Máscaras de Carnaval




Carnaval nos 4 cantos de Olinda - Olivia Castro Cranwell

Batucada retumbando. Chão tremendo quase na mesma frequência que os quadris das meninas. O ritmo carnavalesco num compasso rápido, tão rápido quanto os relacionamentos que ali se formavam e se desformavam. Um garrafa de cerveja se desfaz no chão, lançando seus cacos entre os confetes. Vidros que servirão de armadilhas pra aqueles seres dançantes desatentos. Mas ninguém estava preocupado com a possibilidade de se ferir. Ou em ferir os outros. Estavam todos feridos por dentro já. Vinham todos de um ano de trabalho árduo. De impostos roubados dos seus bolsos. De amores que não sobreviviam até o próximo carnaval. De insegurança pública que mata. E outras tantas feridas particulares. Eram soldados sobreviventes, diante de uma semana de folga das batalhas. Diante das ilusões, máscaras e fantasias do carnaval.

Olhar de elogios


 Freay's tears - Gustav Klimt

O marido nunca foi homem de elogiar. Mesmo assim ela aceitou viver ao lado dele. É que havia algo mais poderoso que o elogio: o olhar dele. Todas as vezes que ela se arrumava bem, o marido a olhava de uma maneira única, um olhar cheio de paixão e admiração. Era esse olhar que a enchia de graça e que a fazia tão bem. Porém, a velhice veio e o marido acabou cego. E a mulher teve que aprender a viver sem aqueles olhares apaixonados. Permaneceu ao lado dele, por consideração a todos os anos de amor. Mas perdeu a graça de antes. Até o dia em que, nos braços da morte, o marido cego a encarou no vazio e falou: "Você é a mulher mais linda que já conheci. Nunca deixou de ser. E certamente agora você deve estar encantadora. Obrigado por me permitir viver ao seu lado". Quem ali estivesse ou por ela passasse, veria uma viúva cheia de graça, como nunca se imaginou ser possível ver.

Carcereiro de si


Igor Morski

Uma lágrima correu solitária. Mas fraca, secou na metade do seu caminho. É que o terreno que percorria era árido demais. Há tempos que não era irrigado. Aquela lágrima foi a única que conseguiu escapar e tentar socorro. Viviam lágrimas presas dentro daquele homem. Ali dentro, havia sempre um pranto farto. Mas por fora, ninguém percebia. Sem ajuda, as lágrimas sufocavam ali dentro. E se multiplicavam, aumentando mais o sufoco. Então, aquela corajosa lágrima foi a única que conseguira suplicar ajuda externa. Porém, falecida lágrima, não teve força persuasiva. Ninguém notou o lamento interno do homem. Ninguém notou o pranto por trás da máscara árida de fortaleza. Ninguém libertou as tantas lágrimas presas em cárcere. O homem continuou sufocando. Continuou sufocado.

Café e suspiros


Coffee cup heart reflection - Nina Robinson

Primeiro, me apaixonei pelo aroma do café que ela fazia todas as manhãs. Era um cheiro que adentrava meu apartamento com a mesma intensidade que sua imagem adentrava minha alma todas as vezes que eu a via. Era linda. Morena da cor de café. Um jeito fluido e decidido de ser. Um dia, não resisti. Bati na porta do apartamento vizinho, onde ela morava. Fui com toda cara de pau que tinha, me ofereci para tomar o café. Ela não hesitou - que mulher! - e deixou-me entrar. Enquanto ela servia uma farta xícara de café, eu ofereci suspiros - os doces, claro, para iniciar. Experimentei o café... Amargo! Tão amargo quanto a história de vida que aquela negra começou a me contar. Enquanto eu só tinha a contar uma doce história de vida. E você pensa que eu achei ruim? Não achei, só me encantei. Cada vez que o amargor se tornava insuportável, eu jogava para dentro da boca um suspiro e o açúcar era como tomar um fôlego. E senti que os suspiros eram o mesmo para ela. Acredito que era bem isso que ela precisava. E eu também. Um equilíbrio que jamais imaginaríamos viver. Entre o amargo e o doce, um café e um suspiro, uma paixão.


E se?

 

Sorrowing Old Man (At Eternity's gate) - Vincent van Gogh

Se você pudesse escolher qual batalha travar, qual escolheria? Se pudesse escolher quanto tempo atrás retornar, quanto tempo voltaria? E se pudesse escolher alguém para ressuscitar, quem seria? Quantos passos para trás daria? Quais palavras calaria? Quantas horas pausaria? Quais decisões mudaria? Quais dessas perguntas responderia? Quais? Quantas? Quem? Por quê?... E se não houvesse interrogações, seria menos complexo viver? Naquele instante, o velho resolveu responder essa última pergunta que surgia em sua mente. Apenas fechou os olhos e imaginou seus primeiros dias de vida, em que a arte de interrogar ainda não era conhecida. Ah!... Por aquele breve instante, suspirou aliviado ao sentir o quão fácil, natural e simples era viver! Porém esse instante findou-se logo em seguida: "Mas será se era assim mesmo a vida? Ou só na minha imaginação é que assim seria?".

De coração


Crepuscular Old Man (1917-1918) - Salvador Dali

Disseram-lhe que tinha uma bomba relógio dentro do peito. Recordou que desde menino acreditava que guardava no peito o poder de ser um super homem. Descobriu na adolescência que esse poder também era capaz de o tornar frágil. Usou para o mal e para o bem todo potencial daquilo que tinha dentro do peito. Desde as mais criativas histórias de criança às paixões e intrigas. Dos planos de filantropia aos planos de vingança. Em tudo, agia muito com o coração. Mas hoje ouviu que aquele mesmo órgão poderoso agora tinha uma contagem a correr regressivamente. E quando findasse essa contagem, o levaria junto para o seu fim. O coração que o fez viver de forma tão intensa desde menino, era o mesmo que o levava a morrer. Vivia e morreria em razão daquilo que guardava dentro do peito.

Conto de sedução


Lovers - Jarek Puczel

Cavalheirismo é sedutor. Pelo menos era o que ela passou a acreditar que fosse. Pois não havia um dia em que ela não o desejasse. Cada encontro, ele abria uma porta aqui, dava espaço para ela passar, oferecia um sorriso, um copo de água, um boa tarde, uma ajuda para fazer algo... E por aí seguia todos aqueles atos cavalheiresco de um homem que passava longe de ser fisicamente encantador, mas que, não sabia bem porquê, a deixava sem ar. Tão educado. Tão simpático. Tão natural. Ele não parecia um príncipe - faltavam aqueles olhos claros, traços simétricos, músculos dos astros de Hollywood. Mas ele agia como um príncipe. E mais importante do que isso: a fazia se sentir uma princesa. Por isso, ela o desejava. E depois de uma série de frustrados romances com aparentes príncipes, ela aprendeu que mais importante do que parecer, era agir e fazer sentir. Então, ela estava determinada: deixou-se seduzir. Deixou acontecer.

A escritora

Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.