Primeiro encontro



Natalia - Fabian Perez

Então, conte-me mais sobre você – perguntou com uma voz suave, tentando seduzi-la. Ela não pareceu seduzida; pôs-se a falar: Bem, eu não sou uma pessoa de muitas certezas e se eu começasse a afirmar uma porção de fatos sobre mim, estaria mentindo para você. Sou uma pessoa de incertezas. Não tenho nada favorito, nada predileto. Ainda não sei se acredito na ideia de céu e inferno, anjos e deuses, ou se passo a me preocupar com essa vida, sem a expectativa de outra depois da morte. Não confio em cachorros, mas acho que os humanos acabam sendo mais perigosos. Não acredito no governo, mas temo que uma vida sociável sem um seja impossível. Tenho medo do mar, ainda que um dia eu queira morar em frente à praia.
Ele, meio surpreso com aquele jato de informações cuspido na mesa do restaurante, soltou um: Nossa, como você é interessante! Em resposta, meio desiludida ou mesmo sem certeza sobre o que sentir por aquele cara, ela disse: Não tenha tanta certeza assim.

Domingo





Window with view on the Island Bréhat - Marc Chagall

Um incenso queimando. Na caneca verde, um chá de maça e canela esfriando. A solidão, deitada na cama, chamava para dormir. Lá fora, os pássaros riam. Lá dentro, as faltas e os excessos se batiam. Despencava dos olhos o peso daquele domingo, formando ali um inchaço escurecido. Nem som, nem companhia, nem nada. Apenas a espera pela segunda.

A alma da rotina



Laurette's head with a cup of coffee - Henri Matisse

Acordar para trabalhar – trabalhar para comer – comer para dormir. Dormir para sonhar com aquela infância que viveu tão leve como um pássaro no azul do céu. Acordar para trabalhar – trabalhar para comer – comer para dormir. Dormir para sonhar com aquela criança que queria passar a madrugada acordada para observar as estrelas. Acordar para trabalhar – trabalhar para comer – comer para dormir. Dormir para sonhar com a liberdade das tardes ensolaradas acompanhadas de seus livros de ficção-fantástica. Acordar para trabalhar – trabalhar para comer – comer para dormir. Dormir para esquecer que à medida que envelhecia, seus sonhos diminuíam, seu tempo endurecia, sua liberdade se esvaia, seu viver esmorecia. Acordar para trabalhar – trabalhar para... Morrer, um dia. E por fim àquela rotina.

Fundo do poço


Richard Serra


Os diamantes não tinham valor no fundo daquele poço. No fundo, era tudo escuro. Tudo silenciado pela mesmíssima cor de breu. Cá, na humanidade, aquilo era também verdade. Não importava a superfície dos colos femininos ornamentados por pedrinhas brilhosas... No fundo daqueles peitos, tudo era a mesma cor de breu... Que pulsa, pulsa e pulsa. Sangue escarlate como água que pulsa no fundo dos poços do mundo. Que pinga, pinga e pinga feito diamante que deixava cair naquela beira.

Desenterro



A carta - Eliseu Visconti

Debaixo de sua cama, ela guardava um túmulo. Dormia por cima da angústia daquele enterro, até que resolveu desenterrar aquele segredo. Numa manhã como outra qualquer, tirou debaixo da cama a velha caixa de sapato que servia para guardar as tantas cartas de amor, de amizade, de saudades, de ciúmes, de intrigas, de reconciliações... Todas de um tempo que as cartas significavam sua vida. Tirou e jogou no lixo. Enterrava as lembranças bem longe dali. O vazio que deixou debaixo da cama foi preenchido com o alívio de um passado já passado e a esperança de um futuro por vir.

Formado


Alter ego - Rene Magritte

A festa acabara. Subiu as escadas e foi para seu quarto. Foi parado no meio do corredor pela imagem refletida pelo espelho que havia logo ali, no final. Não era ele. Angustiado, percebera o que se tornara: ele não era o que queria, mas o que outros quiseram. Não era ele. O reflexo era a realização de desejos alheios, de pai, de mãe, da família, da sociedade. Diante dessa realidade, ele sentiu uma lágrima descer pelo rosto. Na imagem do espelho, não viu lágrima alguma. Homem não chorava, afinal... E algumas coisas apenas se sentem. O fato era que a sua festa de formatura acabara. Formou-se – formado naquilo que nunca quis.

Fulminante



Separation - Edvard Munch

Apego é uma coisa que aperta o coração. Amor é uma coisa que o liberta. As sístoles e diástoles do coração daquele homem eram intensas. Ele próprio, consciente do seu problema crônico, receitava sua mente a equilibrar o apego e o amor que sentia por aquela mulher. Porém, um dia fatalmente deixou-se aplacar pela desconfiança e pelo ciúme... O coração apertou forte e, como um último suspiro, afrouxou por completo. Foi de ataque fulminante que o homem deixou viúva a mulher adorada.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.