Pierre Auguste Renoir, Woman Reading
Camilla - Anna e Elena Balbusso
Ela era como uma flor, necessitava ser regada. E a água que a melhor hidratava era a atenção dele. Sim, ela precisava da atenção diária dele para parecer viva. Caso ele não desse atenção, ela murchava. Perdia a cor. Parecia morta. E isso ocorria por mais que ela soubesse que ele a amava, por mais que houvesse amor como nutrientes no solo em que a flor estava fixada... É que não basta somente os nutrientes do solo para manter uma flor vivaz. É preciso água - esse precioso meio que distribui os nutrientes. Assim, para aquela flor específica, não era o amor por si só que a sustentava. Era o amor atencioso. Eis a fórmula vital daquela flor-mulher.
Alta - Mário Fresco
Aquela cidade era como uma prostituta velha. Cujas rugas são o que há de mais atraente nela. Cujos lábios eram pintados da cor da moda, para se manter atualizada. E seus clientes mais comuns eram jovens a procura da experiência exata. Uma velha prostituta, eternizada pelos gozos mais sinceros. Que trabalha manhã, tarde e noite. Pois combustível para o prazer nunca lhe faltou. Aquela cidade, mais conhecida pela sua universidade, recebia de braços (e pernas!) abertos uma leva de universitários. Todos com sede de conhecimento e de prazer. Recebia e se despedia deles, quase todos os dias! E era prostituída, abusada, acariciada, elogiada, xingada, engrandecida... Desde memoráveis séculos passados. Sempre grata por cada um que por sua cama passasse.
Trust (serie Lovers) - Lynn Noelle Rushton
Monta acampamento em mim. Sou terra fértil. Não tenho
cercas, nem muros, nem limites. Mas sou lugar seguro. Não há como forasteiros
adentrar esse território que sou. Porque sou lugar feito para ti. E só a ti te
serve. Aposenta tuas mochilas e teus pares de tênis de viajante. Guarda as experiências
de fugas pelo mundo no baú da memória. E vem erguer moradia aqui. Uma cabana simples.
Uma fortaleza grandiosa. Ou qualquer outra estrutura que desejar. Apenas vem, pois
em mim há um pouco de qualquer lugar que tu já tenha ido ou pensa em ir. Só que
com uma diferença: aqui não há motivos para fugir, porque aqui não precisa ter
medo de ser o que você é. Nem de mudar isso que você é. Essa terra suporta tuas
nevascas, vendavais e primaveras. Todas as tuas transformações. Pois nasci para
te sustentar. Para te servir de base. Eis minha felicidade: servir a tua
felicidade. Então... Assenta nessa terra? Não embarca... Casa comigo?
Kierra (detalhe) - Michael Shapcott
A menina, com roupas simples e com um pássaro preso entre os dedos, ficava encostada ali nas
esquinas da cidade movimentada, tentando chamar atenção. E chamava. Os olhos
claros e sérios, o pássaro estranho e a voz angelical irrompiam o cenário urbano. Ao seu redor
pessoas aleatórias se amontoavam para admirar o talento daquela criança. Sem
instrumento algum, a menina passava os dias a cantar, a impressionar com sua
voz de anjo. Sua imagem circulava o mundo virtual. Sua voz se propagava de
celular em celular que a gravava. Mas ninguém perguntava seu nome. Ninguém se
importava com sua história. Os que, por uma centelha de segundo, se importavam,
atiravam algumas moedas na bolsinha que aos seus pés permanecia. E no final do dia, quando o movimento
urbano reduzia, as moedas eram reunidas pelo homem que se
dizia seu pai – cujo trabalho era permanecer distante a observar a filha – e esta,
com a voz de anjo engolida, seguia os passos dele. De volta ao subúrbio. Onde
sua voz pouco importava. Onde tinha nome próprio. Onde sua história se fazia.
Rostro 2 - Rossina Bossio
Depois que a irmã mais velha roubou
o seu namorado platônico, ela contou para os pais que a irmã havia perdido a virgindade
muito cedo. Os pais castigaram a filha mais velha, mandando ela para um
internato. Assim, se vingou. Depois que o marido pediu divórcio, ela encheu a
cabeça do filho pequeno de coisas ruins sobre o pai. O filho nunca teve um bom
relacionamento com o pai. Assim, se vingou. Depois que uma amiga a reprovou por
ela se comportar de forma tão mesquinha, ela acabou com a amizade e
espalhou a todas as outras amigas que aquela era falsa, que sempre falava mal
das outras. Assim, se vingou. Essas e outras memórias rondavam a mente
daquela mulher, enquanto ela estava na quimioterapia. Percebeu que todos os
momentos felizes da sua vida foram sempre ligados à vingança. Mas que nunca
havia sentido a felicidade de fato. Mas ao invés de voltar atrás e pedir perdão
por suas vinganças, a mulher, com tanta raiva de si e sem muitas chances de
vencer aquela doença que a alcançou tão cedo, desistiu de se cuidar e passou a esperar
sua morte chegar. Quando morresse, se vingaria de si mesma. E aquele seria seu
último momento feliz.
Guns - Andy Warhol
Som de tiro. Não só um. Muitos
tiros. Para seus ouvidos, não era barulho. Era som, como dos passarinhos na
primavera. Mas diferentes dos passarinhos – que só apareciam na primavera – os tiros
não tinham estação. Eram sempre presentes. E nunca tivera medo disso. Não até
ouvir aqueles tiros. Não eram tiros das armas do pai. Sabia disso. E soube da
pior forma. Sangue. No chão da sua casa, havia muito sangue. Descobriu o corpo
do pai morto na sala. De súbito, acordou. Aquela lembrança novamente durante o
sono. O homem levantou, lavou o rosto para afastar aquela memória. Lembrou as
palavras do homem que matou seu pai: “menino, não se preocupe, agora vamos te levar
para um país melhor e terá uma educação melhor. Não precisará viver entre tiros”.
Diante do espelho, ele encarou seu próprio riso. Muito enganado. Apesar do seu
passado renegado, com seus pais talibãs mortos, após ser supostamente acolhido
por outra nação, educado e formado, agora era policial. E escolhera aquela
profissão só para continuar vivendo entre tiros. Porque ele foi criado assim. Porque
aqueles foram os valores ensinados por seus pais. E sairia para mais um dia de
trabalho. Para atirar. Porque aquele era o som da sua vida.
Evilanne Brandão de Morais. Tecnologia do Blogger.





