui, só para mim. Pois, meu bem, você não merece os meus sentimentos. Não por esse sofrimento todo que você me causa. O máximo que merece é uma carta branca. Repleta de um vazio similar ao que você deixou em mim.

Relacionamento interessante


The bed, the chair, the dancing watching - Eric Fischl

É desolador ver dia após dia minha velha companheira se esforçar tanto para manter nosso relacionamento interessante. Tem dia que amanheço com ela entre minhas pernas, debaixo dos lençóis. Tem tarde que ela me serve uma taça de vinho com a esperança de esquentar o sangue para a noite adentro. Tem noite que ela se fantasia toda, finge ser o que não é, ser o que todo homem adoraria ter – de acordo com as revistas femininas de autoajuda. Mas eu nunca pertenci a esse “padrão” masculino. O tempo não mudou meus apetites... E é diante desse fato que mais me entristeço: por que razão minha esposa passou a me desconhecer? O que a faz pensar que mudei para eu a querer mudada? Será a velhice e sua perda de memória? Será a rotina e sua ânsia de mudar e enfraquecer os relacionamentos? Não sei. Só sigo a observando, até ver aonde tudo isso vai nos levar.

O fenômeno do fermento


Saturday Afternoon in a Girl's Life - Jeffrey Beauchamp


No domingo, foi para cozinha com a filha de cinco anos fazer um bolo de chocolate para alegrar o dia. Pediu para a menininha que a ajudasse, procurando pelo pequeno pote de fermento. Muito esperta, a menina achou rápido e logo questionou para que servia fermento. Pacientemente, a mãe explicou que uma pequena colher de fermento fazia o bolo crescer. O fenômeno da fermentação foi assistido por ambas. E o domingo foi pura delícia.
Na segunda, depois de voltar do trabalho, a mãe procurou pela filha e a encontrou toda suja de pó branco. Mas o que era aquilo? A menina, pacientemente, explicou para a mãe que era o fermento que ela derramou em cima de si mesma com a expectativa de crescer rápido. Diante daquela inocente cena cômica da filha, a mãe sorriu triste. Uma tristeza por saber que, já tão novinha, a filha já desejava crescer. Abandonar a infância. Sem saber que o resultado do fenômeno do crescimento humano não é assim tão fácil. Nem tão delicioso.

Esmola desumana



Contadina - Ciro Morrone

Sentiu aquela sensação tensa que paira no ar quando aparece uma velha senhora pedinte, contando alguma história muito triste, suplicando por alguma ajudinha – qualquer que seja. Percebeu aquele orgulho calado das pessoas, que negam dar qualquer que seja a ajudinha, acreditando que estão sendo cidadãos ao deixar de perder alguns centavos para alguma esmola. Constatou a falsa filosofia social da esmola como fator de incentivo à pobreza. Uma tese toda para reforçar a destruição da solidariedade humana. A declaração de extinção do altruísmo. O amansar dos egos cívicos. Notou o desamparo da velha pobre senhora. E, mesmo assim, nada fez. Seguiu com sua cidadania forjada.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.